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E nada melhor do que passar o Carnaval com um pouquinho de bom e velho rock and roll, não? Então vamos pra sequência da história da banda estado-unidense The Runaways. E esse post vai abordar o conturbado período que se seguiu à turnê japonesa de 1977.

Como sempre, esse é um post do projeto Born to Be a Runaways Fan e as informações que uso foram declarações da própria banda. Para conferir a bibliografia, dê uma olhada nos posts anteriores.

No documentário Edgeplay, Jackie Fox diz:

As pessoas às vezes me perguntam: O que você acha da Lita? O que você acha da Joan? E a única resposta que consigo pensar é: Eu não as conheço! Sabe, eu não sou a mesma pessoa que eu era quando tinha 16 anos. E nós éramos todas incrivelmente difíceis do nosso jeito: Cherie nas Runaways era a pessoa mais egocêntrica que eu já conheci na vida. Lita era uma vaca. Sandy… Sandy apenas parecia ser incapaz de um pensamento independente. Ela tinha a melhor das intenções, mas era facilmente convencida por quem quer que seja da banda que fosse amiga dela na semana em questão. E Joan era, provavelmente, naquele momento, a pessoa mais estável, a que era a peça central na banda. E eu era uma terrível sabe-tudo insegura. E colocar-nos todas juntas era uma batalha de problemas de personalidade.

Com a saída de Jackie no final da turnê do Japão, os ânimos não se acalmaram. Pelo contrário, a tensão decorrente das diferenças de personalidade permaneceu entre as membros juntamente com a competitividade e agora as apresentações para a escala de uma nova baixista.

Vicki Blue antes da mudança de visual imposta por Lita...

Algumas garotas tocaram até que Vicki Blue (Victory Trischler-Blue) apareceu. Vicki ficou sabendo por um amigo que Jackie Fox tinha saído da banda no Japão e ligou para Kim Fowley a fim de marcar um teste. Em Edgeplay, ela diz que se lembra de entrar no estúdio de ensaio e abrir a porta para dar de cara com a banda lá dentro. Ela diz que houve um “momento congelado no tempo” para depois pensar imediatamente: “Ah meu Deus, ela realmente parece comigo!”. E ela estava se referindo a Lita Ford.

A banda ensaiou com Vicki algumas músicas e de acordo com a última, o ensaio foi bom. Então as Runaways pediram que Vicki deixasse a sala para deliberar a decisão. Vicki diz que se sentiu ansiosa, pois queria muito entrar para a banda. Quando ela entrou na sala mais uma vez, Cherie estendeu a mão para ela e disse: “Bem-vinda às Runaways!”. Mas Vicki e Lita realmente se pareciam muito o que, obviamente, não deixava Lita nada feliz. Para resolver o “problema”, Lita pintou o cabelo de loiro e convenceu Vicki a fazer um permanente. Mas ainda assim, as duas passariam facilmente por irmãs.

Lita... realmente parecidas, não?

Mas estranhamente, Vicki e Lita se tornaram um tanto próximas. Em Edgeplay, Lita diz que considerava Vick sua responsabilidade. Foi ela quem ensinou a Vicki todas as antigas músicas das Runaways (e lembrando aqui que Lita é uma ótima baixista! rs) e as duas passavam algum tempo juntas. Ainda no documentário, Lita diz que estava cansada da atmosfera tensa da banda naquela época e que Vicki trouxe um certo ar fresco. Passar um tempo com Vicki era mais tranquilo uma vez que ela não estava envolvida em antigos joguinhos de poder ou em ressentimentos passados.

 O limite de Cherie

Com uma nova integrante, a banda precisava investir mais uma vez em sua imagem. Por isso uma sessão de fotos foi marcada a fim de apresentar The Runaways em sua nova formação. O fotógrafo era Barry Levine, o mesmo que à época fazia a maior parte das fotos promocionais da banda bem como a capa dos álbuns. O ensaio, no entanto, não saiu como o esperado. Essa história tem duas versões, então vamos lá:

  • Versão de Lita Ford e Vicki Blue

Uma das fotos em grupo da sessão fotográfica fatídica...

Lita deu carona para Vicki até o estúdio e lá, juntamente com as outras Runaways, ficaram esperando por Cherie, que chegou duas horas atrasada porque dividia o carro com sua irmã. Lita ficou p da vida, mas a sessão de fotos rolou. No entanto, quando a banda começou a fazer a sessão de fotos individuais, Cherie disse que tinha que ir embora mais cedo. Levine, irado, atirou a câmera no chão e começou a gritar. Cherie, assustada, saiu correndo para o vestiário e começou a se trocar. O problema é que Lita já tinha perdido a cabeça com a história toda. Ela foi atrás de Cherie e literalmente arrombou a porta para empurrar Cherie contra a parede e dizer: Ou é a banda ou a sua família! Cherie, em pânico, diz que era sua família e depois emenda com um: “Eu não posso trabalhar com essa mulher!” e vai embora. Antes de sair do estúdio, no entanto, ela segura o braço de Vicki e pergunta: “Vicki, você vem comigo?” e Vicki diz que não. É aí que Cherie sai da banda.

No documentário Edgeplay, Lita diz que já estava de saco cheio de Cherie e de seus problemas familiares. Ela diz que se importava muito com a banda, com a música e que estava disposta a trabalhar duro para o sucesso das Runaways, coisa que ela achava que Cherie não estava fazendo. De acordo com Lita, Cherie estava sempre atrasada e mais preocupada com relacionamentos (referência ao affair entre a loira e Scott Anderson) e drogas do que com o que era melhor para sua carreira.

  • Versão de Cherie Currie

Cherie chega no estúdio e avisa Barry Levine que tinha que ir embora mais cedo pois tinha que entregar o carro para sua irmã gêmea, Marie, que tinha aulas de atuação, às sete horas. Barry diz okay, mas Lita chega duas horas atrasada e a sessão demora mais do que o planejado. Cherie então, no meio da sessão, anuncia que precisa sair. Levine, irado, atira a câmera no chão. Percebendo que a situação ia ficar feia, Cherie sai correndo para o vestiário e tenta sair dali o mais rápido possível. Mas Lita vai atrás dela, derruba a porta e começa a gritar. No meio da briga, Lita diz que existe a banda e a família e que todas as outras escolheram a banda. Cherie diz que escolhia sua família e vai embora.

E mais uma vez Cherie entra em conflito com seus depoimentos. Enquanto que em sua autobiografia, Neon Angel,  ela diz que ficou arrasada com sua saída das Runaways e que teria voltado se as outras garotas tivessem ido atrás dela para conversar, em Edgeplay ela diz que já tinha tido o bastante e que foi um alívio sair e começar sua carreira solo. Como sempre, drama queen. Eu, pessoalmente, acredito na versão de Vicki Blue e Lita Ford. Até porque são duas pessoas contando a mesma história e Vicki é uma figura bastante mais coerente que Cherie.

E é assim que Cherie Currie, a Cherry Bomb, abandona The  Runaways. No entanto sua imagem com o espartilho branco seria para sempre associada à banda.

Seguindo em frente como um quarteto

No dia seguinte da saída de Cherie, as membros remanescentes da banda se reuniram e Joan teve que assumir a responsabilidade de ser o vocal principal. Tanto Lita quanto Vicki dizem que Joan teve um flash de insegurança, se perguntando se seria capaz de fazer aquilo. A banda a apoiou e a ajudou a escolher as músicas que Cherie cantava que ela poderia cantar. Vicki Blue diz em Edgeplay que esse foi o único momento de camaradagem que experenciou durante toda sua estada com as Runaways.

Vicki ao lado de Joan, agora frontman num estilo bastante diferente da anterior

Joan Jett se tornou uma excelente frontman, apesar de ter um estilo completamente diferente de Cherie. A banda pós-Cherie, inclusive, parece outra. A pegada punk se tornou mais forte bem como músicas mais pesadas, uma vez que a banda não tinha mais lidar com os pedidos de músicas melódicas de Cherie. Joan tinha uma postura agressiva no palco, mas bem menos sensual. Nada de corpetes, nada de lingeries. Joan Jett usava calça jeans rasgada e no máximo seu macacão vermelho (que ela abandonou depois de 77).

Uma nova imagem se formava para a banda. Cherie fazia o tipo femme fatale misturado com drama queen, enquanto Joan era mais masculina  e durona e tinha uma atitude rock and roll facilmente confundida com arrogância segundo alguns produtores (dentre eles, Toby Mamis). Cherie usava as mãos, se abaixava e dançava para impor sua presença no palco. Joan, por motivos óbvios, não podia fazer isso. Ao invés disso, ela passou a usar os olhos (aquele olho arregalado que mais tarde seria uma de suas marcas registradas), mascar chiclete e dar umas jogadas de ombro. Os ombros curvados que tanto desagradavam Kim Fowley acabaram se tornando sua postura clássica no palco.

Nos comentários do filme The Runaways, Joan disse que Kim Fowley achava que The Runaways sem Cherie Currie estava fadada ao fracasso. Ela diz que ele nunca falou isso, mas que ela podia sentir e que ficou feliz quando provou a ele que ele estava errado.

Da voz no limite melódica de Cherie Currie para a interpretação seca e agressiva de Joan Jett

O que Fowley temia era que sem o apelo sexy explícito a banda não fizesse mais sucesso. De certa forma isso não aconteceu, mas é verdade que o público mudou junto com o som. Possivelmente alguns fãs não gostaram da nova cara da banda e Waitin´ for the Night não foi um álbum bem recebido na época. Pelo menos não nos Estados Unidos.

Das músicas que Cherie cantava, Joan passou a cantar “Queens of Noise” integralmente, “California Paradise”, “American Nights” e “C´mon”. Em termos técnicos, Cherie Currie era uma melhor vocalista, mas Joan Jett conquistou os fãs com a atitude rock and roll.

Diz aí que o vídeo é de 78, mas pelas roupas, imagino que seja 77. Tinha um vídeo de ótima qualidade dessa música sem Cherie, mas não consigo achar em lugar nenhum do Youtube mais. Alguém tem?

Kim Fowley se afastou um pouco e Toby Mamis passou a gerenciar a banda. Em meio a essa fase de adaptação, é importante dizer que o clima estava extremamente tenso e que as drogas já eram mais que rotina. Vicki Blue, na época, era a única que não usava drogas. Foi nesse cenário que Waitin´ For the Night, o quarto álbum da banda foi gravado em agosto de 77.

Título: Waitin´ for the Night

Lançamento: outubro de 1977

Gravadora: Mercury Records

Produção: Kim Fowley

1.Little Sister (Jett / Inger Asten): Essa primeira música já mostra o que vai se ouvir nesse álbum: guitarras mega altas e distorcidas, vocal agressivo e letras nervosas sobre a noite na cidade, curtição e encontros amorosos. Joan apanhava para cantar esse refrão ao vivo, mas também era uma das melhores interpretações dela nos shows. Uma vez vi um comentário no Youtube dizendo que esse álbum deveria se chamar “Kids in Hate”  por conta do refrão dessa música e eu acho que é verdade.

2. Wasted (Jett / Fowley): Uma música sobre jovens drogados nos clubes da cidade. “Wasted” acaba sendo uma mistura conflitante de uma inspiração punk (Joan) com outra heavy metal (Lita). No final o punk ganhou, mas o solo de Lita nessa música é muito bom.

3. Gotta Get Out Tonight (Jett): Seguindo a linha mais pesada das músicas anteriores, essa apresenta guitarras em excelente forma, tanto da parte de Lita quanto de Joan. E destaque para Vicki, que é uma baixista muito melhor que Jackie.

4. Wait For Me (Jett): Uma balada romântica escrita por Joan, mas que não deixa de lado as guitarras. Um riff bem bolado, não cansa. A voz de Joan mescla uma interpretação mais suave com seu tom usual agressivo.

5. Fantasies (Ford): Primeira música composta 100% por Lita Ford que aparece num álbum, essa faixa não poderia deixar de ser o alívio mais metal num álbum quase todo punk. A música, lenta e melódica, apela para arranjos de guitarra e um solo excelente. Apesar de bem composta e bem executada, algumas vezes ela me cansa. Uma faixa longa se formos analisar outras músicas da banda.

6. School Days (Jett / Fowley): Joan canta sobre experiências na escola e a vida depois dela. Provavelmente a música mais tocada da época. Lita faz uns enfeites muito legais nessa música, mas sempre senti falta de um solo.

7. Trash Can Murders (Ford): Lita faz uma letra sinistrona sobre assasinatos à noite (bem estilo metal mesmo) somada a uma pegada de guitarra muito bem feita. Joan interpreta a música no que é seu melhor vocal no disco inteiro e eu arriscaria dizer nos álbuns de estúdio das Runaways. Ah, e o solo de Lita é excelente e a guitarra base de Joan também. Ah, e Vicki e Sandy também foram muito bem. Enfim, essa faixa é ótima! Apesar da letra sinistrona.

8. Don´t Go Away (Jett): Outra música mais romântica de Joan. Gosto bastante dos vocais agudos de Joan aqui, mostra um pouco da sua versatilidade vocal.

9. Waitin´ for the Night (Jett / Fowley / Krome): A faixa-título é uma balada com um refrão pesado e uma letra mais poética bem Kari Krome.

10. You´re Too Possessive (Jett): Para o final temos uma música bastante intensa com vocais mega agudos de Joan Jett sobre um caso de affair possessivo. Inclusive,  os backs mega agudos eram um sofrimento nos shows ao vivo. Mas destaque para Lita.

A contracapa da Waitin´ For the Night

 Dessa época estão alguns vídeos de apresentações da banda na TV, vale a pena conferir:

Ah, e esqueçam a legenda do vídeo acima pois até toda errada. Até diz que Lita é Cherie… Imagina se a Lita vê uma coisa dessas…

 Uma perda

Um fato não muito comentado a respeito da formação de The Runaways como um quarteto é que a banda perdeu seu backing vocal de qualidade. Até a saída de Cherie, os backs ao vivo eram incríveis. Na formação clássica, Joan e Jackie faziam o back para Cherie. Um dos talentos não muito mencionados de Joan Jett é que ela é uma excelente backing vocal, conseguindo dar força ao vocal principal e ao mesmo tempo imprimindo sua marca. Cherie também fazia backs ótimos e o mesmo se diz de Jackie Fox, que tinha uma voz muito bonita por sinal.

Com a saída de Jackie e mais tarde de Cherie somado ao fato de que Joan agora era o vocal principal a responsabilidade maior dos backs caiu sobre Lita. E Lita Ford tem um back medíocre na minha opinião, de péssima qualidade. Desafinado e sem coordenação. Vicki Blue era uma back melhor, mas estranhamente, ela não era fã do microfone e nos vídeos que podemos ver da banda, é raro vê-la com um pedestal na frente. Quanto a Sandy West, ela normalmente faz coro e não back. No álbum de estúdio, Joan gravou todas as segundas vozes e backs (apesar de eu desconfiar que tem Sandy no coro às vezes).

 The Runaways como um quarteto se tornou uma banda mais underground, uma vez que apelo sexual que Kim Fowley tanto queria, perdeu sua força. Joan Jett disse, se não me engano nos comentários do filme The Runaways, que elas eram infelizes na época e que uma prova disso é que não há fotos delas sorrindo na época. Lita Ford diz no documentário Edgeplay que tudo que aprendeu no cenário musical com The Runaways veio do jeito mais difícil possível. Sandy West, por outro lado, diz que estar na banda foi a melhor época de sua vida.

Com o álbum mais Joan Jett de todos gravados pelas Runaways, não só pelo número de composições mas também pelo apelo punk, a banda fez alguns shows nos Estados Unidos e depois se lançou na segunda turnê pela Europa tocando em países como Reuno Unido, França, Bélgica e Holanda.

De volta aos EUA em dezembro de 1977 se prepararam para a turnê nacional ao lado de bandas como os Ramones.

Aguardem o próximo post que traz o ano de 1978!

Bibliografia

  • The Runaways Collector: um canal no Youtube com várias gravações raras de TV da banda. Vale MUITO a pena ver.

E finalmente mais um post da sequência que conta a história e a discografia da banda estado-unidense The Runaways e nada mais apropriado do que voltar essa coluna com a parte mais memóravel da história da banda que é a turnê japonesa de 1977.

Lembrando que esse post é parte do projeto Born to Be a Runaways Fan e que as fontes que eu uso para contar essa história são depoimentos ligados às integrantes da banda. Para conferir o que aconteceu nos anos anteriores da banda, clique aqui, e dê uma checada na bibliografia!

Depois da gravação de Queens of Noise, a Mercury Records, então gravadora das Runaways, investiu pesado em marketing para o novo álbum e para a nova turnê. A campanha englobava a confecção de camisetas, outdoors pela cidade e uma nova turnê nacional que dessa vez foi feita de avião e não num carro apertado, o que demonstrava um aumento da popularidade e do arrendamento da banda, o que não significava, é claro, que as garotas estivessem recebendo algum dinheiro.

Cherie Currie em sua biografia conta que bandas como Cheap Trick e Tom Petty abriram shows das Runaways nessa turnê e que as rádios tocavam suas músicas. Mas Cherie conta ainda que essa foi uma época tensa entre as membros e que havia situações difíceis como lavar a roupar no banheiro do hotel, coisa que Lita ensinou. Antes disso, elas todas estavam vestindo a mesma camiseta suada  e nojenta e jeans sujos todas as noites.

Foi nessa turnê que a banda tocou mais uma vez no CBGB´s, a lendária casa de shows em Nova York. A primeira vez foi em agosto de 1976, e tem umas fotos bem legais dessa época aqui.

Logo depois da turnê nacional, surgiu a possibilidade de se fazer uma turnê no Japão. A banda liderava a importação de discos por lá, ficando atrás só dos Beatles e do Led Zeppelin para se ter uma idéia. “Cherry Bomb” foi hit nas rádios japoneses e a idéia de uma turnê de dois meses no verão de 1977 pareceu uma grande oportunidade para os produtores da banda e para a Mercury Records.

Mas ninguém esperava por isso.

Estrelas no Japão

O enorme sucesso da banda no Japão até hoje é motivo de especulação por parte de fãs e das próprias integrantes da banda, que, acostumadas aos maus tratos e humilhações nos Estados Unidos, foram surpreendidas com o tratamento de estrelas internacionais em Tóquio. Sobre a surpresa e a fama que foi a estadia japonesa, Joan Jett disse:

Nós éramos grandes, como os Beatles.Tudo foi muito inesprado. Ninguém nos disse que éramos bem consideradas lá. Nós passamos por um monte de merda nos Estados Unidos e um monte de merda na Inglaterra também. Apesar de que eles eram um pouquinho mais receptivios e um pouquinho mais compreensivos na Inglaterra, mas mesmo assim passamos um monte de merda. Mas quando chegamos ao Japão, era literalmente como se fôssemos os Beatles, mas eram as garotas que eram os fãs. Nos EUA e na Europa, a maioria era caras gritando “Tirem a roupa!”. No Japão, onde mulheres são realmente consideradas cidadãos de segunda classe, milhares de garotas estavam nos seguindo pela rua com escovas de cabelo dizendo “Escove seu cabelo”. Elas não queriam ser rudes e rancar seu cabelo, então elas te davam uma escova de modo que você poderia pentear o cabelo.

http://www.juicemagazine.com/JOANJETT.html

Pegar fios de cabelo como souvenir e serem perseguidas pela rua foram somados a presentes no hotel, flores nos quarto de hotéis cinco estrelas, jóias e quimonos de seda. Os shows eram lotados com uma plateía fanática e fiel que ficava em fila para ver suas ídolas ao vivo. O resultado foi um estouro nas rádios do Japão, a gravação de vídeos, entrevistas e performances na TV japonesa. São esses os primeiros vídeos que temos de The Runaways tocando ao vivo.

Vídeo produzido com a banda. O som é playback:

Vídeo do show ao vivo na TV:

É difícil entender o sucesso da banda no Japão, principalmente ao se pensar que a base de fãs era toda composta por mulheres, que tradicionalmente são reprimidas na sociedade japonesa. Entender porquê rock ´n´ roll nervoso com letras que falavam explicitamente sobre sexo cantadas por adolescentes em roupas insinuantes foi bem aceito pelos japoneses é um mistério pra mim. (Alguém por favor tem uma teoria interessante?) Imagino que o fato de The Runaways ser uma banda bem visual possa ter chamado a atenção dos japoneses e também as mulheres podem ter visto nessas garotas um espelho para seus próprios desejos de rebeldia. The Runaways, inclusive, inspirou a criação de uma banda de rock japonesa só com garotas, as GIRLS.

Cherie Currie: no centro da banda

A briga para ser o centro das atenções era uma das estratégias utilizadas por Kim Fowley e Scott Anderson a fim de fazer com que a banda ficasse sob o controle deles. Se bem que antes da turnê japonesa, Scott Anderson já tinha deixado de ser o gerente da banda e sua saída não é bem explicada. Cherie diz em sua biografia que provavelmente ele pediu um aumento e Kim Fowley negou. Mas a estratégia de segregação de Fowley continuava.

Cherie, por ser a vocalista, tinha mais atenção da mídia. Seu visual produzido e  o escândalo do corpete também ajudava em fazer dela o centro visual da banda. Mas isso não era visto com bom olhos pelas outras integrantes. Jackie, no documentário Edgeplay, diz que Cherie nas Runaways era a pessoa mais egoísta que já conhecera. Em sua biografia, Cherie diz que Jackie era insuportável porque sempre reclamava de tudo e condenava o abuso de álcool e drogas por parte das outras quatro. Mas é estranho porque Jackie afirma em seu blog que ela e Cherie normalmente se davam bem e na primeira versão da biografia de Cherie, “Neon Angel: The Cherie Currie Story” ela diz que Jackie era a pessoa mais sã e legal da época. Vai saber qual era verdade. Cherie é descrita sempre como uma drama queen mor que muda a versão dos fatos dependendo da época.

Cherie e Lita na turnê de 1976. Tensão eterna...

Mas parece ser verdade que ela se dava bem com Joan e com Sandy de maneira mais geral. Inclusive, em Edgeplay Cherie confessa que teve relações sexuais com as duas, mas que nunca foi nada sério, uma vez que só estavam “experimentado” com a questão da bissexualidade que ganhou destaque na época. Sandy não comentou nada sobre o fato, mas é verdade que a amizade entre Cherie e Sandy permaneceu após o fim das Runaways. Quanto a Joan, apesar de elas terem se afastado, a cena de sexo entre as duas está presente no filme The Runaways que foi produzido por Joan, então imagino que haja alguma verdade aí sim.

Mas uma coisa parece quase certa: Cherie não se dava bem com Lita. Em todas as versões, de todas as membros da banda, há relatos de brigas sérias entre Cherie e Lita que beiravam a agressão física. Em sua biografia, Cherie diz que normalmente era Sandy (a mais forte fisicamente da banda) que apartava as duas. E não era só uma questão de desagrado pessoal, Lita e Cherie eram diferentes em relação a quase tudo. Enquanto Cherie apreciava músicas mais melódias, Lita pendia pro heavy metal. Lita criticava os vocais de Cherie e suas composições e tinha muito ciúme da atenção recebida por ela. Isso porque, tecnicamente, Lita também recebia muita atenção devido a sua posição de destaque como guitarrista solo.

Foto do suposto "livreto da turnê" com as fotos sensuais de Cherie...

Mas a atenção delegada a Cherie na mídia japonesa (repare que ela é quem descaradamente mais aparece em TODOS os vídeos) explodiu com a banda toda quando, ao chegarem no quarto de hotel, a banda encontrou um livreto da turnê das Runaways contendo quase que exclusivamente fotos de Cherie. E pior, fotos sensuais de Cherie que foram tiradas antes que  banda fosse para o Japão e sem o conhecimento de ninguém.

Cherie, obviamente, disse que não sabia que as fotos teriam conotações tão sensuais (ahãm) e que pensou que todas da banda teriam suas foto solo. Mas a situação não ficou bem com o resto da banda, que achava que Cherie estava indo justamente na direção do que ninguém queria que era de posar de garota sexy para chamar a atenção. Na cabeça de Joan e Sandy, principalmente, aquilo era o que a banda menos precisava se quisesse ser levada a sério. A imprensa estado-unidense, principalmente, ainda colocava as Runaways como uma banda montada e projetada por Kim Fowley que não tinha talento nem vontade própria.

O clima ficou tenso, mas o glamour da turnê japonesa dispersou as más vibrações. E quanto a Cherie ela diz em sua autobiografia que começou um relacionamento com um cantor latino famoso da época que também estava em turnê no Japão (alguém sabe quem é?) e que eles chegaram a ficar noivas, mas a família dele proibiu o relacionamento.

Esse vídeo abaixo é composto de trechos de performances ao vivo da banda e uma breve entrevista com as integrantes. Interessante reparar a personalidade delas a cada comentário:

A turnê no Japão fez tanto sucesso que a banda gravou um álbum ao vivo que é a compilação de músicas de 7 shows diferentes mais tarde masterizadas e retocadas em estúdio. Live in Japan é considerado melhor álbum da banda e capta com muita precisão do que The Runaways é feito: energia pura.

Título: Live in Japan

Lançamento: 1977

Gravadora: Mercury Records/ Polygram

Produção: Kent J. Smythe e The Runaways

1. Queens of Noise (Bizeau): versão incrivelmente superior à de estúdio com Cherie cantando o primeiro verso e Joan e Jackie o segundo. Ao vivo a música ganhou mais força nas guitarras e mais energia. É essa a forma que se tornou mais conhecida entre os fãs e virou um clássico da banda.

2. California Paradise (Fowley/Jett/Krome/West): essa versão é tocada de forma mais rápida e com mais intensidade. A bateria de Sandy West está bem melhor do que na versão de estúdio, assim como como as guitarras de Joan e Lita, que ganharam mais destaque. E solo de Joan ao vivo, raridade!

3. All Right You Guys (Danielle Fay/Bob Willingham): essa música só possui essa versão e nunca foi gravada em estúdio. Gosto particularmente do baixo de Jackie na faixa e do modo que ele acompanha as guitarras. Um das melhores linhas de baixo de The Runaways, com certeza.

4. Wild Thing (Chip Taylor): com certeza o melhor de Sandy West, não só na bateria, mas nos vocais também. Destaque para o back de Joan (já perceberam como ela é uma ótima back?) e para as pegadas de guitarra. Essa música tem uma versão tocada por ninguém menos que Jimi Hendrix, então dizer que essa versão é sensacional não é qualquer coisa não.

5. Gettin´Hot (Fox/Ford): é uma música um tanto louca, que mexe bem com o lado mais pesado de Lita Ford. As guitarras são muito boas e só recentemente tivemos acesso à letra oficial da música, que está no blog de Jackie Fox, o Jackiefox.net. Os vocais de Cherie são muito bons também e bem intensos. O back fica por conta de Jackie. Essa música também não tem versão de estúdio.

6. Rock ´N´Roll (Lou Reed): Apesar de Joan ter gravado o vocal da versão de estúdio, foi Cherie quem sempre cantou a faixa ao vivo. No album ao vivo não foi diferente e devo dizer que a música fica melhor com Cherie cantando, fica mais enérgica, na minha opinião. Também é bacana ouvir Joan tentando levantar a galera. Um pouco imatura a iniciativa dela, mas ainda assim bem legal.

7. You Drive Me Wild (Jett): Joan interpreta essa música como ninguém e ao vivo a faixa ganha um balanço diferente do que teve na versão de estúdio, bem como um solo de guitarra. Os clássicos gemidos de Joan ficaram bem mais reais também.

8. Neon Angels on the Road to Ruin (Ford/Fowley/Fox): Se essa música já tinha um viés heavy metal na versão de estúdio, na versão ao vivo a influência é inegável. Lita arrasa na guitarra, principalmente no solo poderoso, e nos riffs super intensos. Cherie também não faz feio na música que talvez seja a mais difícil de cantar de todo o setlist das Runaways.

9. I Wanna Be Where the Boys Are (Fowley/Ronnie Lee): a letra dessa música ilustra muito bem o espírito da banda e Joan faz um vocal impecável acompanhado por um back de Lita (o primeiro oficialmente dela na banda). Mais uma música que nunca teve versão de estúdio, mas que sempre aparecia nas apresentações ao vivo.

10. Cherry Bomb (Fowley/Jett): com certeza o maior clássico as Runaways em sua melhor forma. Em apenas 2:12 Cherie consegue criar uma atmosfera super intensa. O coro de “Cherry Bomb!” feito por todas as Runaways também é bastante emblemático. O solo de Lita é inesquecível também.

11. American Nights (Anthony/Fowley): Considero essa a melhor faixa do álbum. Simplesmente porque traz o melhor de todas as integrantes de uma vez: vocais intensos, bateria ritmada, guitarras super sincronizadas, baixo marcante. E é impossível deixar passar a participação de Joan cantando no back e dando aqueles gritinhos de “aw” que se tornariam sua marca registrada.

12. C´mon (Jett): Faixa comum de ser tocada nos shows ao vivo, mas que ficou de fora da versão final de Queens of Noise. Cherie conta em sua biografia que quando foi retocar os vocais no estúdio, Lita lhe fez o primeiro elogio dizendo que seus vocais tinham ficado muito bons e que ela [Lita] tinha gostado.

A foto completa da capa e contracapa do álbum "Live in Japan"

A turnê seria encerrada com um grande show no Tokio Music Festival, ainda em junho de 1977, mas um acontecimento inesperado tornaria esse show inesquecível. E não por uma razão boa.

O baixo de Jackie Fox

Jackie tinha um baixo raro, um Thunderbird branco. De acordo com Cherie e a própria Jackie, ele fora um investimento da família de Jackie e esta tnha um carinho especial com a peça. Ela sempre pedia que os hodies tomassem cuidado com ele. Em Edgeplay, Jackie afirma que depois de uma passagem de som, recebeu a notícia de que seu baixo tinha caído do suporte e quebrado de um modo que não havia possibilidade de conserto. Mas ninguém sabia lhe explicar direito o que acontecera.

Cherie conta uma história bem diferente em sua biografia (inclusive com uma parte dramática em que Jackie a acusa de ter chutado o baixo de propósito), mas a versão dela bate com a de Jackie no seguinte ponto: o descaso e abuso de Kent Smythe.

Smythe era o único remanescente da equipe estado-unidense da banda na turnê no Japão (uma equipe japonesa havia sido contratada) e vivia às voltas com drogas. No Japão, onde conseguir drogas era um problema, Smythe andava sempre bêbado. Sua atitude era péssima para com a banda e as humilhações era constantes, mas as Runaways concordam que ele pegava mais pesado com Jackie.

Jackie fala abertamente sobre o assunto em Edgeplay e essa é uma das partes mais emocionantes do documentário. A ex-baixista narra, aos prantos, como se sentiu abandonada pela equipe da banda que sequer mostrou preocupação com o fato de seu baixo ter quebrado. Ela ainda conta que aquele foi o ápice de um desgaste emocional que já vinha aparecendo desde o início da banda: os abusos de Kim Fowley, a falta de dinheiro, o descaso da equipe, as acusações da imprensa, as brigas internas da banda.

Ela diz que já tinha pensado outras vezes em deixar a banda, mas que sempre ficava indecisava com o pensamento “E se essa banda realmente ficar famosa? Como vou ficar?”. E era isso que a segurava como uma Ruanway. Mas Jackie, reconhecida pelas outras integrantes como uma pessoa extremamente sensível, não usava drogas e ela disse em seu blog que o fato de estar sempre “limpa” tornava as coisas mais difíceis de lidar.

Sandy West, também em Edgeplay, diz que Jackie estava pressionada com a possibilidade de tocar no Tokio Music Festival e que não aguentou a pressão de estar numa banda no auge do sucesso. Mas pelo depoimento de Jackie, é possível perceber que a coisa era mais grave. Cherie conta (numa versão endossada por Jackie) que a colega estava arrasada com o problema do baixo e que se isolou. Cherie ficou preocupada e tentou ligar para o quarto de Jackie no hotel, mas não conseguiu falar com ela. Resolveu então ir lá pessoalmente, apenas para encontrar Kent Smythe bloqueando a porta. Cherie diz que teve que agredi-lo a fim de conseguir ir ver Jackie que estava completamente transtornada, chorando histérica, com uma garrafa de vidro quebrado os braços completamente ensaguentados.

A tentativa de suicídio fica implícita. Não fica claro o que aconteceu entre Jackie e Smythe. Jackie diz que foi o máximo que conseguia aguentar e deixou a banda no dia seguinte. Ela ainda acusa os produtores de descaso, pois teve que pegar um ônibus até o aeroporto, já que ninguém se prontificou a levá-la. Jackie termina se depoimento dizendo que foi a coisa mais corajosa que já fez em toda sua vida e que não se arrepende.

Jackie Fox, no entanto, teria seu nome para sempre marcado na história do rock ´n´roll como a baixista da formação clássica de The Runaways.

The Runaways sem Jackie Fox

A banda foi informada da saída de Jackie, uma vez que a própria já tinha ido, e teve que lidar com o fato de que seu maior show, o que aconteceria no Tokyo Music Festival, teria que ser feito sem Jackie.

Joan assumiu o baixo e é impressioante a falta que a guitarra base de Joan faz na música. Dêem uma conferida no vídeo da banda tocando sem Jackie:

Impossível não dizer que os ânimos não foram afetados.

Apesar de seu fim dramático, a turnê no Japão mostra The Runaways no seu auge e vários vídeos dessa época podem ser encontrados no Youtube. Vou postar os vídeos que posseum qualidade melhor:

Bibliografia adicional desse post

Datas das Turnês de The Runaways no Internet Archive

Essa foto foi uma das oficiais na turnê do Japão

Uma das grandes alegrias da vida é descobrir que ainda existem pessoas com talento verdadeiro nesse mundo, onde, infelizmente somos bombardeados com produtos que vivem às custas de efeitos de estúdio e visuais de videoclip. Tem gente que até diz que não existem mais bandas de verdade depois dos anos 2000 e apesar de eu não querer ser tão drásticas, tem horas que fico muito perto de acreditar nisso. Então, imaginem qual não foi minha alegria ao ouvir Both Before I´m Gone, da banda tejana Girl In A Coma!

E eu queria agradecer demais à leitura fiel Manoela, que foi quem me indicou essa banda. Manu, você não sabe a coisa boa que você me fez!

Recapitulada rápida da banda: Girl In a Coma é uma banda de San Antonio, Texas, formada pelas irmãs Nina Diaz (vocal/guitarra) e Phanie Diaz – conhecida mais por Phanie D – (bateria) mais uma amiga de longa data, Jen Alva (baixo). O nome da banda é uma referência direta à música dos Smiths, Girlfriend in a Coma. Depois de algumas músicas demo, a banda foi chamada para participar de um documentário de bandas chamado Jammin´ e em Nova York conheceram Joan Jett, que curtiu o som da banda e assinou com Girl In A Coma por sua gravadora, a Blackheart Records. Pela Blackhearts, a banda já lançou quatro albuns e Both Before I`m Gone é o primeiro.

Eu diria que o som da banda é uma cruza de The Cranberries com The Smiths cantando músicas da Bjork numa pegada punk com riffs de indie rock (????). É o tipo de banda que agrada quem gosta de guitarras distorcidas, riffs malucos, vocais sofridos e desesperados. Girl In A Coma tem músicas mais barulhentas e músicas mais tranquilas, mas todas elas são marcadas por um rítmo meio alucinado de sonho. Bons exemplos são as músicas abaixo:

Eu gosto do barulho então Clumsy Sky é minha favorita. 🙂

Título: Both Before I´m Gone

Banda: Girl in a Coma

Ano: 2007

Gravadora: Blackheart Records

Estilo: Punk, Garagem, Alternativo

1. ” Clumsy Sky”
2. ” Say”
3. ” Road to Home”
4. ” Sybil Vane Was Ill ”
5. ” I’ll Ask Him ”
6. ” Their Cell”
7. ” In the Background”
8. ” Mr. Chivalry”
9. ” Race Car Driver”
10. ” Consider”
11. ” Celibate Now”
12. ” The Photographer”
13. ” Simple Man”

O álbum já começa com a melhor música da banda pra mim, que é Clumsy Sky. Com uma pegada forte e um vocal impecável e muito criativo, a faixa mostra o melhor do punk rock com um quê melódico. Não é a toa que ganhou o prêmio de melhor punk rock do ano. Say é outra que se mostra bem forte com uma letra que, como diz o primeiro verso, “everyone will quote me in this line”.  Road to Home vem quebrar a atmosfera punk do CD com clima mais tranquilo e onírico (que o clip ilustra bem) enquanto Sybill Vane Was Ill lembra aqueles riffs malucos e repetitivos do Strokes.

O album segue com  uma volta a algo mais agressivo em I´ll Ask Him, a tranquila e já clássica Their Cell e a indefinida In the Background (ainda não consigui definir se a música é animada, calma, triste ou feliz). Mr. Chivalry é uma faixa frequentemente esquecida mas que merece muita atenção: ótima letra, ótima interpretação dos vocais de Nina e uma base instrumental forte que lembra aquelas bandas deprê esquecidas da década de 80. Race Car Driver é uma faixa facilmente apagável e o riff é extremamente irritante ao longo de seus 3:47 (e olha que eu sou a pessoa que gosta do terceiro album do Strokes, o campeão dos riffs irritantes!). Consider é uma música que parece começar pela metade e talvez é aí que fique sua beleza, que é bem sofrida por sinal (e tem algumas coisas meio metal. Sério) enquanto que Celibate Now é uma das melhores músicas da seleção pra mim: é lírica e tem arranjos de guitarra muito bonitos.

O album chega a seu fim com a hipnótica The Photographer – que dá a impressão que estamos dentro de um carro em alta velocidade olhando através da janela – e fecha com a acústica Simple Man, em que Nina Diaz mostra tanto seu talento vocal quanto seu talento de guitarrista num violão.

Before I´m Gone é um poderoso album de estréia muito lírico e recheado de influências criativas. Para quem gosta do estilo, não deixem de conferir!


Outro dia estava lendo um post do blog A Melhor das Intenções quando me deparei com o seguinte comentário que me deixou bem, digamos, surpresa. Segue o comecinho do post:

Na sua opinião, o que é machismo?

Reparem que estou perguntando a respeito de sua opinião e não a definição que a sociedade adota para a palavra. Não me considero uma feminista.

Só concordo com elas até o ponto em que determinam que a mulher é dona do próprio corpo e pode fazer dele o que bem entender, inclusive se abster de sexo. Porém discordo da posição exageradamente rígida quanto à mulher como objeto de desejo sexual. Por que em termos de sexo, acredito que grande parte do nosso prazer está em saber o quanto somos desejadas.

WTF????????? Como assim???? Não é feminista? Objeto de desejo sexual?

Dando uma contextualizada a respeito do blog e de sua proposta antes de eu realmente chegar no ponto que eu quero chegar: o blog A Melhor das Intenções foi criado por três twitteiras e tem por objetivo comentar suas diversas experiências amorosas (principalmente as que deram errado) com bom humor e tranquilidade. As três autoras (e também os colunistas “convidados”) falam abertamente sobre sexo e as meninas assumem sem problema nenhum sua liberdade sexual, os parceiros que tiveram, as experiências sexuais vividas. Confesso que não sou uma leitora assídua do blog, então não posso falar de todos os posts, mas de vez em quando dou uma lida e posso dizer que a posição desse post me pegou totalmente desprevenida. E por dois motivos.

Motivo #1: O medo da palavra com “f”

Verdade seja dita: falar feminismo muitas vezes é pior do que falar palavrão. Tem mulher que foge da palavra que nem diabo foge da cruz. Liberal sim. Feminista? Eu? Que isso, tá doido? Eu não tenho nada a ver com isso! Pelamordedeus!!! Inclusive na Marcha das Vadias (não sabe o que é, veja essa carta manifesto aqui rs) muitas das manifestantes que estavam ali para dizer não-é-porque-estou-com-roupa-curta-que-sou-vadia-e-sou-culpada-de-ser-estuprada foram bem rápidas em dizer que não eram feministas e que aquela causa não era feminista.

A sociedade conservadora conseguiu muito bem criar o esteriótipo da feminista machona, mal-amada e sem senso de humor que não é interessante e muito menos sexy. Pior que ser feminista, só ser uma feminista gorda e pobre. Mas a verdade é que feminismo não tem nada a ver com isso e sim com igualdade entre os sexos. E antes que você venha me dizer que os diferentes gêneros têm direitos iguais e que essa balela de feminismo não faz sentido, eu recomendo que você leia esse post que eu fiz sobre alguns dos mitos do feminismo.

Ser feminista não é ruim, na verdade, é querer igualdade, mas é impressionante como a blogueira do A Melhor das Intenções foi rápida em dizer que não era. Como se fosse uma praga.

Tem um artigo muito legal que pode ser lido aqui que expressa porquê algumas mulheres mostram essa insegurança em se assumirem publicamente como feministas.

Motivo #2: ser um objeto de desejo sexual não é nada sexy

Vamos começar do começo. Existe a posição de sujeito e existe a posição de objeto. Se você está com/conhece um cara que te acha super sexy, e vocês fazem sexo, e curtem, e é tudo de bom e você participou e curtiu demais da conta, você está na posição de sujeito. Se você está com um cara que não leva em consideração sua opinião, que está simplesmente interessado no seu corpo e em nada das suas vontades e preferências sexuais e que só leva em conta a vontade dele, você é um objeto.

Tratar uma mulher como um objeto sexual significa que ela é simplesmente um corpo que existe para ser utilizada por um homem e pela vontade dele. Significa que na verdade não faz diferença se aquilo ali é  fulana, ou ciclana, ou uma boneca de plástico. Quando a mulher é um objeto, ela é um objeto e como tal não tem vontade, desejo, opinião, inteligência, lugar na sociedade. Então ser um objeto sexual não é nada sexy. Não tem nada a ver com se sentir desejada. Tem a ver com ser usada e desrespeitada.

A autora do post ainda continua:

Então, quando vejo coisas como Lingerie Day, ou ensaios sensuais bombando na internet, não acho errado, muito menos acho que as gurias em questão são vadias, porque sei como todos aqueles comentários e homens babando fazem bem pro ego.

Nenhuma feminista que eu conheço julgaria alguém que faz Lingerie Day ou ensaio sensual na internet de vadia. Porque isso seria ir contra um dos princípios do próprio feminismo que é o de que as mulheres não devem ser julgadas por sua aparência e que chamar uma mulher de vadia somente por causa da roupa que usa ou do comportamento sexual que exibe é machismo. O que as feministas dizem é que essas mulheres de ensaios sensuais foram objetificadas para atender um fetiche masculino. E foram, não foram? Quer dizer, quem é que criou essa coisa de coelhinha e talz? Quem é que criou a indústria pornográfica e afins? Quais são os maiores beneficiados disso tudo? Bem, não são as mulheres.

A cultura da objetificação e erotização de tudo é danosa à nossa sociedade, e não só às mulheres. Queremos uma expressão da sexualidade livre e não uma lavagem cerebral de que sexo é uma forma de expressar o seu poder sobre o outro, de subjufação. Sexo tem que ser saudável e para ambas as partes! E sim, a mídia é altamente sexista e há várias propaganda que colocam a mulher como objeto como essa aqui, que pode ser muita coisa mas não é sexy.

Quanto ao quesito comentários e homens babando fazem bem pro ego, eu não sei, mas eu acho ofensivo uma vez que todo esse alvoroço vem de tratar a mulher daquela foto como um objeto e nada mais. A mulher ali não é uma pessoa a ser admirada e desejada e sim um recipiente, sim um recipiente. É tosco mas é verdade.

Óbvio que todo mundo quer ser sexy. Todo mundo quer ter uma vida sexual feliz. Homens e mulheres. Mas essa vida sexual feliz depende de respeito e igualdade. Claro que queremos nos sentir bonit@s e desejad@s, mas que isso seja feito numa posição de sujeito e não de objeto. Que a mulher possa escolher, dizer sim e dizer não.

E que o homem também. Porque o texto dessa blogueira faz um questionamento pertinentente que é o de que homens podem ser vítimas de machismo. O machismo é uma grande chaga da sociedade e prejudica todo mundo, homens inclusos. Afinal, todas essas máximas de “homem não chora”, “homem sempre quer sexo”, “homem tem que pegar” criam problemas para muitos homens sim. Realmente, nisso concordo com a autora, ter a sexualidade questionada só porque não quis fazer sexo com alguém é ridículo.

Só gostaria de esclarecer que meu objetivo com esse post não é o de detonar a blogueira, nem de jogar pedra em ninguém. Acho o trabalho das meninas do A Melhor das Intenções, que falam sobre sexo de uma forma desencanada e extrovertida, válido, pois tenta quebrar alguns preconceitos da sexualidade feminina. Só usei o texto dela (que está na internet e eu citei a fonte para não ter problemas e avisei a autora sobre esse meu texto) para mostrar como a mídia conseguiu deturpar alguns conceitos importantes como feminismo e objetificação sexual a ponto de que pessoas bem informadas e críticas acabem por utilizar/acreditar em idéias erradas e deturpadas.

"Você já ouviu falar de objectofilia? É quando você se sente atraído por objetos." "Ah, eu tenho isso." "Mesmo?" "Sim, eu me sinto atraído por mulheres"

Objetificação não é sexy. É falta de respeito.

Para quem se interessa sobre esse debate, tem um link muito bom aqui.

O mundo do rock está em apocalipse. É sério. Os anjos irão descer dos céus com suas espadas flamejantes. Um meteoro está vindo de encontro com a terra. O aquecimento global vai aumentar. Como você preferir.

Depois de Joan Jett cantando com Miley Cyrus no programa da Oprah e Brian May considerando Lady Gaga para ser a vocalista do Queen em sua nova turnê eu pensei que dificilmente veria algo que me arrepiaria os cabelos. Quer dizer, sempre tem alguma coisa pra me deixar assustada, mas juro que não pensei que veria uma coisa tão tosca quanto isso aqui.

Fergie e Heart. Okay. Na hora que vi o título vagando no Youtube não pensei que seria tão horrível. Mas foi. Por que?

Fergie é a vocalista feminina do Black Eyed Peas uma banda de… rap? pop? Enfim. Ela tem 36 anos, mas parece e age como se tivesse 20. Em meio a um bando de músicas super pop e chapadas que canta, de vez em quando ela mostra um pouco de seu talento vocal. Como em Big Girls Don´t Cry, por exemplo.

Não acho que Fergie cante mal, só acho que ela representa várias coisas que eu não concordo. Ela se coloca na posição de mulher-objeto e a própria confessa isso e inclusive já fez músicas sobre o assunto. De uns tempos pra cá (pelo que chequei no Youtube, desde 2008) ela tem apresentado esse cover de “Barracuda”, do Heart, em seus shows, sempre vestindo peças de couro preto e se esfregando no palco. O que sinceramente, não tem nada a ver com a música.

Já o Heart é famoso pelas irmãs Ann (vocal) e Nancy Wilson (guitarra/violão/vocal) que na década de 70 mesclavam folk, metal e hard rock e tiveram em “Barracuda”  um de seus grandes hit.

A banda teve inúmeros integrantes, mas Ann e Nancy permaneceram como uma constante, sempre tocando juntas, apesar da ocasional carreira solo de Ann.

 O Heart está aí na ativa entre indas e vindas desde 1975 e tem no currículo nada menos que 20 hits no top-40 da parada da Billboard!!!! E em 2010 conseguiu voltar para o top-10 com o album Red Velvet Car no topo das paradas!

Primeiro vou dizer que não tenho nada contra covers e acho que cantores pop podem sim fazer bons covers de rock. Meu problema com o cover da Fergie de “Barracuda” é a atitude imbecil dela nesse vídeo. Sim, imbecil. Ela entra no palco no segundo verso se sentindo a rainha do pedaço e sequer chega perto de Ann e Nancy Wilson que ficaram praticamente escondidas no cantinho do palco. Achei uma falta de respeito. Se você está fazendo o cover COM o artista original, o mínimo que você tem que fazer é chegar lá perto e talz e/ou criar uma atmosfera amigável.

Fergie se sente a gostosa o vídeo inteiro: rola no chão, faz careta, se esfrega, mostra seu corpinho maravilhoso pra todo mundo ver com direito até mesmo aos saltos mortais patéticos no final. Tudo para mostrar que ela está em boa forma e a mensagem que ficou foi a de “eu sou uma diva e essas mulheres são velhas e gordas”.

Somente no final da música é que Fergie chega perto das irmãs Wilson num pseudo abraço. E é quando elas cantam juntas que é percepítival a total ausência de personalidade do vocal da Fergie: ela tá cantando igualzinho a Ann Wilson! Com a mesma intonação, só que sem a interpretação revoltada que dá lugar à interpretação to-me-sentindo-toda-toda-e-gostosona.

Ué, mas cantar igual não é o ápice do cover? Bem, é sim, se você é uma banda cover oficial. Mas Fergie não é de nenhuma banda cover, ela é uma cantora profissional e devia sim imprimir sua marca vocal, não ficar treinando junto com o cd a fim de aprender a cantar como se fosse outra pessoa.

Isso fora o erro crasso de interpretar “Barracuda” como uma música sobre ser sexy e gostosa. “Barracuda” é o tipo de música fuck YOU e não fuck ME como sabiamente (que raridade!) disse um comentarista do vídeo noYoutube. É parte da atitude década de 70. Ai ai ai, Fergie. Que feio. Uma coisa é ter sex appeal, outra é virar um objeto sexual pura e simplesmente.

Nessa vídeo Fergie mostrou que tem potência vocal pra aguentar cantar e fazer acrobacias ao mesmo tempo, mas mostrou uma atitude péssima de coleguismo. Porque seu estrelismo de chegar no palco e cantar sozinha deixou Ann Wilson paradona, sem o que fazer. Poxa, tinha que fazer toda aquela exibição? Não bastava homenagear uma música que você gosta junto com uma banda que te inspirou? O objetivo de cantar JUNTO com alguém não é justamente cantar JUNTO?

E não, não estou sendo invejosa. Nem vou responder que vier com esse argumento. Também não sou uma fã fanática do Heart nem estou questionando o talento da Fergie, só estou criticando a atitude pouco amigável dela. Sinceramente? Agora até prefiro a Miley Cyrus… rs

“Barracuda” em sua versão original:

Hoje é aniversário de uma das figuras femininas mais importantes da história do rock: a filadelfiana de nascimento, californiana de música e novaiorquina de sotaque Joan Jett!

Joan Marie Larkin nasceu em um 22 de setembro exatos 53 anos atrás. O nome Joan Jett veio em 1975, pouco antes de ela entrar para a primeira banda de rock formada somente por mulheres, The Runaways. Aos treze anos, pediu uma guitarra de Natal para os pais e ganhou uma! Depois de ter tido uma experiência ruim com um professor que se recusava a ensiná-la a tocar rock (a cena está no filme The Runaways, em que Kristen Stwart interpreta Joan, e é uma das poucas cenas verídicas do filme), comprou um livro de “como aprender a tocar guitarra sozinho” e aprendeu na marra. A primeira música composta por Joan foi “You Drive Me Wild”, gravada pelas Runaways em 1976.

Joan tem um lugar garantido nos 100 maiores guitarristas da história na revista Rolling Stone, ocupando o lugar 87 e sendo parte do seleto número de duas mulheres na lista (a outra é Joni Mitchell). O hit “I Love Rock ´N´ Roll” é considerado pela Billboard a 89ª melhor canção pra se tocar na guitarra de todos os tempos.

Pessoalmente, admiro a Joan por seu discurso coerente no que diz respeito às mulheres no rock e em seu posicionamento firme sobre o assunto. Ela reconhece que rock por mulheres é e será por algum tempo algo considerado ofensivo e visto com muito receio por parte da comunidade masculina. Isso porque, de acordo com Joan, rock and roll tem algo de muito sexual e isso confere um poder que os homens não querem abrir mão. Tanto em sua carreira com as Runaways, quanto em sua carreira com os Blackhearts, Joan sofreu muito preconceito por ser rocker e por ser mulher. Nessa entrevista, ela conta algumas das situações difíceis que enfrentou e como lidou e superou essses problemas.

No entanto, o que me faz gostar da Joan apesar de todas as suas controvérsias (vulgo Kenny Laguna, mas isso é assunto pra outro post) é o fato de que ela nunca usou sua sexualidade e sensualidade para ganhar dinheiro. Obviamente que Joan Jett é uma das mulheres mais bonitas e sensuais que já existiram, mas ela nunca pousou nua e nunca se colocou na posição de objeto. Pelo contrário, Joan expressa sua sexualidade e sensualidade o tempo todo, mas sempre na posição de sujeito, sempre como uma escolha, nunca como imposição. Diferentemente de Lita Ford que virou uma espécie de deusa do sexo pros marmanjos do heavy metal, Joan virou ícone para as mulheres que desejam expressar sua sexualidade sem medo de ser feliz, sem medo de ser taxada de vadia e sem ter como objetivo virar poster de oficina mecânica.

E falando em sexualidade, Joan Jett é uma das celebridades mais discretas quando o assunto é sua vida sexual. Apesar de já ter sido vista com homens e mulheres, Joan não fala nada a respeito de sua orientação sexual. Ela diz que quer que as pessoas foquem em sua música, em seu trabalho e em suas idéias e não no que ela faz entre quatro paredes. Eu respeito muito essa posição e acho que é por aí que a banda toca mesmo. Rumores existem e existirão sempre, mas o que importa é o legado musical e as idéias defendidas e não a fofoca.

E falando em idéias, Joan é militante do PETA e ao contrário do que muita gente pensa, é vegetariana convicta, não bebe, não fuma e não usa drogas desde o final dos anos 70. Cool Joan! Ela ainda é fã de esportes, inclusive, pratica muitos deles, e já fez campanha pela liga feminina de basquete estado-unidense. Nos anos 80, ela foi de ônibus fazer turnê na antiga Alemanha Oriental e diz que foi uma das experiências mais incríveis de sua vida.

Ela continua ainda na ativa fazendo turnês pelos Estados Unidos com sua banda Joan Jett & the Blackhearts.

Alguns meses atrás li Neon Angel – A Memoir of a Runaway (sem tradução no Brasil) e confesso que demorei algum tempo para decidir qual era minha opinião a respeito do livro. Essa “lerdeza” vem por conta do conteúdo ao mesmo tempo inacreditável mas realista, dramático mas seco, aumentado mas eufemizado, cru mas cheio de detalhes.

O livro é a biografia de Cherie Currie, da famosa e notória banda dos anos 70 The Runaways (se você está lendo esse blog e não viu nada de The Runaways ainda clique na barra aí ao lado que tem links aos montes). Escrita efetivamente por Tony O´Neil (porque não, Cherie não é escritora apesar de ser uma habilidosa escultora em madeira utilizando uma motosserra – não estou brincando) a partir dos relatos da própria Cherie, o livro conta a conturbada (é, é a palavra que mais se aproxima) da eterna Cherry Bomb.

Cherie e Marie na adolescência... Impossível dizer quem é quem

A bio começa com Cherie aos 13 anos e sua relação de admiração/inveja com sua irmã gêmea, Marie. Clássicos da vida adolescente: se acha feia, tem amigos estranhos, uma fascinação obcessiva por um ídolo (no caso David Bowie) e uma família complicada com pais divorciados. Além disso, Cherie gostava de “causar” na escola usando cabelos pintados e mostrando pra todo mundo quem era a mais freak do pedaço. Até aí tudo bem. Só que a coisa começa ficar mais pesada.

Aos 14 anos Cherie é estuprada pelo namorado de sua irmã gêmea. Com vergonha e medo de ser julgada, ela não faz nenhuma denúncia e não conta para ninguém o que aconteceu, com exceção de Marie que a aconselha a ficar mesmo de boca fechada. Visivelmente traumatizada ela mergulha na música, no visual andrógeno de Bowie e como não poderia deixar de ser, nas drogas.

Pílulas, cigarro, bebida, festinhas, shows. Isso tudo com o background familiar cada vez mais deteriorado com direito a pai alcóolatra, rejeição materna (a mãe dela literalmente a abandona em prantos num aeroporto a fim de se mandar pra Indonésia com o namorado) e cunhado irresponsável. A entrada na banda The Runaways sacudiu ainda mais o mundo de Cherie, agora com o excêntrico Kim Fowley a lhe dizer constantemente que ela era feia, incapaz e que não tinha “autoridade rock´n´roll”.

A relação amor/ódio com Kim Fowley: apesar das humilhações constantes, era ele quem prometia o sucesso a Cherie

Os abusos de Kim Fowley com a banda rendem capítulos e mais capítulos inclusive o infame “A aula de educação sexual de Kim Fowley” que inclusive quase rendeu processo por parte do mesmo e um post enfurecido por parte de Jackie Fox (ex-companheira de banda) dizendo que tal coisa nunca aconteceu. Verdade ou não, o capítulo é chocante uma vez que mostra o então gerente da banda abusando sexualmente de uma garota bêbada na frente de Cherie, Sandy West, um amigo delas e Scott Anderson, o outro gerente da banda.

Cherie acusa Fowley ainda de tê-la semi-prostituído para um famoso músico da época. A cena em que Cherie acorda no dia seguinte e vê a si mesma, o cara e o todo quarto coberto de sangue menstrual é tão vívida que é possível sentir a humilhação da garota de então 16 anos.

Brigas internas da banda, depressão, abuso de drogas pesadas, chantagem familiar e abandono permeiam as páginas do livro. E é difícil lembrar que durante todo esse tempo Cherie ainda era adolescente. O relacionamento com o gerente da banda Scott Anderson (um homem de mais de trinta anos) é debatido abertamente, inclusive sua gravidez aos 16 anos após voltar da turnê européia. Cherie conta como se sentiu um pouco melhor e mais esperançosa ao descobrir que teria um bebê, mas é convencida pelo pai a abortar, uma experiência que ela marca como “a pior que alguém poderia ter na vida”.

Não é uma leitura fácil, no sentido de que a história narrada é muito pesada. Depois de sair da banda, afundada no abuso de drogas, Cherie é sequestrada por um serial killer, torturada e violentada durante horas. Ela consegue escapar somente para se ver ridicularizada por um tribunal que atribui a ela a culpa de tudo que aconteceu e ainda condena o agressor a uma pena ínfima. Aos 21 anos, Cherie chega ao grau terminal por conta de seu vício em cocaína.

A reviravolta das últimas páginas, no entanto, é impressionante. Cherie se interna numa clínica de desintoxicação, se livra do vício de cocaína e tenta recuperar sua carreira. Torna-se conselheira para adolescentes viciados e depois preparadora física. Casa-se com o ator Robert Hayes, tem um filho, divorcia-se e continua a melhor amiga do ex-marido. Um dia, dirigindo numa auto-estrada, vê um cara fazendo uma imensa figura de madeira usando uma serra elétrica. Ela resolve se dedicar a essa arte e hoje é uma das grandes campeãs da categoria.

É uma forma de arte bem esportiva, eu diria

Obviamente que o livro apresenta inúmeras contradições. Cherie às vezes fala da família como a melhor coisa de sua vida, somente para depois dizer que eles a prejudicaram e abandonaram. Clama uma amizade com a mãe sendo que o leitor vê que obviamente as duas têm sérios problemas de relacionamento. Diz que as outras Runaways eram como suas irmãs, somente para contar páginas depois que elas não eram nada próximas. Fatos são fantaziados, dramatizados e é claro a mão do escritor que usa e abusa de metáforas clichés para causar um efeito maior.

Eu não utilizaria esse livro para dar uma conta fiel da história de The Runaways (eu acredito mais na versão de Jackie Fox e de Vicki Blue, mostrada mais explicitamente no documentário Edgeplay), até porque Cherie é famosa por ser uma drama queen. Mas o livro funciona como retrato de uma época e conta, com seus exageros e dramas, a história de uma mulher no mínimo incomum que conseguiu superar diversos preconceitos, em várias esferas.

Interessante:

  • Na década de 80, Cherie lançou uma versão de sua bio entitulada “Neon Angel: The Cherie Currie Story” que tinha uma  versão mais “amenizada” dos fatos (ou seja, excluindo o abuso sexual, a violência, o aborto, a semi-prostituição, o sequestro, …).
  • O prefácio da versão atual é de Joan Jett.
  • O livro conta com várias fotos em papel brilhante mostrando Cherie em vários momentos de sua vida.
  • Foi esse livro que deu origem ao filme The Runaways.

ENQUETE!

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