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E nada melhor do que passar o Carnaval com um pouquinho de bom e velho rock and roll, não? Então vamos pra sequência da história da banda estado-unidense The Runaways. E esse post vai abordar o conturbado período que se seguiu à turnê japonesa de 1977.

Como sempre, esse é um post do projeto Born to Be a Runaways Fan e as informações que uso foram declarações da própria banda. Para conferir a bibliografia, dê uma olhada nos posts anteriores.

No documentário Edgeplay, Jackie Fox diz:

As pessoas às vezes me perguntam: O que você acha da Lita? O que você acha da Joan? E a única resposta que consigo pensar é: Eu não as conheço! Sabe, eu não sou a mesma pessoa que eu era quando tinha 16 anos. E nós éramos todas incrivelmente difíceis do nosso jeito: Cherie nas Runaways era a pessoa mais egocêntrica que eu já conheci na vida. Lita era uma vaca. Sandy… Sandy apenas parecia ser incapaz de um pensamento independente. Ela tinha a melhor das intenções, mas era facilmente convencida por quem quer que seja da banda que fosse amiga dela na semana em questão. E Joan era, provavelmente, naquele momento, a pessoa mais estável, a que era a peça central na banda. E eu era uma terrível sabe-tudo insegura. E colocar-nos todas juntas era uma batalha de problemas de personalidade.

Com a saída de Jackie no final da turnê do Japão, os ânimos não se acalmaram. Pelo contrário, a tensão decorrente das diferenças de personalidade permaneceu entre as membros juntamente com a competitividade e agora as apresentações para a escala de uma nova baixista.

Vicki Blue antes da mudança de visual imposta por Lita...

Algumas garotas tocaram até que Vicki Blue (Victory Trischler-Blue) apareceu. Vicki ficou sabendo por um amigo que Jackie Fox tinha saído da banda no Japão e ligou para Kim Fowley a fim de marcar um teste. Em Edgeplay, ela diz que se lembra de entrar no estúdio de ensaio e abrir a porta para dar de cara com a banda lá dentro. Ela diz que houve um “momento congelado no tempo” para depois pensar imediatamente: “Ah meu Deus, ela realmente parece comigo!”. E ela estava se referindo a Lita Ford.

A banda ensaiou com Vicki algumas músicas e de acordo com a última, o ensaio foi bom. Então as Runaways pediram que Vicki deixasse a sala para deliberar a decisão. Vicki diz que se sentiu ansiosa, pois queria muito entrar para a banda. Quando ela entrou na sala mais uma vez, Cherie estendeu a mão para ela e disse: “Bem-vinda às Runaways!”. Mas Vicki e Lita realmente se pareciam muito o que, obviamente, não deixava Lita nada feliz. Para resolver o “problema”, Lita pintou o cabelo de loiro e convenceu Vicki a fazer um permanente. Mas ainda assim, as duas passariam facilmente por irmãs.

Lita... realmente parecidas, não?

Mas estranhamente, Vicki e Lita se tornaram um tanto próximas. Em Edgeplay, Lita diz que considerava Vick sua responsabilidade. Foi ela quem ensinou a Vicki todas as antigas músicas das Runaways (e lembrando aqui que Lita é uma ótima baixista! rs) e as duas passavam algum tempo juntas. Ainda no documentário, Lita diz que estava cansada da atmosfera tensa da banda naquela época e que Vicki trouxe um certo ar fresco. Passar um tempo com Vicki era mais tranquilo uma vez que ela não estava envolvida em antigos joguinhos de poder ou em ressentimentos passados.

 O limite de Cherie

Com uma nova integrante, a banda precisava investir mais uma vez em sua imagem. Por isso uma sessão de fotos foi marcada a fim de apresentar The Runaways em sua nova formação. O fotógrafo era Barry Levine, o mesmo que à época fazia a maior parte das fotos promocionais da banda bem como a capa dos álbuns. O ensaio, no entanto, não saiu como o esperado. Essa história tem duas versões, então vamos lá:

  • Versão de Lita Ford e Vicki Blue

Uma das fotos em grupo da sessão fotográfica fatídica...

Lita deu carona para Vicki até o estúdio e lá, juntamente com as outras Runaways, ficaram esperando por Cherie, que chegou duas horas atrasada porque dividia o carro com sua irmã. Lita ficou p da vida, mas a sessão de fotos rolou. No entanto, quando a banda começou a fazer a sessão de fotos individuais, Cherie disse que tinha que ir embora mais cedo. Levine, irado, atirou a câmera no chão e começou a gritar. Cherie, assustada, saiu correndo para o vestiário e começou a se trocar. O problema é que Lita já tinha perdido a cabeça com a história toda. Ela foi atrás de Cherie e literalmente arrombou a porta para empurrar Cherie contra a parede e dizer: Ou é a banda ou a sua família! Cherie, em pânico, diz que era sua família e depois emenda com um: “Eu não posso trabalhar com essa mulher!” e vai embora. Antes de sair do estúdio, no entanto, ela segura o braço de Vicki e pergunta: “Vicki, você vem comigo?” e Vicki diz que não. É aí que Cherie sai da banda.

No documentário Edgeplay, Lita diz que já estava de saco cheio de Cherie e de seus problemas familiares. Ela diz que se importava muito com a banda, com a música e que estava disposta a trabalhar duro para o sucesso das Runaways, coisa que ela achava que Cherie não estava fazendo. De acordo com Lita, Cherie estava sempre atrasada e mais preocupada com relacionamentos (referência ao affair entre a loira e Scott Anderson) e drogas do que com o que era melhor para sua carreira.

  • Versão de Cherie Currie

Cherie chega no estúdio e avisa Barry Levine que tinha que ir embora mais cedo pois tinha que entregar o carro para sua irmã gêmea, Marie, que tinha aulas de atuação, às sete horas. Barry diz okay, mas Lita chega duas horas atrasada e a sessão demora mais do que o planejado. Cherie então, no meio da sessão, anuncia que precisa sair. Levine, irado, atira a câmera no chão. Percebendo que a situação ia ficar feia, Cherie sai correndo para o vestiário e tenta sair dali o mais rápido possível. Mas Lita vai atrás dela, derruba a porta e começa a gritar. No meio da briga, Lita diz que existe a banda e a família e que todas as outras escolheram a banda. Cherie diz que escolhia sua família e vai embora.

E mais uma vez Cherie entra em conflito com seus depoimentos. Enquanto que em sua autobiografia, Neon Angel,  ela diz que ficou arrasada com sua saída das Runaways e que teria voltado se as outras garotas tivessem ido atrás dela para conversar, em Edgeplay ela diz que já tinha tido o bastante e que foi um alívio sair e começar sua carreira solo. Como sempre, drama queen. Eu, pessoalmente, acredito na versão de Vicki Blue e Lita Ford. Até porque são duas pessoas contando a mesma história e Vicki é uma figura bastante mais coerente que Cherie.

E é assim que Cherie Currie, a Cherry Bomb, abandona The  Runaways. No entanto sua imagem com o espartilho branco seria para sempre associada à banda.

Seguindo em frente como um quarteto

No dia seguinte da saída de Cherie, as membros remanescentes da banda se reuniram e Joan teve que assumir a responsabilidade de ser o vocal principal. Tanto Lita quanto Vicki dizem que Joan teve um flash de insegurança, se perguntando se seria capaz de fazer aquilo. A banda a apoiou e a ajudou a escolher as músicas que Cherie cantava que ela poderia cantar. Vicki Blue diz em Edgeplay que esse foi o único momento de camaradagem que experenciou durante toda sua estada com as Runaways.

Vicki ao lado de Joan, agora frontman num estilo bastante diferente da anterior

Joan Jett se tornou uma excelente frontman, apesar de ter um estilo completamente diferente de Cherie. A banda pós-Cherie, inclusive, parece outra. A pegada punk se tornou mais forte bem como músicas mais pesadas, uma vez que a banda não tinha mais lidar com os pedidos de músicas melódicas de Cherie. Joan tinha uma postura agressiva no palco, mas bem menos sensual. Nada de corpetes, nada de lingeries. Joan Jett usava calça jeans rasgada e no máximo seu macacão vermelho (que ela abandonou depois de 77).

Uma nova imagem se formava para a banda. Cherie fazia o tipo femme fatale misturado com drama queen, enquanto Joan era mais masculina  e durona e tinha uma atitude rock and roll facilmente confundida com arrogância segundo alguns produtores (dentre eles, Toby Mamis). Cherie usava as mãos, se abaixava e dançava para impor sua presença no palco. Joan, por motivos óbvios, não podia fazer isso. Ao invés disso, ela passou a usar os olhos (aquele olho arregalado que mais tarde seria uma de suas marcas registradas), mascar chiclete e dar umas jogadas de ombro. Os ombros curvados que tanto desagradavam Kim Fowley acabaram se tornando sua postura clássica no palco.

Nos comentários do filme The Runaways, Joan disse que Kim Fowley achava que The Runaways sem Cherie Currie estava fadada ao fracasso. Ela diz que ele nunca falou isso, mas que ela podia sentir e que ficou feliz quando provou a ele que ele estava errado.

Da voz no limite melódica de Cherie Currie para a interpretação seca e agressiva de Joan Jett

O que Fowley temia era que sem o apelo sexy explícito a banda não fizesse mais sucesso. De certa forma isso não aconteceu, mas é verdade que o público mudou junto com o som. Possivelmente alguns fãs não gostaram da nova cara da banda e Waitin´ for the Night não foi um álbum bem recebido na época. Pelo menos não nos Estados Unidos.

Das músicas que Cherie cantava, Joan passou a cantar “Queens of Noise” integralmente, “California Paradise”, “American Nights” e “C´mon”. Em termos técnicos, Cherie Currie era uma melhor vocalista, mas Joan Jett conquistou os fãs com a atitude rock and roll.

Diz aí que o vídeo é de 78, mas pelas roupas, imagino que seja 77. Tinha um vídeo de ótima qualidade dessa música sem Cherie, mas não consigo achar em lugar nenhum do Youtube mais. Alguém tem?

Kim Fowley se afastou um pouco e Toby Mamis passou a gerenciar a banda. Em meio a essa fase de adaptação, é importante dizer que o clima estava extremamente tenso e que as drogas já eram mais que rotina. Vicki Blue, na época, era a única que não usava drogas. Foi nesse cenário que Waitin´ For the Night, o quarto álbum da banda foi gravado em agosto de 77.

Título: Waitin´ for the Night

Lançamento: outubro de 1977

Gravadora: Mercury Records

Produção: Kim Fowley

1.Little Sister (Jett / Inger Asten): Essa primeira música já mostra o que vai se ouvir nesse álbum: guitarras mega altas e distorcidas, vocal agressivo e letras nervosas sobre a noite na cidade, curtição e encontros amorosos. Joan apanhava para cantar esse refrão ao vivo, mas também era uma das melhores interpretações dela nos shows. Uma vez vi um comentário no Youtube dizendo que esse álbum deveria se chamar “Kids in Hate”  por conta do refrão dessa música e eu acho que é verdade.

2. Wasted (Jett / Fowley): Uma música sobre jovens drogados nos clubes da cidade. “Wasted” acaba sendo uma mistura conflitante de uma inspiração punk (Joan) com outra heavy metal (Lita). No final o punk ganhou, mas o solo de Lita nessa música é muito bom.

3. Gotta Get Out Tonight (Jett): Seguindo a linha mais pesada das músicas anteriores, essa apresenta guitarras em excelente forma, tanto da parte de Lita quanto de Joan. E destaque para Vicki, que é uma baixista muito melhor que Jackie.

4. Wait For Me (Jett): Uma balada romântica escrita por Joan, mas que não deixa de lado as guitarras. Um riff bem bolado, não cansa. A voz de Joan mescla uma interpretação mais suave com seu tom usual agressivo.

5. Fantasies (Ford): Primeira música composta 100% por Lita Ford que aparece num álbum, essa faixa não poderia deixar de ser o alívio mais metal num álbum quase todo punk. A música, lenta e melódica, apela para arranjos de guitarra e um solo excelente. Apesar de bem composta e bem executada, algumas vezes ela me cansa. Uma faixa longa se formos analisar outras músicas da banda.

6. School Days (Jett / Fowley): Joan canta sobre experiências na escola e a vida depois dela. Provavelmente a música mais tocada da época. Lita faz uns enfeites muito legais nessa música, mas sempre senti falta de um solo.

7. Trash Can Murders (Ford): Lita faz uma letra sinistrona sobre assasinatos à noite (bem estilo metal mesmo) somada a uma pegada de guitarra muito bem feita. Joan interpreta a música no que é seu melhor vocal no disco inteiro e eu arriscaria dizer nos álbuns de estúdio das Runaways. Ah, e o solo de Lita é excelente e a guitarra base de Joan também. Ah, e Vicki e Sandy também foram muito bem. Enfim, essa faixa é ótima! Apesar da letra sinistrona.

8. Don´t Go Away (Jett): Outra música mais romântica de Joan. Gosto bastante dos vocais agudos de Joan aqui, mostra um pouco da sua versatilidade vocal.

9. Waitin´ for the Night (Jett / Fowley / Krome): A faixa-título é uma balada com um refrão pesado e uma letra mais poética bem Kari Krome.

10. You´re Too Possessive (Jett): Para o final temos uma música bastante intensa com vocais mega agudos de Joan Jett sobre um caso de affair possessivo. Inclusive,  os backs mega agudos eram um sofrimento nos shows ao vivo. Mas destaque para Lita.

A contracapa da Waitin´ For the Night

 Dessa época estão alguns vídeos de apresentações da banda na TV, vale a pena conferir:

Ah, e esqueçam a legenda do vídeo acima pois até toda errada. Até diz que Lita é Cherie… Imagina se a Lita vê uma coisa dessas…

 Uma perda

Um fato não muito comentado a respeito da formação de The Runaways como um quarteto é que a banda perdeu seu backing vocal de qualidade. Até a saída de Cherie, os backs ao vivo eram incríveis. Na formação clássica, Joan e Jackie faziam o back para Cherie. Um dos talentos não muito mencionados de Joan Jett é que ela é uma excelente backing vocal, conseguindo dar força ao vocal principal e ao mesmo tempo imprimindo sua marca. Cherie também fazia backs ótimos e o mesmo se diz de Jackie Fox, que tinha uma voz muito bonita por sinal.

Com a saída de Jackie e mais tarde de Cherie somado ao fato de que Joan agora era o vocal principal a responsabilidade maior dos backs caiu sobre Lita. E Lita Ford tem um back medíocre na minha opinião, de péssima qualidade. Desafinado e sem coordenação. Vicki Blue era uma back melhor, mas estranhamente, ela não era fã do microfone e nos vídeos que podemos ver da banda, é raro vê-la com um pedestal na frente. Quanto a Sandy West, ela normalmente faz coro e não back. No álbum de estúdio, Joan gravou todas as segundas vozes e backs (apesar de eu desconfiar que tem Sandy no coro às vezes).

 The Runaways como um quarteto se tornou uma banda mais underground, uma vez que apelo sexual que Kim Fowley tanto queria, perdeu sua força. Joan Jett disse, se não me engano nos comentários do filme The Runaways, que elas eram infelizes na época e que uma prova disso é que não há fotos delas sorrindo na época. Lita Ford diz no documentário Edgeplay que tudo que aprendeu no cenário musical com The Runaways veio do jeito mais difícil possível. Sandy West, por outro lado, diz que estar na banda foi a melhor época de sua vida.

Com o álbum mais Joan Jett de todos gravados pelas Runaways, não só pelo número de composições mas também pelo apelo punk, a banda fez alguns shows nos Estados Unidos e depois se lançou na segunda turnê pela Europa tocando em países como Reuno Unido, França, Bélgica e Holanda.

De volta aos EUA em dezembro de 1977 se prepararam para a turnê nacional ao lado de bandas como os Ramones.

Aguardem o próximo post que traz o ano de 1978!

Bibliografia

  • The Runaways Collector: um canal no Youtube com várias gravações raras de TV da banda. Vale MUITO a pena ver.

E finalmente mais um post da sequência que conta a história e a discografia da banda estado-unidense The Runaways e nada mais apropriado do que voltar essa coluna com a parte mais memóravel da história da banda que é a turnê japonesa de 1977.

Lembrando que esse post é parte do projeto Born to Be a Runaways Fan e que as fontes que eu uso para contar essa história são depoimentos ligados às integrantes da banda. Para conferir o que aconteceu nos anos anteriores da banda, clique aqui, e dê uma checada na bibliografia!

Depois da gravação de Queens of Noise, a Mercury Records, então gravadora das Runaways, investiu pesado em marketing para o novo álbum e para a nova turnê. A campanha englobava a confecção de camisetas, outdoors pela cidade e uma nova turnê nacional que dessa vez foi feita de avião e não num carro apertado, o que demonstrava um aumento da popularidade e do arrendamento da banda, o que não significava, é claro, que as garotas estivessem recebendo algum dinheiro.

Cherie Currie em sua biografia conta que bandas como Cheap Trick e Tom Petty abriram shows das Runaways nessa turnê e que as rádios tocavam suas músicas. Mas Cherie conta ainda que essa foi uma época tensa entre as membros e que havia situações difíceis como lavar a roupar no banheiro do hotel, coisa que Lita ensinou. Antes disso, elas todas estavam vestindo a mesma camiseta suada  e nojenta e jeans sujos todas as noites.

Foi nessa turnê que a banda tocou mais uma vez no CBGB´s, a lendária casa de shows em Nova York. A primeira vez foi em agosto de 1976, e tem umas fotos bem legais dessa época aqui.

Logo depois da turnê nacional, surgiu a possibilidade de se fazer uma turnê no Japão. A banda liderava a importação de discos por lá, ficando atrás só dos Beatles e do Led Zeppelin para se ter uma idéia. “Cherry Bomb” foi hit nas rádios japoneses e a idéia de uma turnê de dois meses no verão de 1977 pareceu uma grande oportunidade para os produtores da banda e para a Mercury Records.

Mas ninguém esperava por isso.

Estrelas no Japão

O enorme sucesso da banda no Japão até hoje é motivo de especulação por parte de fãs e das próprias integrantes da banda, que, acostumadas aos maus tratos e humilhações nos Estados Unidos, foram surpreendidas com o tratamento de estrelas internacionais em Tóquio. Sobre a surpresa e a fama que foi a estadia japonesa, Joan Jett disse:

Nós éramos grandes, como os Beatles.Tudo foi muito inesprado. Ninguém nos disse que éramos bem consideradas lá. Nós passamos por um monte de merda nos Estados Unidos e um monte de merda na Inglaterra também. Apesar de que eles eram um pouquinho mais receptivios e um pouquinho mais compreensivos na Inglaterra, mas mesmo assim passamos um monte de merda. Mas quando chegamos ao Japão, era literalmente como se fôssemos os Beatles, mas eram as garotas que eram os fãs. Nos EUA e na Europa, a maioria era caras gritando “Tirem a roupa!”. No Japão, onde mulheres são realmente consideradas cidadãos de segunda classe, milhares de garotas estavam nos seguindo pela rua com escovas de cabelo dizendo “Escove seu cabelo”. Elas não queriam ser rudes e rancar seu cabelo, então elas te davam uma escova de modo que você poderia pentear o cabelo.

http://www.juicemagazine.com/JOANJETT.html

Pegar fios de cabelo como souvenir e serem perseguidas pela rua foram somados a presentes no hotel, flores nos quarto de hotéis cinco estrelas, jóias e quimonos de seda. Os shows eram lotados com uma plateía fanática e fiel que ficava em fila para ver suas ídolas ao vivo. O resultado foi um estouro nas rádios do Japão, a gravação de vídeos, entrevistas e performances na TV japonesa. São esses os primeiros vídeos que temos de The Runaways tocando ao vivo.

Vídeo produzido com a banda. O som é playback:

Vídeo do show ao vivo na TV:

É difícil entender o sucesso da banda no Japão, principalmente ao se pensar que a base de fãs era toda composta por mulheres, que tradicionalmente são reprimidas na sociedade japonesa. Entender porquê rock ´n´ roll nervoso com letras que falavam explicitamente sobre sexo cantadas por adolescentes em roupas insinuantes foi bem aceito pelos japoneses é um mistério pra mim. (Alguém por favor tem uma teoria interessante?) Imagino que o fato de The Runaways ser uma banda bem visual possa ter chamado a atenção dos japoneses e também as mulheres podem ter visto nessas garotas um espelho para seus próprios desejos de rebeldia. The Runaways, inclusive, inspirou a criação de uma banda de rock japonesa só com garotas, as GIRLS.

Cherie Currie: no centro da banda

A briga para ser o centro das atenções era uma das estratégias utilizadas por Kim Fowley e Scott Anderson a fim de fazer com que a banda ficasse sob o controle deles. Se bem que antes da turnê japonesa, Scott Anderson já tinha deixado de ser o gerente da banda e sua saída não é bem explicada. Cherie diz em sua biografia que provavelmente ele pediu um aumento e Kim Fowley negou. Mas a estratégia de segregação de Fowley continuava.

Cherie, por ser a vocalista, tinha mais atenção da mídia. Seu visual produzido e  o escândalo do corpete também ajudava em fazer dela o centro visual da banda. Mas isso não era visto com bom olhos pelas outras integrantes. Jackie, no documentário Edgeplay, diz que Cherie nas Runaways era a pessoa mais egoísta que já conhecera. Em sua biografia, Cherie diz que Jackie era insuportável porque sempre reclamava de tudo e condenava o abuso de álcool e drogas por parte das outras quatro. Mas é estranho porque Jackie afirma em seu blog que ela e Cherie normalmente se davam bem e na primeira versão da biografia de Cherie, “Neon Angel: The Cherie Currie Story” ela diz que Jackie era a pessoa mais sã e legal da época. Vai saber qual era verdade. Cherie é descrita sempre como uma drama queen mor que muda a versão dos fatos dependendo da época.

Cherie e Lita na turnê de 1976. Tensão eterna...

Mas parece ser verdade que ela se dava bem com Joan e com Sandy de maneira mais geral. Inclusive, em Edgeplay Cherie confessa que teve relações sexuais com as duas, mas que nunca foi nada sério, uma vez que só estavam “experimentado” com a questão da bissexualidade que ganhou destaque na época. Sandy não comentou nada sobre o fato, mas é verdade que a amizade entre Cherie e Sandy permaneceu após o fim das Runaways. Quanto a Joan, apesar de elas terem se afastado, a cena de sexo entre as duas está presente no filme The Runaways que foi produzido por Joan, então imagino que haja alguma verdade aí sim.

Mas uma coisa parece quase certa: Cherie não se dava bem com Lita. Em todas as versões, de todas as membros da banda, há relatos de brigas sérias entre Cherie e Lita que beiravam a agressão física. Em sua biografia, Cherie diz que normalmente era Sandy (a mais forte fisicamente da banda) que apartava as duas. E não era só uma questão de desagrado pessoal, Lita e Cherie eram diferentes em relação a quase tudo. Enquanto Cherie apreciava músicas mais melódias, Lita pendia pro heavy metal. Lita criticava os vocais de Cherie e suas composições e tinha muito ciúme da atenção recebida por ela. Isso porque, tecnicamente, Lita também recebia muita atenção devido a sua posição de destaque como guitarrista solo.

Foto do suposto "livreto da turnê" com as fotos sensuais de Cherie...

Mas a atenção delegada a Cherie na mídia japonesa (repare que ela é quem descaradamente mais aparece em TODOS os vídeos) explodiu com a banda toda quando, ao chegarem no quarto de hotel, a banda encontrou um livreto da turnê das Runaways contendo quase que exclusivamente fotos de Cherie. E pior, fotos sensuais de Cherie que foram tiradas antes que  banda fosse para o Japão e sem o conhecimento de ninguém.

Cherie, obviamente, disse que não sabia que as fotos teriam conotações tão sensuais (ahãm) e que pensou que todas da banda teriam suas foto solo. Mas a situação não ficou bem com o resto da banda, que achava que Cherie estava indo justamente na direção do que ninguém queria que era de posar de garota sexy para chamar a atenção. Na cabeça de Joan e Sandy, principalmente, aquilo era o que a banda menos precisava se quisesse ser levada a sério. A imprensa estado-unidense, principalmente, ainda colocava as Runaways como uma banda montada e projetada por Kim Fowley que não tinha talento nem vontade própria.

O clima ficou tenso, mas o glamour da turnê japonesa dispersou as más vibrações. E quanto a Cherie ela diz em sua autobiografia que começou um relacionamento com um cantor latino famoso da época que também estava em turnê no Japão (alguém sabe quem é?) e que eles chegaram a ficar noivas, mas a família dele proibiu o relacionamento.

Esse vídeo abaixo é composto de trechos de performances ao vivo da banda e uma breve entrevista com as integrantes. Interessante reparar a personalidade delas a cada comentário:

A turnê no Japão fez tanto sucesso que a banda gravou um álbum ao vivo que é a compilação de músicas de 7 shows diferentes mais tarde masterizadas e retocadas em estúdio. Live in Japan é considerado melhor álbum da banda e capta com muita precisão do que The Runaways é feito: energia pura.

Título: Live in Japan

Lançamento: 1977

Gravadora: Mercury Records/ Polygram

Produção: Kent J. Smythe e The Runaways

1. Queens of Noise (Bizeau): versão incrivelmente superior à de estúdio com Cherie cantando o primeiro verso e Joan e Jackie o segundo. Ao vivo a música ganhou mais força nas guitarras e mais energia. É essa a forma que se tornou mais conhecida entre os fãs e virou um clássico da banda.

2. California Paradise (Fowley/Jett/Krome/West): essa versão é tocada de forma mais rápida e com mais intensidade. A bateria de Sandy West está bem melhor do que na versão de estúdio, assim como como as guitarras de Joan e Lita, que ganharam mais destaque. E solo de Joan ao vivo, raridade!

3. All Right You Guys (Danielle Fay/Bob Willingham): essa música só possui essa versão e nunca foi gravada em estúdio. Gosto particularmente do baixo de Jackie na faixa e do modo que ele acompanha as guitarras. Um das melhores linhas de baixo de The Runaways, com certeza.

4. Wild Thing (Chip Taylor): com certeza o melhor de Sandy West, não só na bateria, mas nos vocais também. Destaque para o back de Joan (já perceberam como ela é uma ótima back?) e para as pegadas de guitarra. Essa música tem uma versão tocada por ninguém menos que Jimi Hendrix, então dizer que essa versão é sensacional não é qualquer coisa não.

5. Gettin´Hot (Fox/Ford): é uma música um tanto louca, que mexe bem com o lado mais pesado de Lita Ford. As guitarras são muito boas e só recentemente tivemos acesso à letra oficial da música, que está no blog de Jackie Fox, o Jackiefox.net. Os vocais de Cherie são muito bons também e bem intensos. O back fica por conta de Jackie. Essa música também não tem versão de estúdio.

6. Rock ´N´Roll (Lou Reed): Apesar de Joan ter gravado o vocal da versão de estúdio, foi Cherie quem sempre cantou a faixa ao vivo. No album ao vivo não foi diferente e devo dizer que a música fica melhor com Cherie cantando, fica mais enérgica, na minha opinião. Também é bacana ouvir Joan tentando levantar a galera. Um pouco imatura a iniciativa dela, mas ainda assim bem legal.

7. You Drive Me Wild (Jett): Joan interpreta essa música como ninguém e ao vivo a faixa ganha um balanço diferente do que teve na versão de estúdio, bem como um solo de guitarra. Os clássicos gemidos de Joan ficaram bem mais reais também.

8. Neon Angels on the Road to Ruin (Ford/Fowley/Fox): Se essa música já tinha um viés heavy metal na versão de estúdio, na versão ao vivo a influência é inegável. Lita arrasa na guitarra, principalmente no solo poderoso, e nos riffs super intensos. Cherie também não faz feio na música que talvez seja a mais difícil de cantar de todo o setlist das Runaways.

9. I Wanna Be Where the Boys Are (Fowley/Ronnie Lee): a letra dessa música ilustra muito bem o espírito da banda e Joan faz um vocal impecável acompanhado por um back de Lita (o primeiro oficialmente dela na banda). Mais uma música que nunca teve versão de estúdio, mas que sempre aparecia nas apresentações ao vivo.

10. Cherry Bomb (Fowley/Jett): com certeza o maior clássico as Runaways em sua melhor forma. Em apenas 2:12 Cherie consegue criar uma atmosfera super intensa. O coro de “Cherry Bomb!” feito por todas as Runaways também é bastante emblemático. O solo de Lita é inesquecível também.

11. American Nights (Anthony/Fowley): Considero essa a melhor faixa do álbum. Simplesmente porque traz o melhor de todas as integrantes de uma vez: vocais intensos, bateria ritmada, guitarras super sincronizadas, baixo marcante. E é impossível deixar passar a participação de Joan cantando no back e dando aqueles gritinhos de “aw” que se tornariam sua marca registrada.

12. C´mon (Jett): Faixa comum de ser tocada nos shows ao vivo, mas que ficou de fora da versão final de Queens of Noise. Cherie conta em sua biografia que quando foi retocar os vocais no estúdio, Lita lhe fez o primeiro elogio dizendo que seus vocais tinham ficado muito bons e que ela [Lita] tinha gostado.

A foto completa da capa e contracapa do álbum "Live in Japan"

A turnê seria encerrada com um grande show no Tokio Music Festival, ainda em junho de 1977, mas um acontecimento inesperado tornaria esse show inesquecível. E não por uma razão boa.

O baixo de Jackie Fox

Jackie tinha um baixo raro, um Thunderbird branco. De acordo com Cherie e a própria Jackie, ele fora um investimento da família de Jackie e esta tnha um carinho especial com a peça. Ela sempre pedia que os hodies tomassem cuidado com ele. Em Edgeplay, Jackie afirma que depois de uma passagem de som, recebeu a notícia de que seu baixo tinha caído do suporte e quebrado de um modo que não havia possibilidade de conserto. Mas ninguém sabia lhe explicar direito o que acontecera.

Cherie conta uma história bem diferente em sua biografia (inclusive com uma parte dramática em que Jackie a acusa de ter chutado o baixo de propósito), mas a versão dela bate com a de Jackie no seguinte ponto: o descaso e abuso de Kent Smythe.

Smythe era o único remanescente da equipe estado-unidense da banda na turnê no Japão (uma equipe japonesa havia sido contratada) e vivia às voltas com drogas. No Japão, onde conseguir drogas era um problema, Smythe andava sempre bêbado. Sua atitude era péssima para com a banda e as humilhações era constantes, mas as Runaways concordam que ele pegava mais pesado com Jackie.

Jackie fala abertamente sobre o assunto em Edgeplay e essa é uma das partes mais emocionantes do documentário. A ex-baixista narra, aos prantos, como se sentiu abandonada pela equipe da banda que sequer mostrou preocupação com o fato de seu baixo ter quebrado. Ela ainda conta que aquele foi o ápice de um desgaste emocional que já vinha aparecendo desde o início da banda: os abusos de Kim Fowley, a falta de dinheiro, o descaso da equipe, as acusações da imprensa, as brigas internas da banda.

Ela diz que já tinha pensado outras vezes em deixar a banda, mas que sempre ficava indecisava com o pensamento “E se essa banda realmente ficar famosa? Como vou ficar?”. E era isso que a segurava como uma Ruanway. Mas Jackie, reconhecida pelas outras integrantes como uma pessoa extremamente sensível, não usava drogas e ela disse em seu blog que o fato de estar sempre “limpa” tornava as coisas mais difíceis de lidar.

Sandy West, também em Edgeplay, diz que Jackie estava pressionada com a possibilidade de tocar no Tokio Music Festival e que não aguentou a pressão de estar numa banda no auge do sucesso. Mas pelo depoimento de Jackie, é possível perceber que a coisa era mais grave. Cherie conta (numa versão endossada por Jackie) que a colega estava arrasada com o problema do baixo e que se isolou. Cherie ficou preocupada e tentou ligar para o quarto de Jackie no hotel, mas não conseguiu falar com ela. Resolveu então ir lá pessoalmente, apenas para encontrar Kent Smythe bloqueando a porta. Cherie diz que teve que agredi-lo a fim de conseguir ir ver Jackie que estava completamente transtornada, chorando histérica, com uma garrafa de vidro quebrado os braços completamente ensaguentados.

A tentativa de suicídio fica implícita. Não fica claro o que aconteceu entre Jackie e Smythe. Jackie diz que foi o máximo que conseguia aguentar e deixou a banda no dia seguinte. Ela ainda acusa os produtores de descaso, pois teve que pegar um ônibus até o aeroporto, já que ninguém se prontificou a levá-la. Jackie termina se depoimento dizendo que foi a coisa mais corajosa que já fez em toda sua vida e que não se arrepende.

Jackie Fox, no entanto, teria seu nome para sempre marcado na história do rock ´n´roll como a baixista da formação clássica de The Runaways.

The Runaways sem Jackie Fox

A banda foi informada da saída de Jackie, uma vez que a própria já tinha ido, e teve que lidar com o fato de que seu maior show, o que aconteceria no Tokyo Music Festival, teria que ser feito sem Jackie.

Joan assumiu o baixo e é impressioante a falta que a guitarra base de Joan faz na música. Dêem uma conferida no vídeo da banda tocando sem Jackie:

Impossível não dizer que os ânimos não foram afetados.

Apesar de seu fim dramático, a turnê no Japão mostra The Runaways no seu auge e vários vídeos dessa época podem ser encontrados no Youtube. Vou postar os vídeos que posseum qualidade melhor:

Bibliografia adicional desse post

Datas das Turnês de The Runaways no Internet Archive

Essa foto foi uma das oficiais na turnê do Japão

Emocionante. Sincero. Simples. Mágico. Não tenho muitas palavras para descrever Looking For Alaska (traduzido no Brasil com o nome estranho e pouco emotivo Quem é você, Alasca?). Só posso dizer que foi uma das experiências de leitura mais incríveis da minha vida e que entrou para o meu top5 livros favoritos de todos os tempos.

Quando minha amiga Amanda voltou de Londres, uma das primeiras coisas coerentes que ela me disse foi “Lê”. E jogou o exemplar de Looking For Alaska em cima de mim. Eu abri a boca pra perguntar alguma coisa e ela me cortou dizendo simplesmente “Lê”. Desde então o livro está à espera no meu armário e todos os dias enquanto eu lia meus duzentos livros teóricos e surtava por conta da prova de seleção da pós, eu pensava no livro dentro do armário e no que ele teria de tão especial assim. Isso porque não era só Amanda que tinha uma coisa com livro, mas também uma outra amiga, a Ily (do blog Por Essas Páginas, clique aqui pra ler a resenha desse livro). E eu confio na opinião delas.

Eu elegi esse sábado para começar a ler o livro. A primeira bateria de prova já tinha terminado e a correção de provas pra escola estava feita. Eu podia me dar ao lixo de ler Looking For Alaska. O livro me agarrou nas primeiras 5 páginas e eu li tudo em doze horas.

As últimas palavras de Rabelais que motivam Miles durante o livro e se tornam uma metáfora e tanto...

O livro, em primeira pessoa, narra a história de Miles (ou Pudge, como passa a ser conhecido), uma cara sem amigos e sem grandes acontecimentos na vida que tem um hobby estranho de ler biografias e decorar as últimas palavras (aquelas mesmo, ditas antes de morrer) de pessoas famosas. Ele resolve ir estudar num colégio interno e é lá que ele faz seus primeiros amigos: Chip (ou Colonel, um cara surtado que tem uma super memória), Takumi (um japonês que não saca nada de tecnologia) e Alaska (uma garota linda, inteligente… e doida).

Mas não se enganem. Apesar de Miles e sua turma se meterem em muita confusão, nada no livro tem cara de Sessão da Tarde. O colégio interno, afinal, é um lugar comum cheio de nerds. hahahaha Porque uma das alegrias de ler esse livro é rir de piadas que provavelmente seus amigos não entendem e pegar as referências literárias que pra você é lugar comum, mas que pra muita gente não é. Eu não conseguia deixar de pensar que o colégio Culver Creek era o colégio interno que eu e Amanda nunca estudamos. Tirando provavelmente a parte do excesso de cigarro. hahahahahaha

Miles se apaixona por Alaska e ela claramente tem uma atração por ele; o problema é que ela ama muito seu namorado. Mas não ache que esse é um livro mi mi mi sobre triângulo amoroso, porque não é! O leitor acompanha Miles e sua vida comum em um novo lugar, seus amigos e seu amor por Alaska até a metade do livro. Quando tudo muda. Mas eu não vou contar porque.

Sobre a Alaska do título...

Looking For Alaska é um livro sobre a procura do eu, do amor, da vida… de tudo. É também um livro sobre adolescência e sobre envelhecer. E também sobre família. Mas também é um livro sobre sexo. E sobre crenças. E rebeldia. E também não é sobre nada disso em especial. Para mim é uma mistura de O Apanhador no Campo de Centeio, Harry Potter (okay, tudo na vida me lembra Harry Potter, então não conta muito…), Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, 500 dias com ela, Sociedade dos Poetas Mortos e até mesmo um livro que eu mesma escrevi ano passado.

É importante lembrar que apesar de ser um livro sobre adolescentes, eu não sei se seria um livro para adolescentes. Pelo menos não para a maioria. O livro, inclusive, enfrentou uma grande polêmica nos Estados Unidos por conta das cenas de adolescentes fumando, bebendo e transando explicitamente ao longo das páginas. Sinceramente? Eu não vi nada demais.

O livro não é uma apologia ao álcool ou cigarro e muito menos trata sexo como uma questão banal. Pelo contrário. Eu achei todas as cenas de sexo do livro muito bem escritas e muito bem boladas, inclusive. John Green consegue mostrar e pesar muito bem essa questão sexual e claramente faz uma oposição entre sexo por sexo e sexo por sentimento. Qualquer ser humano com mais de três neurônios consegue perceber que um livro que faz um questionamento sobre os sentimentos mais profundos do ser humano não iria ser uma apologia à vida oba-oba.

Mas infelizmente a grande maioria da população tem três ou menos de três neurônios.

Tem um vídeo do John Green, que é um vlogger super assíduo, sobre o assunto. Clique aqui pra ver. Está em inglês.

Enfim, acho que essa resenha ficou muito emocional, mas é sobre um livro emocional. (Posso dizer que chorei quando Colonel começou a falar que estava memorizando a capital de todos os países do mundo?) Recomendo muito a todas as pessoas e tenho certeza que será uma leitura inesquecível.

Demorou, mas saiu o terceiro post sobre a trajetória de The Runaways que, mesmo depois de 3 meses, ainda continua como  termo mais procurado do blog seguido de “Jackie Fox”. Obrigada a todos que procuraram e comentaram. Esse blog tem orgulho de ser uma das poucas fontes seguras sobre The Runaways em português.

Só pra lembrar, esse post faz parte do projeto Born to Be a Runaways Fan e toda a informação veiculada foi retirada de declarações feitas pela própria banda. Para ler os posts anteriores, clique aqui.

Paramos em 1976 às vésperas da turnê da banda pela Europa. O último show da turnê nacional em solo americano foi no famoso Starwood L.A em Los Angeles, no dia13 de setembro. Kim Fowley recentemente contou em seu Facebook que o Led Zepepelin assistiu a esse show e que no final da apresentação, Robert Plant disse: “Isso funciona!”. O show é um marco histórico da banda, mas não só pelo reconhecimento artístico. Segundo a autobiografia de Cherie Currie, foi nesse show que ela vestiu pela primeira vez o infame espartilho branco. O traje que seria para sempre associado à sua imagem.

A polêmica do Espartilho Branco

Qual é o efeito de uma garota de 16 anos cantando de lingerie e plataforma?

É importante lembrar que o espartilho não era só polêmica entre o público, mas também entre a própria banda. Em Edgeplay, Cherie dá a entender em seu depoimento que viu a lingerie numa loja e que as Runaways decidiram que seria uma boa idéia comprá-lo para Cherie vestir. Mas o depoimento de Jackie dá a entender o contrário: que o espartilho não era bem visto pelas demais membros por apelar para um lado sensual que a banda não queria tomar. Afinal, elas queriam ser reconhecidas por sua música de qualidade e não por serem bonitas e sensuais. Lita Ford diz também no documentário que o espartilho mandava a mensagem errada e trazia atenção demais para algo que não era o foco. Kim Fowley, no entanto, diz que nunca teve a intenção de fazer de The Runaways uma banda sensual e que achava que o espartilho era algo “esportivo”. Esportivo? Um espartilho pode ser muita coisa, mas definitivamente não é esportivo, Sr. Fowley!

A questão é que Cherie fazia trocas de roupa entre as músicas por conta do tempo em que passava sem fazer nada. Porque, apesar de ser a vocalista principal, Joan Jett fazia vocal solo em uma quantidade considerável de músicas (nessa época, “You Drive Me Wild”, “Blackmail”, “Take It or Leave It”, “Rock ´N´Roll”, etc). Além disso, em músicas como “Johnny Guitar” onde o solo de guitarra guiava por vários minutos, Cherie se via no palco sem muito o que fazer. A troca de roupas vinha como um plus nos shows e ela passou a usar o espartilho em “Cherry Bomb”. Em sua autobiografia, ela diz que no palco se sentia a verdadeira Cherry Bomb e não mais Cherie Currie.

A prova de que Kim Fowley tinha uma mal gosto desgraçado e não entendia porcaria nenhuma do que as garotas estavam tentando fazer...

O problema é que o apelo visual de Cherie acaba causando impressões errôneas. O ato de vestir lingerie no palco e cantar uma música com o refrão “Olá papai / Olá mamãe / Eu sou a sua bomba de cereja / Olá mundo/ Sou sua garota selvagem” pode ser interpretado como 1) um ato transgressor que coloca a mulher numa posição de voz ativa sobre sua própria sexualidade e lugar no mundo; 2) como um ato amoral condenado pela sociedade que só podia mesmo ser feito por uma garota pervertida e vagabunda ou 3) como a ação de alguém que está desesperadamente tentando chamar a atenção porque não tem talento. Os fãs da banda (e eu me inclui) iam pela opção 1. Já o público geral ia pela 2 (tradicional família americana rs). E infelizmente, muitos músicos da cena da época iam pela opção 3.

No filme The Runaways, por exemplo, há uma cena em que as Runaways, numa passagem de som antes de um show, são zuadas por dois caras de uma banda de rock. Para se vingar, Joan Jett faz xixi na guitarra de um deles nos camarim. Essa cena nunca aconteceu. Joan, nos comentários em audio do filme, diz que a banda a que a cena se refere é o Rush, mas que ela nunca fez xixi na guitarra de ninguém. O caso é que Neil Peart e Geddy Lee realmente começaram a rir durante uma passagem de som das Runaways e houve um momento tenso entre as bandas. Ainda nos comentários do filme, Joan diz que esse é o tipo de coisa que a deixa puta da vida, mas que nunca fez nenhuma vingança, muito menos urinar no equipamento de alguém. O episódio aconteceu em 1977 numa festa em homenagem ao Rush.

Como fã do Rush (sim, ironicamente) digo que esse é um comportamento um tanto fora dos padrões da banda que é reconhecida por ser hiper educada e solícita. No entanto, escolher The Runaways para abrir pro Rush é uma escolha infeliz. Infeliz porque Rush e The Runaways são simplesmente bandas conceitualmente opostas. Enquanto The Runaways preza pela intensidade no palco, pelo rock ´n´ roll simples e cru, Rush está interessado em diversidade musical, tocar com máxima perfeição músicas extremamente difícieis. The Runaways é puro feeling enquanto Rush é pura técnica. Claro que The Runaways tem técnica (vide Lita Ford e Sandy West) e claro que Rush tem feeling (vide Alex Lifeson), mas o foco é diferente. Então, como muitos fãs disseram na internet, a coisa toda pode ter sido simplesmente um atrito de bandas e ideologia. Mas ninguém nunca vai saber o que aconteceu. O Rush nunca comentou a respeito.

Joan comenta sobre a má receptividade entre o meio de rock majoritariamente masculino:

Elas parecem uma ameaça?

Tinha um monte de filhos da mãe. Tinha algumas pessoas que era receptivas. Um monte de gente que achava [a banda] fofa e um tanto engraçada, mas tinham bandas que definitivamente tinham alguma contra contra a gente. (…)

Tinha muitos caras que nos tratavam que nem lixo e eram bem crueis. Isso certamente passou do passado com The Runaways para minha própria banda [referindo-se a sua carreira com os Blackhearts]. Eu vi bandas que disseram: “Eu não acredito que eu tenho que dividir o palco com o uma vadia”. (…)

É uma coisa de testosterona estranha. Eu não entendo porque eles se sentem tão ameaçados. Eu acho muito interessante, como uma questão social de nossa sociedade. Como é que isso deixa gente tão nervosa? Eles estão tão fechados nos papéis que mulheres têm que ser subservientes e que elas não podem ter personalidade própria. Eu acho com o caso do rock ´n´ roll, apenas a menção das palavras “rock ´n´ roll” implicasexualidade. Eles não mostravam Elvis da cintura pra baixo. Chuck Berry era considerado o tipo de pessoa que chegaria para levar seu filho de 14 anos pra fora de casa. Rock ´n´roll sempre foi considerado como um meio muito sexual. Eu acho que quando uma garota diz que está tocando numa banda de rock ´n´roll, ela está declarando que tem o poder sobre sua sexualidade e está dizendo o que ela vai fazer sobre isso e não o contrário. Algumas pessoas acham isso muito ameaçador.

http://www.juicemagazine.com/JOANJETT.html

Um bando de garotas tocando rock com letras sobre sexo com certeza era ameaçador. Um bando de garotas menores de idade tocando rock com letras sobre sexo era mais ameaçador ainda. O que nos dá uma idéia clara sobre a polêmica do espartilho.

A turnê da Europa

A turnê pela Europa foi fundamental para o sucesso da banda, que foi mais bem quista do outro lado do Atlântico do que nos EUA. Além disso, o impacto musical resultante dessa turnê foi avassalador pois as Runaways chegaram bem no boom de encontrar o início da cena punk rock. A influência dessa interferência foi crucial para definir as personalidades musicais da maioria das integrantes. Cherie, fã das melodias mais tradicionais, diz ter detestado o punk rock por julgá-lo violento e pouco harmônico. Já Sandy e Lita não incorporaram exatamente o movimento por terem sempre sido mais ligadas ao heavy metal e suas composições mais complexas. Joan, por outro lado, abservou a atmosfera completamente:

O estilo punk de Joan veio com a viagem pra Europa

Eu deixei a América de botas plataforma e glitter e quando voltei estava completamente punk. (…) Eu saí e vi o The Clash tocar o primeiro album. Tinha umas 2000 pessoas todas pulando ao mesmo tempo, o que foi uma coisa que eu nunca tinha experenciado e nem imaginado na América. (…) Era realmente assombroso. Era simplesmente incrível. Era tão poderoso. Foi muito bom ir lá ver e então voltar pros EUA e tentar proseguir com aquilo. (…) Musicalmente e emocionalmente, eu era ligada aos Ramones e aos Sex Pistols, definitivamente. Eu amava o The Clash. Minhas influências no entanto… Eu acho, que logo no começo, eu ainda tinha influência de muita coisa glitter musicalmente, mas eu achava que muito do punk rock tinha uma estrutura bem similar.

http://www.juicemagazine.com/JOANJETT.html

Cherie, em sua autobiografia, diz que os punks da Europa tomaram as Runaways como parte de sua cultura musical. Mas que nem por isso a atmosfera nos shows deixava de ser hostil. Facas atiradas no palco, brigas e xingamentos eram constantes e Cherie diz que era a forma deles de “mostrar afeto”. Cherie passou a chamar muita atenção à medida que a banda ia ganhando mais sucesso internacional. Seu rosto virou o símbolo da banda e a loira recebia cada vez mais mensagens de fãs e ganhava mais espaços nas entrevistas. A situação passou a ficar tensa com as outras garotas, principalmente com Lita. As brigas entre as duas eram constantes e a hostilidade, declarada.

Com o clima tenso dentro e fora dos palcos, o uso de drogas tornou-se mais constante. Uso inclusive encorajado pelo gerente Scott Anderson que chegou a insinuar aos pais das garotas que se eles tentassem fazer com que suas filhas parassem de usar drogas, eles estariam condenando-as à falta de criatividade e à morte no mundo do rock ´n´roll. Foi por essa época que Cherie manteve um relacionamento amoroso com Scott, um homem no mínimo 15 anos mais velho que ela. Scott ganhou fama de irresponsável por não só icentivar o uso de drogas de menores, mas por também manter relações sexuais com elas. Jackie Fox foi a única que nunca caiu na rede de Scott Anderson: nunca usou drogas e nunca transou com ele.

Jackie, inclusive, era a única a questionar a falta de dinheiro. Kim Fowley não pagava as garotas, alegando usar o dinheiro dos shows para pagar a gravadora. No documentário Edgeplay, Jackie, Lita, Cherie e Sandy contam a experiência de ter que sempre pedir dinheiro e sobreviver à custa de hamburgueres baratos. Kim e Scott ainda estimulavam a constante briga por atenção entre a banda, fazendo as garotas brigarem entre si. A lógica, mostrada em Edgeplay, era: Cherie era muito ligada a Joan e às vezes a Jackie. Já Jackie dividia-se entre temporadas de amizade com Cherie ou com Lita. Cherie e Lita se destestavam. Sandy é descrita como tranquila em relação a todas, mas tinha mais amizade com Joan. Acho interessante dizer que as cinco não tinham muito em comum. Elas não eram amigas antes de entrar para a banda e se viram de repente forçadas a conviver sob um clima tenso.

Jackie, além de acusada de não saber tocar baixo direito, é descrita como a sabe-tudo-insuportável da banda na autobio de Cherie

O caso as Runaways vão parar na cadeia

Essa é uma história de três versões. Vou contar as três. Mas as três começam do mesmo jeito: as Runaways estavam saindo de Dover para uma embarcação até Calais, na França, quando a Scotland Yard parou o carro. Elas foram acusadas de roubo. As malas foram revistadas e Joan, Cherie e Sandy foram presas. O roubo eram de chaves de hotel que elas “colecionavam”, sugerindo uma idéia dada por Robert Plant. Mesmo dizendo que não sabiam que pegar as chaves de hotel poderia configurar roubo na Inglaterra, a coisa complicou.

  • Versão de Joan Jett

Joan diz que foi o momento mais assustador de sua vida vida e que sentiu-se extremamente mal e vulnerável. Ela não dá detalhes de como o mal-entendido foi resolvido. Ela conta a história nos comentários em audio do filme The Runaways.

  • Versão de Jackie Fox

Jackie não foi presa, mas conta em seu blog o relato das outras integrantes. Jackie diz que Joan, por ser a única maior de idade na época, foi posta numa cela diferente da de Cherie e Sandy. Querendo ficar com as companheiras de banda, Joan começou a cantar “Dead End Justice” a plenos pulmões até que o guarda ficou estressado e resolveu colocá-la junto das outras duas.

  • Versão de Cherie Currie

Cherie diz que as três entraram em pânico, pois além do lance das chaves, Cherie tinha guardado cocaína no estojo de maquiagem (e ela frisa que Scott deu a cocaína pra ela) e todas as malas iam ser revistadas pela polícia. Joan ficou em uma cela separada por conta de ser maior de idade e entrou em pânico por estar sozinha e por ter claustrofobia. Ela começou a chorar muito, o guarda ficou com pena e a colocou junto às colegas.

E aí, em qual versão você acredita? A de Jackie é a mais rock and roll…

Tá vendo o estilo glitter? Essa era a imagem da Joan antes do punk: maquiagem e brilho!

De volta a Los Angeles, as Runaways estavam visivelmente em crise interna. Em Edgeplay, Jackie, Cherie e Lita chegam a dizer que não era mais divertido e que aquilo tudo tinha virado um trabalho. Foi nesse clima, por uma obrigação de contrato, que saiu Queens of Noise. Gravado no Brothers Studio em Santa Monica, o álbum foi basicamente produzido pelas próprias Runaways. Isso porque Kim Fowley estava ausente. Jackie Fox, no entanto, lamenta a situação:

Porque Kim não estava por perto para dar uma de babá, nós acabamos fazendo muita coisa da nossa cabeça na produção, o porquê de que, na minha opinião, Queens of Noise não é um álbum muito bom. Nossa idéia de produção era bem a de colocar o nosso instrumento o mais alto possível. Sandy se recusou a tocar com um metrônomo e, como resultado, muitas das músicas tem um tempo desigual. A batida na maiorida as músicas é arrastada e nós simplesmente tentamos demais fazer as coisas de um jeito estiloso.

http://runawaysstories.blogspot.com/2009/08/august-4-2000-queens-of-noise.html

Título: Queens of Noise

Lançamento: 1976

Gravadora: Mercury Records

Produção: Kim Fowley, Earle Mankey

1. Queens of Noise (Billy Bizeau): Uma música emblemática da banda, mas que tem uma versão de estúdio pouco enérgica a meu ver. Joan canta solo na música e Jackie faz o back. As guitarras são pouco impactantes e confesso que demorei a me acostumar com a música (ouvi primeiro a versão ao vivo). A história por trás dessa gravação é tensa: Cherie dizia que Bizeau compôs a música para ela, mas em um dia em que Cherie não estava no estúdio, Joan gravou com a aprovação do resto da banda. Nem é preciso dizer que quando Cherie descobriu foi o caos – principalmente porque Joan já estava cantando solo em metade das músicas do setlist das Runaways – e foi feito um acordo de que nas apresentações ao vivo Cherie cantaria a primeira estrofe e Joan a segunda.

2. Take It or Leave It (Jett): Joan canta solo na música que é totalmente influenciada por Suzi Quatro. O tema é sexo casual. O riff de guitarra é bacana e solo de Lita muito bom.

3. Midnight Music (Currie/Fowley/Steven Tetsch): A música foi feita para atender os apelos de Cherie por músicas mais melódicas, mas ninguém da banda nunca gostou da música. A faixa fica no meio do caminho: não é nem 100% melódica nem 100% rock and roll, mas eu particularmente gosto muito. Curiosidade: Lita gravou o baixo original da música, pois Jackie estava no hospital internada com pneumonia. Mais tarde, Jacki regravou o baixo. Lita destestava tanto a música que elogiou Jackie dizendo que a melhor parte da música era o baixo (o que é definitivamente um elogio, uma vez que Lita sempre dizia que Jackie era uma baixista medíocre).

4. Born to Be Bad (Fowley/Steele/West): A música já existia desde os primórdios da banda e a letra é de Kim Fowley. Joan no vocal solo gravou a faixa bebendo Jack Daniels e é possível ouvi-la chorar pouco depois do solo de Lita. Eu sinceramente não sei se gosto dessa música porque ela beira perigosamente  o puro brega.

5. Neon Angels on the Road to Ruin (Ford/Fowley/Fox): Letra de Kim Fowley mais uma vez com refrão de Lita e estrofe de Jackie. A música foi uma concessão ao lado mais heavy metal de Lita. Os vocais de Cherie são impecáveis e a pegada de guitarra é provavelmente uma das melhores de Lita.

6. I Love Playing With Fire (Jett): Essa é simplesmente minha música favorita de The Runaways. Simplesmente porque consegue captar toda a força, energia e transgressão da banda. Sensacional! Uma das melhores interpretações de Joan nos vocais, sem dúvida. E também uma de suas melhores guitarra base. E eu concordo com Jackie Fox, é o melhor solo de Lita Ford!

7. California Paradise (Fowley/Jett/Kari Chrome/West): Outra música dos primórdios da banda. É uma música ótima, com um vocal muito bom de Cherie mas que ficou estranha na versão de estúdio. O excesso de reverber na bateria é insuportável. Ah, lembrando que “California Paradise” é a única música de The Runaways com solo de guitarra de Joan (o primeiro solo é dela e o segundo é de Lita).

8. Hollywood (Fowley/Fox/Jett): Vocal principal de Joan e provavelmente uma das melhores combinações vocais da banda. Durante o refrão o back é de Jackie e a voz dela misturando com a de Joan dá um efeito ótimo e a certa altura é bem difícil discernir quem está cantando qual parte. O baixo é bem marcado e provavelmente é a melhor linha de baixo de Jackie.

9. Heartbeat (Currie/Ford/Fowley/Fox/Earle Mankey): Lita e Jackie fizeram a música e Jackie fez a letra da música que originalmente se chamaria “Joey” e seria uma paródia de canção de amor para Joey Ramone. Jackie iria cantar solo na música, mas Cherie não gostou, uma vez que Joan já estava cantando solo em metade do album. Kim Fowley então sugeriu que as duas dividissem os vocais. A tentativa não surtiu efeito (Jackie diz que a voz dela e a de Cherie não “se davam bem”) e a gravação foi suspensa. No dia seguinte, quando Jackie chegou no estúdio, Cherie já tinha gravado a música e a transformado em uma canção de amor para David Bowie. Num show em Boston mais tarde, Jackie se vingaria do fato. Durante um show da banda em que David Bowie supostamente estaria na platéia, Cherie dedicou a música a ele fazendo uma grande cena. Mas no meio da música, Jackie tirou o suéter e ficou só de sutiã, roubando toda a atenção. rs Mas de qualquer forma, Bowie já tinha ido embora a essa altura. Quanto a “Heartbeat” é uma música totalmente não-Runaways.

10. Johnny Guitar (Fowley/Ford):  Considerada por alguns a pior música que The Runaways já gravou (incluindo aí Jackie Fox) e por outros uma das melhores. Difícil dizer. “Johnny Guitar” é um blues de 10 minutos com uma letra cantada por Cherie contendo a velha metáfora guittara-sexo. O solo de Lita corre solto e é um bom solo, apesar de extremamente longo. E os gemidos de Lita ao fundo são um tanto estranhos.

Sobras de estúdio (mais tarde incluídas no album Flaming Schoolgirls): “C´mon”, “Hollywood Dream”, “Hollywood Cruisin´”, “Strawberry Fields Forever” e “Here Comes the Sun”.

Originalmente essa seria a capa, mas Jackie sugeriu que a foto fosse trocada. O argumento era que o título iria arruinar a foto.

A campanha de Queens of Noise

Com Queens of Noise e a turnê na Europa, a banda ganhou mais projeção. Kim Fowley começou a pegar pesado no marketing e de repente The Runaways se viu como a maior importação de discos do Japão, ao lado de bandas como The Beatles e Led Zeppelin. Foi então que surgiu a possibilidade de se fazer uma turnê no Japão, que é o assunto do próximo post.

Pessoal, compilar toda essa informação dá muito trabalho, então não posso prometer quando será o próximo post. Vida super corrida. Mas enquanto isso, alguns audios legais pra vocês curtirem.

Para conferir a bibliografia, cheque os posts anteriores.

Gravações do show no Starwood L.A em:

Então, vamos começar do começo. E esse começo vem de uma idéia antiga para um post complicado sobre essa questão básica de “O que significa ser mulher? O que é expressar feminilidade?”. É o tipo de pergunta que não tem uma resposta pronta, direta. É o tipo de coisa que a gente pode divagar, discutir, pensar junto. Acredito que não possa ser respondido. E isso só daria um post – dando continuidade ao post da Sandy – enorme . Enorme mas talvez que as pessoas não fossem achar interessante porque seria longo e meio repetitivo. O que me leva à questão da verdade, que até comecei a questionar no post sobre o Carnaval, mas que também daria uma discussão longa e repetitiva. Me veio então a idéia de outro post sobre The Runaways que também seria longo e cansativo. A solução? Juntar os três temas numa coisa só.

Estudar crítica feminina abriu a minha cabeça, sério. Sempre tive um grande preconceito contra a crítica literária feminista, grande parte devido a interpretações errôneas e aulas fuleiras sobre literatura americana do século XX. Na minha concepção feminismo era uma coisa ultra radical, meio forçada, idealista, beirando o sem noção. No entanto, pesquisando Margaret Atwood fui forçada a ler crícia feminista e meu primeiro contato foi com Sandra Gilbert e Susan Gubar na edição mais recente da Northon Anthology of Literature by Women [Antologia Northon de Literatura Feminina, em tradução livre], uma tora de dois volumes com mais de duas mil páginas! Confesso que comecei a ler a introdução com o pé atrás, mas logo no primeiro capítulo, sobre os primeiros textos escritos por mulheres na Idade Média, meu mundo mudou. Devorei os textos teóricos numa rapidez incrível. Tomei total consciência de toda a luta das mulheres nos últimos séculos e constatei  com comprovações teóricas o que já tinha percebido intuitivamente ao longo dos anos: que ser mulher é uma construção.

Eu recomendo a todos aqueles que tenham qualquer interesse em estudar construção do imaginário (seja ele de raça, gênero, classe social) a leitura dos textos teóricos dessa antologia e/ou o livro A Madwoman in the Attic, das autoras acima mencionadas. É um panorama muito bem pesquisado e muito bem escrito (ou seja, rende uma leitura prazerosa) que mostra de século em século a construção da sociedade em torno do que é considerado, hoje, uma mulher e consequentemente, o que cabe a ela fazer ou não fazer.

A coisa parece bem óbvia, mas o buraco é mais embaixo. Grande parte do que li, já tinha percebido pelas idas e vindas da vida, mas confesso que fiquei muito mais atenta a questões mais sutis. O discurso sobre a mulher tem sido contestado de uma maneira mais, digamos, universal a pouco mais de um século e algumas construções ficam na nossa cabeça sem que a gente perceba. Por exemplo, a famosa frase “Mas uma mulher fazendo isso.!..” ou aquele comentário maldoso “Se fosse homem, até que vai, mas mulher…”. Claro que temos que tomar cuidado para não cair em radicalismos e sair por aí com a bandeira que mulheres são melhores que homens e que os homens que se explodam. A questão não é superação, é igualdade. O que me leva a The Runaways.

The Runaways é meu novo vício. Sou uma pessoa extremamente passional e quando cismo com uma coisa, não largo. Então nas últimas semanas tenho dedicado meu pouco tempo livre a pesquisar a história da primeira banda de rock só de garotas. Pesquisei em tudo quanto é lugar. Wikipedia, blogs obscuros, Youtube, sites de música, blogs de ex-integrantes da banda, e-books, entrevistas, documentários. E o que encontrei? Bem, resistência. É impressionante. Cinco garotas cantando rock incomoda muita gente, mas cinco garotas cantando rock falando de sexo e festa incomoda muito mais.

Incomoda até os marmanjos que falam de sexo e festa.

Cara, eu gostei MUITO da banda. Gostei do som, gostei da interpretação. Achei forte, mexeu comigo. E é isso que procuro em música, em arte em geral, coisas que mexem comigo, que me fazem sentir alguma coisa. Foi uma banda montada? Foi. Mas foi uma banda fake? Hum não. Na minha opinião o que elas fizeram foi genuíno, chega a ser imaturo em algumas partes, mas foi algo delas. Um modo de se expressar num mundo turbulento que simplesmente aceitava que garotas ficassem em portas de show pra transar com os caras da banda, mas não aceitava que as garotas fossem a banda.

The Runaways nunca foi sucesso nos Estados Unidos, apesar de ter sido uma banda considerada na Europa e uma febre no Japão (com direito a album ao vivo gravado por lá, meu favorito por sinal, Live in Japan). Engraçado o comentário de Jackie Fox, ex-baixista, em seu extinto site: The Runaways era revolucionário demais para o público masculino conservador mas era sexy demais para as feministas radicais o que resultou em uma baixa popularidade nos EUA. A banda era taxada de poser, antro de promiscuidade, transmissora de valores degradantes da sociedade. Ué, mas se você pegar uma letra de música do Led Zeppelin, vai encontrar a mesma coisa. Então qual o problema?

O problema é que mulher transgressora é taxada, primeiramente, de louca. Se o lance de louca não funcionar, vem o o rótulo de lésbica. Se o de lésbica não funcionar, bem, aí não se tem escolha e vem o de prostituta promíscua. Aí não tem jeito, a mulher fica marginalizada, excluída e sofre preconceito sem nem mesmo ter sua voz ouvida. Todo mundo tem direito de não gostar de determinada música, o problema é que a crítica às Runaways sempre pegava no lado “volta pra casa, garotas”.

Nesse sentido, ouvir Joan Jett, aos 16 anos, cantando o trecho abaixo é no mínimo revelador:

Wild in the streets, barely alive
Mama’s always telling me stay inside
Don’t you hang around with those young boys
Soon you’ll be lovin’ them
They’re all night toys

Hot love hear, I got the drive
Neighbours been bugging me I gotta hide
I am the bitch with the hot guitar
I am the air, the sun and stars

I wanna be where the boys are
I wanna fight how the boys fight
I wanna love how the boys love
I wanna be where the boys are

Talvez Kim Fowley, produtor da banda, (figurinha bem questionável) não tenha pensado nas implicações do que estava escrevendo, assim, só pra chocar, mas ao colocar Jett para cantar e interpretar a música, as palavras ganham novo valor. A questão não é ficar com os garotos pra ser uma vadia promíscua e sim ter a oportunidade de fazer as mesmas escolhas que os garotos, de poder dizer que sim ou poder dizer que não.

Obviamente idealizar qualquer coisa na vida pode ser algo muito perigoso (e cegante!). O que nos leva de volta à questão da verdade. Muita informação sobre The Runaways é extremamente contraditória e isso fica evidente no filme Edgeplay, um documentário produzido por Victory Trishler-Blue, ex-baixista da banda. No filme, cinco ex-integrantes [Cherrie Currie (vocalista), Lita Ford (guitarrista solo),  Jackie Fox (baixista até 1977), Vicki Blue (baixista de 77 a 79) e Sandy West (bateirista)] contam sua versão do que realmente aconteceu desde a idealização do grupo em 1975 até o turbulento fim em 1980. É impressionante como a versão dos fatos é contada de uma maneira diferente por cada integrante e o fato de Joan Jett ter se recusado a participar do filme e proibir que suas músicas fossem usadas na trilha é, no mínimo, instigante.

Onde está a verdade? Existe uma verdade? The Runaways foi uma banda revolucionária de garotas cheias de atitude ou foi uma idéia louca de um produtor que explorou tudo o que pode de adolescentes frágeis mas talentosas?

A minha conclusão é de que a verdade, e principalmente, a verdade sobre mulheres sempre é uma mistura das duas coisas. Tudo começa com uma idéia e essa idéia é sugada e apropriada até se tornar uma coisa completamente diferente que apenas apóia o “poder do patriarcado” (odeio usar essa expressão, mas é necessário). Mulheres são sempre vistas como extremos, mas talvez o que seja necessário é ver que somos o meio. Que somos revolucionárias, mas que somos frágeis; que vamos à luta, mas que temos medo; que fazemos muito barulho, mas que queremos paz; que somos simplesmente seres humanos.


Let me tell you what we´ve been doing
Neon angels on the road to ruin


Esse é um post sobre o filme. Se você estiver interessado na história da banda, clique aqui.

Os comentários em vermelho foram feitos depois que pesquisei melhor sobre a banda.

The Runaways é a celebrada primeira banda de rock formada só por garotas da década de 70.  Se você acha que não conhece, digita no youtube “Cherry Bomb” e vai perceber que sim, você já ouviu isso em algum lugar. Até porque a líder da banda era ninguém menos que Joan Jett (de “I love Rock and Roll”). Ano passado, a história desse bando de meninas de 15 anos (sim, 15 anos!) rebeldes e surtadas virou filme estrelando Kristen Stewart e Dakota Fanning, como Joan Jett e Cherrie Currie, respectivamente.

A premissa do filme é boa no início. Imagine o ano de 1975 com todo o punk rock, glam rock, caras vestidos de mulher, curtição, início da disco music. Agora imagine uma menina de 15 anos que quer ser roqueira. Imagine que essa menina veste roupas de homem, anda como homem, fala como homem, até faz xixi como homem! Agora imagina que essa menina fica de fora das bandas de rock simplesmente porque é menina. Porque com toda liberação sexual dos anos 60, mulheres no rock ainda era tabu. Simplesmente porque mulher é groupie, não é da banda.

Essa menina é Joan Jett. Que foi uma pioneira no sentido de querer ser guitarrista de uma banda de punk rock só de meninas. Ao conhecer Sandy West, baterista, as duas dão o pontapé inicial para o que seria uma verdadeira revolução musical. The Runaways era um fenômeno não só pela qualidade musical, mas porque quebrava todas as regras. Até as regras de quem quebrava as regras.

O filme captura bem o início de tudo e toda a transgressão envolvida quando elas tocavam. Era realmente se liberar. Surtar. Falar o que não podia ser dito. Ser mullher de um jeito agressivo, revoltado, beirando o violento. A atuação de Kristen Stewart (sim, a de Crepúsculo, minha gente) é sensacional. Ela É Joan Jett. Não tem condição! Não dá pra saber a diferença entre as duas. Juro que não pensei que a moça tivesse tanto talento.

No entanto, o filme se perde. As outras integrantes do Runaways não têm destaque algum e o drama pessoal de Cherrie Currie parece idiota pois o espectador não consegue sentir o que estava pesando para ela. A tensão entre a banda praticamente não aparece, fica parecendo que Cherrie é uma chata que quer ir embora no meio de toda diversão. Mas também, é complicado dizer, pois o roteiro do filme é baseado nos relatos de Cherrie Currie mas produzido por Joan Jett. Ou seja, duas visões completamente opostas sobre o que de fato aconteceu!

Jackie Fox (baixista) não autorizou que sua vida fosse retratada no filme. Então o papel de baixista ficou a cargo de uma personagem fictícia chamada Robin. Além disso a saída de Cherrie Currie se deu durante uma sessão de fotos, não uma gravação, por conta de uma briga séria com Lita Ford (guitarrista). Quem tiver interesse em saber mais dessa história, assista o filme Edgeplay – Um filme sobre The Runaways.

A cronologia do filme também é confusa. A passagem dos anos não é mostrada e nunca se tem certeza de quando e em que ordem as coisas estão acontecendo. Na minha opinião, para dar mais peso à trama, poderiam ter sido mostradas as duras críticas que a banda recebeu dentro do próprio meio do rock, predominantemente masculino e surpreendemente machista.

O ponto alto são as cenas de performance no palco. É aí que é capturada toda a essência do The Runaways, com toda aquela força de arrebentar. A preparação de Kristen nesse quesito foi boa: ela fez aulas de guitarra e realmente aprendeu a tocar as músicas. Já Dakota Fanning teve aulas de canto e performance e mandou bem de diva transgressora. Só achei que não ficou claro no filme que Marie era sua irmã gêmea. Teria dado mais impacto se fosse a mesma atriz.

O filme até que captou bem a essência das garotas...

No geral, é um bom filme que vale a pena ser visto, apesar de seus deslizes. Com um roteiro mais fechado e menos difuso, poderia ter sido um grande filme fazendo jus às atrizes principais e à história da banda.


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