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Um filme sensível, confuso e um tanto onírico. A Árvore da Vida é um filme sobre amor, morte, perda, luto, família, raiva, trauma e tantas outras coisas. Afinal, fala da vida.

O filme de Terrence Malick foi desenvolvido já há algumas décadas, mas sempre foi adiado. No entanto, a espera parece ter valido a pena uma vez que o longa foi indicado ao Oscar de Melhor Filme esse ano, juntamente como uma indicação por Melhor Fotografia e Melhor Diretor (clique aqui para ler sobre outros filmes concorrendo ao Oscar). O elenco também é de primeira, apresentando atores de peso como Brad Pitt, Jessica Chastain e Sean Penn. Arrancando alguns suspiros de “incrível” ou “o quê?” por onde passa, é sem dúvida um filme no mínimo interessante de ser assistido.

Digo isso porque A Árvore da Vida, com seus 138 minutos, não é um filme convencional. Ele possui elementos artísticos um tanto fora dos padrões de Hollywood como grandes monólogos off-screen; montagens de imagens fora do enredo do filme; um enredo não-linear que não necessariamente tem começo, meio e fim; e diálogos conduzidos por sussurros de cunho existencial. Na Wikipedia, o filme é definido assim:

O filme mostra as origens e o significado da vida através dos olhos de uma família da década de 1950 no Texas, tendo temas surrealistas e imagens atráves do espaço e o nascimento da vida na Terra.

E é isso mesmo. Parece bem estranho, e é mesmo. Lá pela meia hora de filme (depois de vermos uma Jessica Chastain mais velha chorando a morte do fillho), o espectador é bombardeado com imagens do Big Bang e do nascimento de constalações e depois o desenvolvimento da vida na Terra que vai parar nos dinossauros. Passado isso, nos damos de cara com Brad Pitt e Jessica Chastain em interpretações muito intensas como um jovem casal no Texas e seus conflitos de família. (Inclusive, acho que a Chastain arrasou nesse filme numa atuação muito comovente.)

É aí que conhecemos melhor a família O´Brien que tem três filhos, três meninos. A história se foca mais em Jack, o filho mais velho, que sofre com a dureza do pai e busca conforto no jeito angelical da mãe. O relacionamento entre Jack e seu irmão mais novo, R.L, é mostrado como algo especial e ao mesmo tempo perturbador. Jack percebe que o irmão é diferente, mais doce e tranquilo, e que tem uma sabedoria que ele desconhece.

O filme emociona em alguns momentos por esse retrato de família. A história parece ganhar uma linearidade ao contar os conflitos entre Jack e seu pai, mas não há nenhuma conclusão. De repente o filme muda pra outra coisa. E novas imagens aparecem, o fim do mundo, Sean Penn (que interpreta o Jack adulto) melancólico no escritório, a família na praia e etc.

Bem, eu digo que A Árvore da Vida é um filme para ser sentido e não entendido. Ou seja, ficar procurando uma história linear ali não vai ajudar em nada e vai te deixar frustrado. Então sente-se numa tarde feliz e assista esse filme sem pretensões e se emocione com as imagens e com as sensações propostas pelo filme. Pense um pouco na sua vida, na sua família, se pergunte um pouco o que você faria para viver melhor e faça isso. Pronto.

Considero esse um filme muito bom, apesar de ter sido longo demais. Inclusive a duração é meu único questionamento em relação a esse filme. Acho que se ele fosse menor, seria mais impacante e mais interessante até. Porque quase meia hora de constelações beira a exaustão mesmo.

Quanto ao Oscar, acho que está na lista dos azarões de Melhor Filme. Imagino que a grande chance que tenha é de levar o prêmio de Fotografia. E sim, esse filme teve uma fotografia primorosa que com certeza vale um prêmio.

Uma comédia romântica com ar inocente que resgata e re-imagina os filmes mudos da década de 20 em Hollywood. Em tempos de filmes 3D explodindo na nossa cara e surround nervoso, assistir algo como O Artista, totalmente em preto e branco e totalmente sem fala, é uma experiência quase alienígena. Mas é um ótimo alienígena!

O Artista, do diretor francês Michel Hazanavicius, é uma produção ousada e diferente. É uma apropriação dos antigos filmes mudos e vem arrancando prêmios por onde passa, inclusive em Cannes, no Globo de Ouro e agora concorre a nada menos do que 10 categorias no Oscar, inclusive diretor, ator, atriz coadjuvante e roteiro original.

Meu maior medo em relação a esse filme foi que ficasse caricato demais. Claro que filmes mudos são sim caricatos, mas eu fiquei receosa de ver um cara estranho fazendo caretas loucamente na tela. Mas isso não aconteceu. Jean Dujardin atuou muito bem e conseguiu realmente me convencer de que era um ator mudo da década de 20. Todos os prêmios que ele levou até agora são mais que merecidos e acho que ele tem chances sim de levar um Oscar.

O filme conta a história de George Valentin, uma estrela dos filmes mudos, que vê sua vida sofrer um golpe quando Hollywood passa a investir em filmes falados. Orgulhoso, George não aceita a mudança e insiste em produções mudas, o que leva seu nome ao esquecimento, seu casamento ao fim e sua vida financeira à falência. Num contraponto, a jovem atriz Peppy Miller (interpretada por Bérénice Bejo) que conheceu o sucesso com a ajuda de George, desponta numa carreira bem-sucedida como atriz de filmes falados.

O filme conta com momentos engraçados, alguns outros um tanto sombrios, mas no fim o clima romântico prevalece. Mas é estranho para nós, espectadores do século XXI, assistir um filme desses sem que haja um só beijo na boca! Isso mesmo. Porque nos filmes da década de 20 ninguém beijava, só abraçava.

Algumas cenas são realmente geniais, como o pesadelo que George tem com o som e a cena de dança entre Peppy e George logo no começo do filme. E ao contrário do que as pessoas podem pensar, o filme não é nada cansativo e é bastante envolvente passado os primeiros três minutos de estranheza quando-é-que-eles-vão-falar. Minha única ressalva foi mesmo à interpretação de Bejo, que não me convenceu como atriz da década de 20.

Recomendo bastante. 🙂

E vocês acharam que eu não ia falar nada sobre o Oscar 2012, né? Já tem filme resenhado e essa semana vai ter mais!!!

Comédia daquelas tipo sessão da tarde pra assistir quando não se tem nada pra fazer. Você de Novo conta com bons atores e com uma idéia clichezona que tenta desfazer o cliché mas que só deixou tudo mais cliché ainda. Não deu pra entender na disso? Então junte-se a mim. hahaha

Eu assisti o filme justamente no contexto sessão da tarde: eu, minha irmã e minha mãe não tínhamos nada pra fazer e queríamos ver um filminho light. O DVD de Você de Novo estava por perto e eu me animei de assistir um filme com a sensacional Sigourney Weaver (alguém aí também gosta dela e é doida pra ver um filme em que ela estreie com a filha, a Ellen Page?).

O filme conta a história de Mani (Kristen Bell), uma garota que sofre bully no colégio mas que depois se torna uma bem-sucedida empresária. Mas ao bem-sucedida vamos acrescentar o linda, deslumbrante, com cabelos sedosos e sorriso sensual. Eu não entendo porque pra mostrar que se deu bem, a sofredora do filme sempre precisa virar uma modelo em algum momento. Por que ela não podia simplesmente virar uma mulher normal?

Eu fiquei com pé atrás com o filme logo nesses primeiros cinco minutos, mas confesso que ele tem sim seus bons momentos. É engraçadinho, até. Kristen Bell é boa na comédia corporal, então é divertido quando ela cai, rola do barranco e leva babada do cachorro. Mas o problema é que não, esse não é meu tipo de comédia.

O embate do filme é entre Mani e sua futura cunhada, a perfeita Joanna que é nada mais nada menos do que a bullyer de Mani na escola. O problema é que Joanna finge não reconhecer Mani que não tem coragem de expor a cunhada com medo de ferir os sentimentos do irmão, mas ao mesmo tempo quer acabar com o casamento dos dois. Eu falei que era cliché.

Mas também falei que o filme tenta usar o cliché pra não ser cliché. Isso acontece quando a tia de Joanna, Ramona (é a Sigourney Weaver!!!) aparece e o espectador descobre que ela tinha uma rixa de escola/sofria bully da mãe de Mani, interpretada pela hilária Jamie Lee Curtis (que sempre faz o mesmo papel, por sinal, mas não deixa de ser hilária rs). O embate entre as duas é bacana, pois coloca em cheque o papel do bully e até mesmo a relação de Mani com a mãe.

Mas aí o filme cai no clichezão maior de todos que é fazer todo mundo encontrar um par romântico no final (mesmo que não seja do nada) depois de terem aprontado muita confusão (eu falei que era sessão da tarde, minha gente).

Filme engraçadinho que cumpre o quesito comédia da comédia romântica (que ultimamente tem se esquecido que é comédia, né?). Não sei se recomendo porque eu fico muito incomodada com essa obsessão de filmes no estilo que pregam que pra uma mulher se mostrar vitoriosa ou forte, tem que ser também linda de morrer. Isso é um saco.

Mas vale pela Sigourney Weaver! Pronto. Parei.

Depois de X-Men 1, 2 e 3 e de X-Men Origens: Volverine, temos mais um filme da franquia: X-Men Primeira Classe. Depois de meses sem ir ao cinema ou escrever sobre cinema, lá fui eu assistir um filme nota 7.

Primeiramente, temos que levar em conta que não é muito esforço fazer um filme mediano sobre X-Men. A trama em si já muito boa e inteligente por si só e por mais medíocre que a adaptação seja, vai ser minimamente interessante. Mais ainda se é uma história que promete investigar o passado de personagens super favoritos da série como o Professor X e o Magneto.

A escolha dos atores foi boa mas ainda acho que Michael Fassbender não me passa de jeito nenhum uma imagem de Magento. Além de ele parecer bem mais velho que Charles (sendo que a diferença deveria ser de apenas alguns anos), ele fica mais pra um bad guy ao estilo Volverine. Depois de ter o classudo Ian McKellen no papel, eu simplesmente esperava alguém mais elegante.

A caracterização dos personagens também deixou a desejar. Não há muito aprofundamento em ninguém, só no desejode vingança de Eric (Magneto) e mesmo assim de um jeito muito plano e pouco complexo. Charles também é um chato, sem qualquer profundidade e a relação entre os dois parece brotar do chão: de uma hora pra outra viram os super amigos.

Essa falta de exploração de personagens foi o que me decepcionou no filme. Afinal, explorar os motivos dos personagens não é justamente a razão de fazer um filme tipo esse? Quer dizer, vamos pensar em Star Wars e os episódios que contam o drama Obi Wan Kenobi e Anakin… tem que ter drama, tem que explorar! Infelizmente X-Men Primeira Classe perdeu grandes oportunidades deixando de lado personagens cheias de potencial como a Mística e a Fera, segregados à pequenas cenas.

Nem tudo é ruim, claro. As cenas de ação são bem feitas e não cansam, o vilão é interessante, os efeitos especiais são ótimos. Mas de que vale isso sem aprofundamento de personagem? Foi mal, galera, mas eu sou a fã mor de um drama psicológico.

Um bom filme, legal pra ver num fim de semana, de ir curtir no cinema com todo o esquema de som e talz, mas não espere demais. O filme promete mostrar a tal primeira classe mas dá um tiro no pé.

Esse é um post sobre o filme. Se você estiver interessado na história da banda, clique aqui.

Os comentários em vermelho foram feitos depois que pesquisei melhor sobre a banda.

The Runaways é a celebrada primeira banda de rock formada só por garotas da década de 70.  Se você acha que não conhece, digita no youtube “Cherry Bomb” e vai perceber que sim, você já ouviu isso em algum lugar. Até porque a líder da banda era ninguém menos que Joan Jett (de “I love Rock and Roll”). Ano passado, a história desse bando de meninas de 15 anos (sim, 15 anos!) rebeldes e surtadas virou filme estrelando Kristen Stewart e Dakota Fanning, como Joan Jett e Cherrie Currie, respectivamente.

A premissa do filme é boa no início. Imagine o ano de 1975 com todo o punk rock, glam rock, caras vestidos de mulher, curtição, início da disco music. Agora imagine uma menina de 15 anos que quer ser roqueira. Imagine que essa menina veste roupas de homem, anda como homem, fala como homem, até faz xixi como homem! Agora imagina que essa menina fica de fora das bandas de rock simplesmente porque é menina. Porque com toda liberação sexual dos anos 60, mulheres no rock ainda era tabu. Simplesmente porque mulher é groupie, não é da banda.

Essa menina é Joan Jett. Que foi uma pioneira no sentido de querer ser guitarrista de uma banda de punk rock só de meninas. Ao conhecer Sandy West, baterista, as duas dão o pontapé inicial para o que seria uma verdadeira revolução musical. The Runaways era um fenômeno não só pela qualidade musical, mas porque quebrava todas as regras. Até as regras de quem quebrava as regras.

O filme captura bem o início de tudo e toda a transgressão envolvida quando elas tocavam. Era realmente se liberar. Surtar. Falar o que não podia ser dito. Ser mullher de um jeito agressivo, revoltado, beirando o violento. A atuação de Kristen Stewart (sim, a de Crepúsculo, minha gente) é sensacional. Ela É Joan Jett. Não tem condição! Não dá pra saber a diferença entre as duas. Juro que não pensei que a moça tivesse tanto talento.

No entanto, o filme se perde. As outras integrantes do Runaways não têm destaque algum e o drama pessoal de Cherrie Currie parece idiota pois o espectador não consegue sentir o que estava pesando para ela. A tensão entre a banda praticamente não aparece, fica parecendo que Cherrie é uma chata que quer ir embora no meio de toda diversão. Mas também, é complicado dizer, pois o roteiro do filme é baseado nos relatos de Cherrie Currie mas produzido por Joan Jett. Ou seja, duas visões completamente opostas sobre o que de fato aconteceu!

Jackie Fox (baixista) não autorizou que sua vida fosse retratada no filme. Então o papel de baixista ficou a cargo de uma personagem fictícia chamada Robin. Além disso a saída de Cherrie Currie se deu durante uma sessão de fotos, não uma gravação, por conta de uma briga séria com Lita Ford (guitarrista). Quem tiver interesse em saber mais dessa história, assista o filme Edgeplay – Um filme sobre The Runaways.

A cronologia do filme também é confusa. A passagem dos anos não é mostrada e nunca se tem certeza de quando e em que ordem as coisas estão acontecendo. Na minha opinião, para dar mais peso à trama, poderiam ter sido mostradas as duras críticas que a banda recebeu dentro do próprio meio do rock, predominantemente masculino e surpreendemente machista.

O ponto alto são as cenas de performance no palco. É aí que é capturada toda a essência do The Runaways, com toda aquela força de arrebentar. A preparação de Kristen nesse quesito foi boa: ela fez aulas de guitarra e realmente aprendeu a tocar as músicas. Já Dakota Fanning teve aulas de canto e performance e mandou bem de diva transgressora. Só achei que não ficou claro no filme que Marie era sua irmã gêmea. Teria dado mais impacto se fosse a mesma atriz.

O filme até que captou bem a essência das garotas...

No geral, é um bom filme que vale a pena ser visto, apesar de seus deslizes. Com um roteiro mais fechado e menos difuso, poderia ter sido um grande filme fazendo jus às atrizes principais e à história da banda.

O Oscar é hoje mas ainda estou firme na minha missão de comentar o maior número de filmes possíveis que concorrem às principais categorias. (Para ler as outras resenhas, clique aqui). E o filme da vez é a comédia Minhas Mães e Meu Pai, da diretora Lisa Cholodenko, estrelando nos papéis principais Annette Benning e Julianne Moore.

Ao contrário do que está escrito no cartaz oficial (clique na foto para ampliar), o filme é um retrato perfeito de uma família convencional. O fato da família ter um casal lésbico não influencia em nada a dinâmica pais-e-filhos, nem mesmo a dinâmica marid0-e-mulher. Os dramas vividos por Nic (Annette Benning) e Jules (Julianne Moore) são comuns a praticamente todas as famílias modernas: filhos rebeldes, diálogo difícil mesmo que os pais tentem uma abertura, dúvidas, filhos siando de casa, dificuldade de lidar com o cotidiano, filhos com amigos que não são uma boa influência, dificuldade em manter a relação amorosa saudável, etc.

A trama começa quando Laser (sim, o nome do garoto é Laser) pede à irmã mais velha Joni (Mia Wasikowska, de Alice no País das Maravilhas) que ligue para o doador de esperma de suas mães. Os dois são mei0-irmãos pois suas respectivas mães usaram o esperma do mesmo doador, Paul (Mark Ruffalo). Paul é dono de um restaurante que utiliza ingredientes orgânicos que ele mesmo planta e leva uma vida um tanto assim na boa, sem muitas preocupações. Desejoso de ter uma família, aceita conhecer Joni e Laser e mostra interesse em manter uma relação com os dois.

Obviamente, as mães não gostaram da idéia e logo começa uma verdadeira tensão na casa de Nic e Jules que se vêem ameaçadas pela presença de Paul. No entanto, a mãe que mais sente a situação toda é Nic, uma médica bem sucedida e durona que gosta de manter tudo sob controle. Vale lembrar que Annette Benning fez render os momentos mais emocionantes do filme e sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz é mais que merecida, diferentemente da indicação de Mark Ruffalo ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante; não achei que foi tão incrível assim nada.

Os dramas familiares são mostrados de uma forma muito sensível e o filme faz pensar em algumas questões permanentes como: até que ponto pode-se interferir na vida dos filhos? Quando é que percebemos que uma relação está indo de mal a pior? Qual é o limite do ciúme? Isso tudo, sem esquecer, é claro, de alguns momentos muito engraçados.

O filme está indicado para a categoria Melhor Filme, mas duvido que vá levar, ainda mais com outros filmes com muito mais peso na parada. Não que não seja um ótimo filme, porque é, mas simplesmente porque o páreo está duro. Talvez possa levar a estatueta de Melhor Roteiro Origial, como aconteceu com a comédia de mesma linha, Juno.

Recomendo muito, principalmente para quem gosta desse estilo de filme comédia-drama-caótico. Com certeza um dos melhores do ano. Ah, e a trilha sonora também não deixa a desejar, ótima para colocar num Ipod ou MP3.

 

Seguindo nos meus comentários dos filmes indicados ao Oscar, vem agora O Discurso do Rei que, apesar de extremamente longo, consegue contar uma história sensível de superação e busca da identidade.

O então príncipe Albert de York (Colin Firth) sofre de uma gagueira incurável acompanhada de um temperamento nervoso e agressivo. Sua mulher, a princesa Elizabeth (Helena Boham Carter), é quem vai de terapeuta em terapeuta buscar algum tratamento para o marido. E eis que então ela encontra o controverso e pouco ortodoxo Lionel Logue (Geofrey Rush), um australiano famoso por curar problemas de fala aparentemente impossíveis.

Já nessa primeira cena do encontro da princesa com o australiano (e vamos lembrar que a Austrália na época era considerada o fim do mundo) podemos ver os costumes estranhos e o comportamento da família real britânica. É até assustador o fato de que os dois príncipes tenham aceitado o tratamento de Logue, que chamava o príncipe de Bertie e toca em assuntos super pessoais.

Aos poucos, o príncipe começa  a melhorar a gagueira, mas é então que um novo desafio aparece: seu irmão, feito rei após a morte do pai, resolve abdicar o trono para se casar com uma mulher divorciada. Albert é então forçado a assumir a coroa, mesmo com seus problemas para falar em público.

O nome assumido por ele em homenagem a seu pai é George VI, pai da atual rainha, Elizabeth II. O roteiro do filme foi feito por um dos netos de Logue, que adaptou tudo a partir das anotações e cartas entre o pai e o monarca inglês. Seguindo o estilo da cinebiografia ao lado de A Rede Social e 127 Horas, O Discurso do Rei perde no quesito impactos escandalosos, mas ganha em sensibilidade e emoção. Afinal, é importante lembrar que George VI foi rei durante a Segunda Guerra Mundial e tinha que fazer discursos não só para as forças armadas como também para o povo.

A amizade entre Logue e o rei é retratada de uma forma única por Geofrey Rush e Colin Firth e a indicação de ambos para a categoria Melhor Ator Coadjuvante e Melhor ator, respectivamente, são justificadíssimas. Inclusive, Colin Firth fez um gago perfeito, sem parecer falso ou exagerado. Imagino o quanto não deve ter sido difícil atingir esse ponto.

Recomendo o filme, mas já aviso para ter paciência: o filme é bem longo. Sem contar que o campeão de indicações ao Oscar e favorito a ganhar a estatueta de Melhor Filme.

 

Depois de ter assistido ao fantástico Cisne Negro, achei que nada poderia mexer comigo esse ano em termos de cinema. Isso até conferir o inacreditável 127 Horas, do diretor Danny Boyle, estrelando James Franco no papel principal.

O filme é baseado numa histórica verídica. E só isso já é suficiente para arrepiar qualquer um. No entanto, diferente de outras cinebiografias, o filme não ficou piegas nem pintou o personagem principal como um grande herói. Pelo contrário, o drama foi feito na medida certa, sem despencar pro melodrama e evitando qualquer heroísmo injustificado. E vamos agradecer à brilhante edição e montagem por isso porque segura durante quase duas horas uma história que tem basicamente um único cenário e um único ator.

E vamos à história. Aron Ralston, ex-engenheiro mecânico que decidiu largar uma carreira brilhante para se dedicar à sua paixão por aventuras (especialmente alpinismo), vai passar um fim de semana (em Maio de 2003) nos canyons do estado americano de Utah. Ralston faz tudo: mountainbike, alpinismo, natação, descidas perigosas em fendas. Tudo mesmo. Ele não tem medo de nada, se cai e machuca, levanta e continua. Um cara super bem-humorado e simpático, mas que acha que pode fazer tudo isso sozinho. Durante uma descida entre rochas do canyon, acontece um deslizamento e uma rocha imensa esmaga o braço direito de Ralston. E ele fica preso, totalmente isolado, no interior da fenda. Pior: ele não avisou a ninguém para onde estava indo. Como diz o próprio Ralston: “Oops”.

Essa é a posição em que Ralston ficou durante 127 horas. Sua mão direita foi completamente esmagada pela pedra.

James Franco, conhecido principalmente pela sua atuação como o Harry da trilogia Homem Aranha surpreendeu ao mostrar todo seu potencial como ator. Ele consegue transmitir todo o desespero de Ralston mas ainda mantendo o bom humor e o otimismo (características essenciais de Ralston como pessoa) sem soar falso ou ridículo. Na tela praticamente 95% do tempo de filme sozinho, James Franco mereceu sem sombra de dúvida sua indicação ao Oscar de Melhor Ator de 2011. E seria justíssimo que o moço levasse a estatueta para casa.

A trama mexe com o espectador. Contando com apenas meio litro de água, um canivete-alicate cego, uma mochila com dois pacotinhos de comida, algumas cordas de alpinismo, uma câmera de vídeo e outra fotográfica, Ralston tenta sair da situação. E o cara tenta de tudo. Empurrar a pedra, mover a pedra, escavar a pedra, içar a pedra. E ele não desiste.

A partir de agora esse post pode conter spoilers. Se você não gosta de spoilers ou não quer saber o final do filme, não leia.

Por conta da privação de comida e água, Ralston tem várias alucinações. E elas ficaram perfeitamente encaixadas no roteiro, que por falar nele, é primoroso. Amarradinho, totalmente justificado, não nos assustamos com as ações do protagonista, pois tudo foi embasado e mostrado anteriormente. Vale levar o Oscar de Roteiro Adaptado também. (A história foi adaptada pelo diretor a partir do livro Between a Rock and a Hard Time escrito pelo próprio Aron Ralston).

 

Cenas da câmera do próprio Aron quando esteve preso. O filme captou direitinho até mesmo a luz e o ângulo da câmera.

É impressionante ver como Ralston não desiste. E principalmente, como ele não pensa em suicídio. Com tanta corda disponível, a maioria das pessoas provalmente pensaria em se enforcar, mas o cara aguenta firme, sempre pensando numa saída. E ele passa horas tentando. Dias tentando. E enquanto não tenta, ele repensa sua vida e suas atitudes. Até que durante o último dia, ele reconhece suas próprias fraquezas de uma forma emocionante. Ele diz: “Essa pedra me esperou a vida inteira. Tudo que fiz em minha vida me levou a esse lugar”. Vendo a si mesmo como um cara egoísta e egocêntrico, Aron percebe que aquele era o lugar perfeito para descobrir que não se pode fazer nada sozinho.

Desesperado depois de tentar de tudo e morrendo de desidratação, ele tem uma alucinação muito forte: vê a si mesmo no fundo da caverna com um menino que aparentemente era seu filho (lembrando que Aron não tinha filhos). Decidido a não desistir, Ralston percebe o único jeito de sair dali: amputar o próprio braço com o canivete cego.

Nem preciso dizer que a cena é horrível. Pessoalmente, eu não vi. Fechei o olho que nem criança mesmo e só abri depois que acabou. Para conseguir, ele quebrou os dois ossos (ulna e tíbia) e saiu dilacerando o resto sem desmaiar. Claro que vale lembrar que Ralston sabia o que estava fazendo. Ele sabia exatamente onde cortar e tinha feito um torniquete. Então o cara não era assim um zé do nada. Digo que é uma cena muito muito forte e realista e que só pessoas de estômago forte deveriam ver. Sério mesmo.

Depois disso ele tira uma foto do lugar e agradece a experiência. O.O Escala a fenda até a superfície, anda cerca de 12km até encontrar uma família que lhe dá água e corre para chamar o resgate. Mas mesmo assim Aron ainda tem que andar alguns quilômetros até que o elicóptero chegue. Chocante? Chocante.

É absurda a vontade de viver desse homem que andou até o hospital e apontou o lugar onde esteve num mapa. (essa informação não está no filme e sim relatada em seu livro. Para ver:
http://www.spirituallyfit.com/volume5/issue2/stories/aron1.htm ou
http://gc009.k12.sd.us/climb_utah.htm) Vale contar também que até hoje ele pratica esportes radicais, mesmo com a ausência do braço direito.

Enfim, um filme excelente, maravilhoso e muito, muito sensível. Eu recomendo muito para todos (é só não ver a cena da mutilação). Alta qualidade em roteiro, direção, direção de arte, trilha sonora e atuação. Merece sim muitas estatuetas!

 

Intenso. Assustador. Brilhante. Essas são palavras mais que adequadas para definir Cisne Negro, novo filme do diretor Darren Aronofsky, que tem no elenco Natalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder e Vincent Cassel.

A trama conta a história de Nina Sayers (Natalie Portman), uma bailarina extremamente dedicada que sonha com um papel de destaque na companhia de balé de Nova York. A chance aparece quando o diretor da companhia, Thomas Leroy (Vincent Cassel), concede a ela o posto de primeira bailarina em O Lago dos Cines, de Tchaikovsky. Como é comum neste balé, a mesma bailarina que interpreta Odete – a princesa amaldiçoada a viver como um cisne todas as noites – também interpreta Odile – a irmã luxuriosa que seduz o amado de Odete. Para Nina, viver a frágil Odete não é um problema, mas fazer vir à tona o Cisne Negro (Odile) é uma tarefa que exigirá dela muito mais do que apenas dedicação.

Nina é obcecada pela perfeição. Em uma de suas falas ao diretor Thomas, logo após ele ter reprovado seus movimentos, ela diz: “Quero ser perfeita”. É então que Thomas a rechaça dizendo que no balé não é apenas técnica que conta mas também entrega ao papel. Nina, no entanto, é solitária, super-protegida por uma mãe que lembra muito a mãe de Carrie, a Estranha, totalmente imatura, que sofre de bulimia e fobia social. A presença de Lily (Mila Kunis), nova bailarina chegada de São Francisco tem um efeito aterrorizante em Nina, que se sente ameaçada pela presença sensual e forte de Lily.

O filme corre num ritmo que mistura suspense e terror psicológico. Em certo ponto da narrativa, não sabemos ao certo se o que acontece na tela é fruto da mente obcecada de Nina ou realidade ou uma mistura dos dois. E aí está o grande triunfo do filme: a ambiguidade. Extremamente focado em sua personagem central, o espectador entra na mente de Nina, perdendo contato com a realidade exterior. E a atuação brilhante de Natalie Portman somente reforça essa impressão.

Indicada ao Oscar e vencedora do Globo de Ouro, Portman foi incialmente criticada por levar à frente um papel um tanto fora do esquema tradicional do Oscar em Hollywood contendo cenas de masturbação e sexo lésbico. No entanto, a atriz levou o trabalho a sério e protagonizou cenas brilhantes que não ficaram despropozitadas como acontece em muitos filmes por aí que inserem esse tipo de sequência apenas para ser “picante”. A preparação para o filme começou um ano antes das filmes. A atriz teve que perder peso e aprender a dançar. Ela treinava cerca de seis horas por dia com Mary Hellen Bowers num esquema que incluía exercícios físicos pesados e aulas de dança. Sobre o treinamento, Portman diz:

Comecei com minha treinadora de balé um ano antes das filmagens, partimos do básico. Nós treinávamos duas horas por dia pelos primeiros seis meses e isso foi uma ótima preparação para que eu fizesse mais, assim eu não me machucaria. Depois dos seis meses nós começamos a fazer cinco horas por dia. Adicionamos natação, eu nadava 1,6 Km por dia, tonificação e depois fazíamos três horas de aula de balé por dia. Aí, dois meses antes das filmagens, nós adicionamos a coreografia, então fazíamos por volta de oito horas por dia. A disciplina física ajudou muito na parte emocional da personagem, pois você tem um sentimento do estilo de vida monástico de só malhar, essa é a vida de uma dançarina de balé. Você não bebe, não sai com amigos, não come muito e submete seu corpo à dor extrema, então você acaba entendendo a auto-flagelação de uma dançarina de balé.

http://www.omelete.com.br/cinema/cisne-negro-omelete-entrevista-darren-aronofsky-e-natalie-portman/

O mundo do balé é tratado com uma crueza assustadora. O sacrifício das bailarinas, o medo de envelhecer e ser posta de lado, os assédios físicos e morais infligidos pelos treinadoras mais a constante pressão para dar o melhor e somente o melhor marcam o clima tenso no filme todo. Inclusive com direito a cenas de pés maltrados, unhas caindo, costelas deslocadas, etc.

O filme funciona também como uma releitura de O Lago dos Cisnes. A trilha sonora que conta com trechos da peça ajuda a compor a dualidade de Nina. Fora a questão do duplo que é abordada de maneira primorosa pela direção de arte e pela edição.

Pessoalmente, foi o melhor filme que vi nos últimos tempos, daqueles que faz a gente pensar por dias a fio. Com um final primoroso, Cisne Negro é com certeza um dos melhores filmes já feitos sobre o mundo do balé e da dança e sem sombra de dúvida, a melhor atuação de Natalie Portman. Não vejo como ela não vá ganhar o Oscar.

 

 

Assisti esse filme já faz um tempo, mas agora que ele arrebatou 4 Globos de Ouro incluindo Melhor Filme Dramático e Diretor, encontrei a desculpa que precisava para comentar.

A Rede Social conta a história da criação do Facebook, provavelmente a maior rede de relacionamento do mundo, desde sua concepção pelo então aluno de Harvard Mark Zuckerberg.

Baseado no livro Bilionários Por Acaso, a trama mostra Zuckerberg de um modo menos heróico e revolucionário e mais sacana e obscuro. Li alguns posts em blogs que reclamavam do filme, dizendo que não conseguiam se identificar com o personagem principal porque ele mal fala e é um idiota. Bem, acho que essa é a idéia que o filme quis realmente transmitir. A de um cara isolado, ambicioso, que se acha o máximo, que um dia brigou com a namorada, resolveu sacanear e criou o Facebook.

O ritmo do filme é excelente. Entrecortado por depoimentos de pessoas que processaram Zuckerberg por plágio e copyright, o espectador é levado pelo drama de Eduardo Saverin, pela depressão de Mark Zuckerberg e até por algumas cenas de comédia protagonizadas pelos gêmeos e pela namorada de Saverin. O timing é perfeito e a trilha sonora ajuda a criar o clima nerd e tecnológico que permeia todo o filme.

O grande conflito do filme, a meu ver, é muito mais a amizade entre Mark e Eduardo do que uma briga judicial.

Achei que o filme foi dramático e intenso onde precisava e retratou de uma forma bem interessante o universo acadêmico e nerd que envolvia os personagens. No entanto, é importante lembrar que apesar de ser baseado em uma história real, o livro que deu origem ao filme é baseado nos relatos de Saverin e dos gêmeos, ou seja, não temos acesso à versão de Mark Zuckerberg. E o filme mostrou isso de uma forma brilhante. Zuckerberg é calado, não sabemos ao certo o que ele pensa. O protagonisa é justamente a lacuna que falta e o diretor soube usar isso a seu favor.

Os atores também foram bem escolhidos. Dou um destaque para Andrew Garfield como Eduardo Saverin. Achei que ele deu a sensibilidade que o personagem exigia. Justin Timberlake como Sean ficou tão destestável, que foi perfeito também.

Recomendo para quem gosta de filmes longos e diálogos extensos. Se você não tem paciência com esse tipo de filme, esqueça!


Sem falar muito

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