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E nada melhor do que passar o Carnaval com um pouquinho de bom e velho rock and roll, não? Então vamos pra sequência da história da banda estado-unidense The Runaways. E esse post vai abordar o conturbado período que se seguiu à turnê japonesa de 1977.

Como sempre, esse é um post do projeto Born to Be a Runaways Fan e as informações que uso foram declarações da própria banda. Para conferir a bibliografia, dê uma olhada nos posts anteriores.

No documentário Edgeplay, Jackie Fox diz:

As pessoas às vezes me perguntam: O que você acha da Lita? O que você acha da Joan? E a única resposta que consigo pensar é: Eu não as conheço! Sabe, eu não sou a mesma pessoa que eu era quando tinha 16 anos. E nós éramos todas incrivelmente difíceis do nosso jeito: Cherie nas Runaways era a pessoa mais egocêntrica que eu já conheci na vida. Lita era uma vaca. Sandy… Sandy apenas parecia ser incapaz de um pensamento independente. Ela tinha a melhor das intenções, mas era facilmente convencida por quem quer que seja da banda que fosse amiga dela na semana em questão. E Joan era, provavelmente, naquele momento, a pessoa mais estável, a que era a peça central na banda. E eu era uma terrível sabe-tudo insegura. E colocar-nos todas juntas era uma batalha de problemas de personalidade.

Com a saída de Jackie no final da turnê do Japão, os ânimos não se acalmaram. Pelo contrário, a tensão decorrente das diferenças de personalidade permaneceu entre as membros juntamente com a competitividade e agora as apresentações para a escala de uma nova baixista.

Vicki Blue antes da mudança de visual imposta por Lita...

Algumas garotas tocaram até que Vicki Blue (Victory Trischler-Blue) apareceu. Vicki ficou sabendo por um amigo que Jackie Fox tinha saído da banda no Japão e ligou para Kim Fowley a fim de marcar um teste. Em Edgeplay, ela diz que se lembra de entrar no estúdio de ensaio e abrir a porta para dar de cara com a banda lá dentro. Ela diz que houve um “momento congelado no tempo” para depois pensar imediatamente: “Ah meu Deus, ela realmente parece comigo!”. E ela estava se referindo a Lita Ford.

A banda ensaiou com Vicki algumas músicas e de acordo com a última, o ensaio foi bom. Então as Runaways pediram que Vicki deixasse a sala para deliberar a decisão. Vicki diz que se sentiu ansiosa, pois queria muito entrar para a banda. Quando ela entrou na sala mais uma vez, Cherie estendeu a mão para ela e disse: “Bem-vinda às Runaways!”. Mas Vicki e Lita realmente se pareciam muito o que, obviamente, não deixava Lita nada feliz. Para resolver o “problema”, Lita pintou o cabelo de loiro e convenceu Vicki a fazer um permanente. Mas ainda assim, as duas passariam facilmente por irmãs.

Lita... realmente parecidas, não?

Mas estranhamente, Vicki e Lita se tornaram um tanto próximas. Em Edgeplay, Lita diz que considerava Vick sua responsabilidade. Foi ela quem ensinou a Vicki todas as antigas músicas das Runaways (e lembrando aqui que Lita é uma ótima baixista! rs) e as duas passavam algum tempo juntas. Ainda no documentário, Lita diz que estava cansada da atmosfera tensa da banda naquela época e que Vicki trouxe um certo ar fresco. Passar um tempo com Vicki era mais tranquilo uma vez que ela não estava envolvida em antigos joguinhos de poder ou em ressentimentos passados.

 O limite de Cherie

Com uma nova integrante, a banda precisava investir mais uma vez em sua imagem. Por isso uma sessão de fotos foi marcada a fim de apresentar The Runaways em sua nova formação. O fotógrafo era Barry Levine, o mesmo que à época fazia a maior parte das fotos promocionais da banda bem como a capa dos álbuns. O ensaio, no entanto, não saiu como o esperado. Essa história tem duas versões, então vamos lá:

  • Versão de Lita Ford e Vicki Blue

Uma das fotos em grupo da sessão fotográfica fatídica...

Lita deu carona para Vicki até o estúdio e lá, juntamente com as outras Runaways, ficaram esperando por Cherie, que chegou duas horas atrasada porque dividia o carro com sua irmã. Lita ficou p da vida, mas a sessão de fotos rolou. No entanto, quando a banda começou a fazer a sessão de fotos individuais, Cherie disse que tinha que ir embora mais cedo. Levine, irado, atirou a câmera no chão e começou a gritar. Cherie, assustada, saiu correndo para o vestiário e começou a se trocar. O problema é que Lita já tinha perdido a cabeça com a história toda. Ela foi atrás de Cherie e literalmente arrombou a porta para empurrar Cherie contra a parede e dizer: Ou é a banda ou a sua família! Cherie, em pânico, diz que era sua família e depois emenda com um: “Eu não posso trabalhar com essa mulher!” e vai embora. Antes de sair do estúdio, no entanto, ela segura o braço de Vicki e pergunta: “Vicki, você vem comigo?” e Vicki diz que não. É aí que Cherie sai da banda.

No documentário Edgeplay, Lita diz que já estava de saco cheio de Cherie e de seus problemas familiares. Ela diz que se importava muito com a banda, com a música e que estava disposta a trabalhar duro para o sucesso das Runaways, coisa que ela achava que Cherie não estava fazendo. De acordo com Lita, Cherie estava sempre atrasada e mais preocupada com relacionamentos (referência ao affair entre a loira e Scott Anderson) e drogas do que com o que era melhor para sua carreira.

  • Versão de Cherie Currie

Cherie chega no estúdio e avisa Barry Levine que tinha que ir embora mais cedo pois tinha que entregar o carro para sua irmã gêmea, Marie, que tinha aulas de atuação, às sete horas. Barry diz okay, mas Lita chega duas horas atrasada e a sessão demora mais do que o planejado. Cherie então, no meio da sessão, anuncia que precisa sair. Levine, irado, atira a câmera no chão. Percebendo que a situação ia ficar feia, Cherie sai correndo para o vestiário e tenta sair dali o mais rápido possível. Mas Lita vai atrás dela, derruba a porta e começa a gritar. No meio da briga, Lita diz que existe a banda e a família e que todas as outras escolheram a banda. Cherie diz que escolhia sua família e vai embora.

E mais uma vez Cherie entra em conflito com seus depoimentos. Enquanto que em sua autobiografia, Neon Angel,  ela diz que ficou arrasada com sua saída das Runaways e que teria voltado se as outras garotas tivessem ido atrás dela para conversar, em Edgeplay ela diz que já tinha tido o bastante e que foi um alívio sair e começar sua carreira solo. Como sempre, drama queen. Eu, pessoalmente, acredito na versão de Vicki Blue e Lita Ford. Até porque são duas pessoas contando a mesma história e Vicki é uma figura bastante mais coerente que Cherie.

E é assim que Cherie Currie, a Cherry Bomb, abandona The  Runaways. No entanto sua imagem com o espartilho branco seria para sempre associada à banda.

Seguindo em frente como um quarteto

No dia seguinte da saída de Cherie, as membros remanescentes da banda se reuniram e Joan teve que assumir a responsabilidade de ser o vocal principal. Tanto Lita quanto Vicki dizem que Joan teve um flash de insegurança, se perguntando se seria capaz de fazer aquilo. A banda a apoiou e a ajudou a escolher as músicas que Cherie cantava que ela poderia cantar. Vicki Blue diz em Edgeplay que esse foi o único momento de camaradagem que experenciou durante toda sua estada com as Runaways.

Vicki ao lado de Joan, agora frontman num estilo bastante diferente da anterior

Joan Jett se tornou uma excelente frontman, apesar de ter um estilo completamente diferente de Cherie. A banda pós-Cherie, inclusive, parece outra. A pegada punk se tornou mais forte bem como músicas mais pesadas, uma vez que a banda não tinha mais lidar com os pedidos de músicas melódicas de Cherie. Joan tinha uma postura agressiva no palco, mas bem menos sensual. Nada de corpetes, nada de lingeries. Joan Jett usava calça jeans rasgada e no máximo seu macacão vermelho (que ela abandonou depois de 77).

Uma nova imagem se formava para a banda. Cherie fazia o tipo femme fatale misturado com drama queen, enquanto Joan era mais masculina  e durona e tinha uma atitude rock and roll facilmente confundida com arrogância segundo alguns produtores (dentre eles, Toby Mamis). Cherie usava as mãos, se abaixava e dançava para impor sua presença no palco. Joan, por motivos óbvios, não podia fazer isso. Ao invés disso, ela passou a usar os olhos (aquele olho arregalado que mais tarde seria uma de suas marcas registradas), mascar chiclete e dar umas jogadas de ombro. Os ombros curvados que tanto desagradavam Kim Fowley acabaram se tornando sua postura clássica no palco.

Nos comentários do filme The Runaways, Joan disse que Kim Fowley achava que The Runaways sem Cherie Currie estava fadada ao fracasso. Ela diz que ele nunca falou isso, mas que ela podia sentir e que ficou feliz quando provou a ele que ele estava errado.

Da voz no limite melódica de Cherie Currie para a interpretação seca e agressiva de Joan Jett

O que Fowley temia era que sem o apelo sexy explícito a banda não fizesse mais sucesso. De certa forma isso não aconteceu, mas é verdade que o público mudou junto com o som. Possivelmente alguns fãs não gostaram da nova cara da banda e Waitin´ for the Night não foi um álbum bem recebido na época. Pelo menos não nos Estados Unidos.

Das músicas que Cherie cantava, Joan passou a cantar “Queens of Noise” integralmente, “California Paradise”, “American Nights” e “C´mon”. Em termos técnicos, Cherie Currie era uma melhor vocalista, mas Joan Jett conquistou os fãs com a atitude rock and roll.

Diz aí que o vídeo é de 78, mas pelas roupas, imagino que seja 77. Tinha um vídeo de ótima qualidade dessa música sem Cherie, mas não consigo achar em lugar nenhum do Youtube mais. Alguém tem?

Kim Fowley se afastou um pouco e Toby Mamis passou a gerenciar a banda. Em meio a essa fase de adaptação, é importante dizer que o clima estava extremamente tenso e que as drogas já eram mais que rotina. Vicki Blue, na época, era a única que não usava drogas. Foi nesse cenário que Waitin´ For the Night, o quarto álbum da banda foi gravado em agosto de 77.

Título: Waitin´ for the Night

Lançamento: outubro de 1977

Gravadora: Mercury Records

Produção: Kim Fowley

1.Little Sister (Jett / Inger Asten): Essa primeira música já mostra o que vai se ouvir nesse álbum: guitarras mega altas e distorcidas, vocal agressivo e letras nervosas sobre a noite na cidade, curtição e encontros amorosos. Joan apanhava para cantar esse refrão ao vivo, mas também era uma das melhores interpretações dela nos shows. Uma vez vi um comentário no Youtube dizendo que esse álbum deveria se chamar “Kids in Hate”  por conta do refrão dessa música e eu acho que é verdade.

2. Wasted (Jett / Fowley): Uma música sobre jovens drogados nos clubes da cidade. “Wasted” acaba sendo uma mistura conflitante de uma inspiração punk (Joan) com outra heavy metal (Lita). No final o punk ganhou, mas o solo de Lita nessa música é muito bom.

3. Gotta Get Out Tonight (Jett): Seguindo a linha mais pesada das músicas anteriores, essa apresenta guitarras em excelente forma, tanto da parte de Lita quanto de Joan. E destaque para Vicki, que é uma baixista muito melhor que Jackie.

4. Wait For Me (Jett): Uma balada romântica escrita por Joan, mas que não deixa de lado as guitarras. Um riff bem bolado, não cansa. A voz de Joan mescla uma interpretação mais suave com seu tom usual agressivo.

5. Fantasies (Ford): Primeira música composta 100% por Lita Ford que aparece num álbum, essa faixa não poderia deixar de ser o alívio mais metal num álbum quase todo punk. A música, lenta e melódica, apela para arranjos de guitarra e um solo excelente. Apesar de bem composta e bem executada, algumas vezes ela me cansa. Uma faixa longa se formos analisar outras músicas da banda.

6. School Days (Jett / Fowley): Joan canta sobre experiências na escola e a vida depois dela. Provavelmente a música mais tocada da época. Lita faz uns enfeites muito legais nessa música, mas sempre senti falta de um solo.

7. Trash Can Murders (Ford): Lita faz uma letra sinistrona sobre assasinatos à noite (bem estilo metal mesmo) somada a uma pegada de guitarra muito bem feita. Joan interpreta a música no que é seu melhor vocal no disco inteiro e eu arriscaria dizer nos álbuns de estúdio das Runaways. Ah, e o solo de Lita é excelente e a guitarra base de Joan também. Ah, e Vicki e Sandy também foram muito bem. Enfim, essa faixa é ótima! Apesar da letra sinistrona.

8. Don´t Go Away (Jett): Outra música mais romântica de Joan. Gosto bastante dos vocais agudos de Joan aqui, mostra um pouco da sua versatilidade vocal.

9. Waitin´ for the Night (Jett / Fowley / Krome): A faixa-título é uma balada com um refrão pesado e uma letra mais poética bem Kari Krome.

10. You´re Too Possessive (Jett): Para o final temos uma música bastante intensa com vocais mega agudos de Joan Jett sobre um caso de affair possessivo. Inclusive,  os backs mega agudos eram um sofrimento nos shows ao vivo. Mas destaque para Lita.

A contracapa da Waitin´ For the Night

 Dessa época estão alguns vídeos de apresentações da banda na TV, vale a pena conferir:

Ah, e esqueçam a legenda do vídeo acima pois até toda errada. Até diz que Lita é Cherie… Imagina se a Lita vê uma coisa dessas…

 Uma perda

Um fato não muito comentado a respeito da formação de The Runaways como um quarteto é que a banda perdeu seu backing vocal de qualidade. Até a saída de Cherie, os backs ao vivo eram incríveis. Na formação clássica, Joan e Jackie faziam o back para Cherie. Um dos talentos não muito mencionados de Joan Jett é que ela é uma excelente backing vocal, conseguindo dar força ao vocal principal e ao mesmo tempo imprimindo sua marca. Cherie também fazia backs ótimos e o mesmo se diz de Jackie Fox, que tinha uma voz muito bonita por sinal.

Com a saída de Jackie e mais tarde de Cherie somado ao fato de que Joan agora era o vocal principal a responsabilidade maior dos backs caiu sobre Lita. E Lita Ford tem um back medíocre na minha opinião, de péssima qualidade. Desafinado e sem coordenação. Vicki Blue era uma back melhor, mas estranhamente, ela não era fã do microfone e nos vídeos que podemos ver da banda, é raro vê-la com um pedestal na frente. Quanto a Sandy West, ela normalmente faz coro e não back. No álbum de estúdio, Joan gravou todas as segundas vozes e backs (apesar de eu desconfiar que tem Sandy no coro às vezes).

 The Runaways como um quarteto se tornou uma banda mais underground, uma vez que apelo sexual que Kim Fowley tanto queria, perdeu sua força. Joan Jett disse, se não me engano nos comentários do filme The Runaways, que elas eram infelizes na época e que uma prova disso é que não há fotos delas sorrindo na época. Lita Ford diz no documentário Edgeplay que tudo que aprendeu no cenário musical com The Runaways veio do jeito mais difícil possível. Sandy West, por outro lado, diz que estar na banda foi a melhor época de sua vida.

Com o álbum mais Joan Jett de todos gravados pelas Runaways, não só pelo número de composições mas também pelo apelo punk, a banda fez alguns shows nos Estados Unidos e depois se lançou na segunda turnê pela Europa tocando em países como Reuno Unido, França, Bélgica e Holanda.

De volta aos EUA em dezembro de 1977 se prepararam para a turnê nacional ao lado de bandas como os Ramones.

Aguardem o próximo post que traz o ano de 1978!

Bibliografia

  • The Runaways Collector: um canal no Youtube com várias gravações raras de TV da banda. Vale MUITO a pena ver.

Outro dia estava lendo um post do blog A Melhor das Intenções quando me deparei com o seguinte comentário que me deixou bem, digamos, surpresa. Segue o comecinho do post:

Na sua opinião, o que é machismo?

Reparem que estou perguntando a respeito de sua opinião e não a definição que a sociedade adota para a palavra. Não me considero uma feminista.

Só concordo com elas até o ponto em que determinam que a mulher é dona do próprio corpo e pode fazer dele o que bem entender, inclusive se abster de sexo. Porém discordo da posição exageradamente rígida quanto à mulher como objeto de desejo sexual. Por que em termos de sexo, acredito que grande parte do nosso prazer está em saber o quanto somos desejadas.

WTF????????? Como assim???? Não é feminista? Objeto de desejo sexual?

Dando uma contextualizada a respeito do blog e de sua proposta antes de eu realmente chegar no ponto que eu quero chegar: o blog A Melhor das Intenções foi criado por três twitteiras e tem por objetivo comentar suas diversas experiências amorosas (principalmente as que deram errado) com bom humor e tranquilidade. As três autoras (e também os colunistas “convidados”) falam abertamente sobre sexo e as meninas assumem sem problema nenhum sua liberdade sexual, os parceiros que tiveram, as experiências sexuais vividas. Confesso que não sou uma leitora assídua do blog, então não posso falar de todos os posts, mas de vez em quando dou uma lida e posso dizer que a posição desse post me pegou totalmente desprevenida. E por dois motivos.

Motivo #1: O medo da palavra com “f”

Verdade seja dita: falar feminismo muitas vezes é pior do que falar palavrão. Tem mulher que foge da palavra que nem diabo foge da cruz. Liberal sim. Feminista? Eu? Que isso, tá doido? Eu não tenho nada a ver com isso! Pelamordedeus!!! Inclusive na Marcha das Vadias (não sabe o que é, veja essa carta manifesto aqui rs) muitas das manifestantes que estavam ali para dizer não-é-porque-estou-com-roupa-curta-que-sou-vadia-e-sou-culpada-de-ser-estuprada foram bem rápidas em dizer que não eram feministas e que aquela causa não era feminista.

A sociedade conservadora conseguiu muito bem criar o esteriótipo da feminista machona, mal-amada e sem senso de humor que não é interessante e muito menos sexy. Pior que ser feminista, só ser uma feminista gorda e pobre. Mas a verdade é que feminismo não tem nada a ver com isso e sim com igualdade entre os sexos. E antes que você venha me dizer que os diferentes gêneros têm direitos iguais e que essa balela de feminismo não faz sentido, eu recomendo que você leia esse post que eu fiz sobre alguns dos mitos do feminismo.

Ser feminista não é ruim, na verdade, é querer igualdade, mas é impressionante como a blogueira do A Melhor das Intenções foi rápida em dizer que não era. Como se fosse uma praga.

Tem um artigo muito legal que pode ser lido aqui que expressa porquê algumas mulheres mostram essa insegurança em se assumirem publicamente como feministas.

Motivo #2: ser um objeto de desejo sexual não é nada sexy

Vamos começar do começo. Existe a posição de sujeito e existe a posição de objeto. Se você está com/conhece um cara que te acha super sexy, e vocês fazem sexo, e curtem, e é tudo de bom e você participou e curtiu demais da conta, você está na posição de sujeito. Se você está com um cara que não leva em consideração sua opinião, que está simplesmente interessado no seu corpo e em nada das suas vontades e preferências sexuais e que só leva em conta a vontade dele, você é um objeto.

Tratar uma mulher como um objeto sexual significa que ela é simplesmente um corpo que existe para ser utilizada por um homem e pela vontade dele. Significa que na verdade não faz diferença se aquilo ali é  fulana, ou ciclana, ou uma boneca de plástico. Quando a mulher é um objeto, ela é um objeto e como tal não tem vontade, desejo, opinião, inteligência, lugar na sociedade. Então ser um objeto sexual não é nada sexy. Não tem nada a ver com se sentir desejada. Tem a ver com ser usada e desrespeitada.

A autora do post ainda continua:

Então, quando vejo coisas como Lingerie Day, ou ensaios sensuais bombando na internet, não acho errado, muito menos acho que as gurias em questão são vadias, porque sei como todos aqueles comentários e homens babando fazem bem pro ego.

Nenhuma feminista que eu conheço julgaria alguém que faz Lingerie Day ou ensaio sensual na internet de vadia. Porque isso seria ir contra um dos princípios do próprio feminismo que é o de que as mulheres não devem ser julgadas por sua aparência e que chamar uma mulher de vadia somente por causa da roupa que usa ou do comportamento sexual que exibe é machismo. O que as feministas dizem é que essas mulheres de ensaios sensuais foram objetificadas para atender um fetiche masculino. E foram, não foram? Quer dizer, quem é que criou essa coisa de coelhinha e talz? Quem é que criou a indústria pornográfica e afins? Quais são os maiores beneficiados disso tudo? Bem, não são as mulheres.

A cultura da objetificação e erotização de tudo é danosa à nossa sociedade, e não só às mulheres. Queremos uma expressão da sexualidade livre e não uma lavagem cerebral de que sexo é uma forma de expressar o seu poder sobre o outro, de subjufação. Sexo tem que ser saudável e para ambas as partes! E sim, a mídia é altamente sexista e há várias propaganda que colocam a mulher como objeto como essa aqui, que pode ser muita coisa mas não é sexy.

Quanto ao quesito comentários e homens babando fazem bem pro ego, eu não sei, mas eu acho ofensivo uma vez que todo esse alvoroço vem de tratar a mulher daquela foto como um objeto e nada mais. A mulher ali não é uma pessoa a ser admirada e desejada e sim um recipiente, sim um recipiente. É tosco mas é verdade.

Óbvio que todo mundo quer ser sexy. Todo mundo quer ter uma vida sexual feliz. Homens e mulheres. Mas essa vida sexual feliz depende de respeito e igualdade. Claro que queremos nos sentir bonit@s e desejad@s, mas que isso seja feito numa posição de sujeito e não de objeto. Que a mulher possa escolher, dizer sim e dizer não.

E que o homem também. Porque o texto dessa blogueira faz um questionamento pertinentente que é o de que homens podem ser vítimas de machismo. O machismo é uma grande chaga da sociedade e prejudica todo mundo, homens inclusos. Afinal, todas essas máximas de “homem não chora”, “homem sempre quer sexo”, “homem tem que pegar” criam problemas para muitos homens sim. Realmente, nisso concordo com a autora, ter a sexualidade questionada só porque não quis fazer sexo com alguém é ridículo.

Só gostaria de esclarecer que meu objetivo com esse post não é o de detonar a blogueira, nem de jogar pedra em ninguém. Acho o trabalho das meninas do A Melhor das Intenções, que falam sobre sexo de uma forma desencanada e extrovertida, válido, pois tenta quebrar alguns preconceitos da sexualidade feminina. Só usei o texto dela (que está na internet e eu citei a fonte para não ter problemas e avisei a autora sobre esse meu texto) para mostrar como a mídia conseguiu deturpar alguns conceitos importantes como feminismo e objetificação sexual a ponto de que pessoas bem informadas e críticas acabem por utilizar/acreditar em idéias erradas e deturpadas.

"Você já ouviu falar de objectofilia? É quando você se sente atraído por objetos." "Ah, eu tenho isso." "Mesmo?" "Sim, eu me sinto atraído por mulheres"

Objetificação não é sexy. É falta de respeito.

Para quem se interessa sobre esse debate, tem um link muito bom aqui.

Hoje é aniversário de uma das figuras femininas mais importantes da história do rock: a filadelfiana de nascimento, californiana de música e novaiorquina de sotaque Joan Jett!

Joan Marie Larkin nasceu em um 22 de setembro exatos 53 anos atrás. O nome Joan Jett veio em 1975, pouco antes de ela entrar para a primeira banda de rock formada somente por mulheres, The Runaways. Aos treze anos, pediu uma guitarra de Natal para os pais e ganhou uma! Depois de ter tido uma experiência ruim com um professor que se recusava a ensiná-la a tocar rock (a cena está no filme The Runaways, em que Kristen Stwart interpreta Joan, e é uma das poucas cenas verídicas do filme), comprou um livro de “como aprender a tocar guitarra sozinho” e aprendeu na marra. A primeira música composta por Joan foi “You Drive Me Wild”, gravada pelas Runaways em 1976.

Joan tem um lugar garantido nos 100 maiores guitarristas da história na revista Rolling Stone, ocupando o lugar 87 e sendo parte do seleto número de duas mulheres na lista (a outra é Joni Mitchell). O hit “I Love Rock ´N´ Roll” é considerado pela Billboard a 89ª melhor canção pra se tocar na guitarra de todos os tempos.

Pessoalmente, admiro a Joan por seu discurso coerente no que diz respeito às mulheres no rock e em seu posicionamento firme sobre o assunto. Ela reconhece que rock por mulheres é e será por algum tempo algo considerado ofensivo e visto com muito receio por parte da comunidade masculina. Isso porque, de acordo com Joan, rock and roll tem algo de muito sexual e isso confere um poder que os homens não querem abrir mão. Tanto em sua carreira com as Runaways, quanto em sua carreira com os Blackhearts, Joan sofreu muito preconceito por ser rocker e por ser mulher. Nessa entrevista, ela conta algumas das situações difíceis que enfrentou e como lidou e superou essses problemas.

No entanto, o que me faz gostar da Joan apesar de todas as suas controvérsias (vulgo Kenny Laguna, mas isso é assunto pra outro post) é o fato de que ela nunca usou sua sexualidade e sensualidade para ganhar dinheiro. Obviamente que Joan Jett é uma das mulheres mais bonitas e sensuais que já existiram, mas ela nunca pousou nua e nunca se colocou na posição de objeto. Pelo contrário, Joan expressa sua sexualidade e sensualidade o tempo todo, mas sempre na posição de sujeito, sempre como uma escolha, nunca como imposição. Diferentemente de Lita Ford que virou uma espécie de deusa do sexo pros marmanjos do heavy metal, Joan virou ícone para as mulheres que desejam expressar sua sexualidade sem medo de ser feliz, sem medo de ser taxada de vadia e sem ter como objetivo virar poster de oficina mecânica.

E falando em sexualidade, Joan Jett é uma das celebridades mais discretas quando o assunto é sua vida sexual. Apesar de já ter sido vista com homens e mulheres, Joan não fala nada a respeito de sua orientação sexual. Ela diz que quer que as pessoas foquem em sua música, em seu trabalho e em suas idéias e não no que ela faz entre quatro paredes. Eu respeito muito essa posição e acho que é por aí que a banda toca mesmo. Rumores existem e existirão sempre, mas o que importa é o legado musical e as idéias defendidas e não a fofoca.

E falando em idéias, Joan é militante do PETA e ao contrário do que muita gente pensa, é vegetariana convicta, não bebe, não fuma e não usa drogas desde o final dos anos 70. Cool Joan! Ela ainda é fã de esportes, inclusive, pratica muitos deles, e já fez campanha pela liga feminina de basquete estado-unidense. Nos anos 80, ela foi de ônibus fazer turnê na antiga Alemanha Oriental e diz que foi uma das experiências mais incríveis de sua vida.

Ela continua ainda na ativa fazendo turnês pelos Estados Unidos com sua banda Joan Jett & the Blackhearts.

Alguns meses atrás li Neon Angel – A Memoir of a Runaway (sem tradução no Brasil) e confesso que demorei algum tempo para decidir qual era minha opinião a respeito do livro. Essa “lerdeza” vem por conta do conteúdo ao mesmo tempo inacreditável mas realista, dramático mas seco, aumentado mas eufemizado, cru mas cheio de detalhes.

O livro é a biografia de Cherie Currie, da famosa e notória banda dos anos 70 The Runaways (se você está lendo esse blog e não viu nada de The Runaways ainda clique na barra aí ao lado que tem links aos montes). Escrita efetivamente por Tony O´Neil (porque não, Cherie não é escritora apesar de ser uma habilidosa escultora em madeira utilizando uma motosserra – não estou brincando) a partir dos relatos da própria Cherie, o livro conta a conturbada (é, é a palavra que mais se aproxima) da eterna Cherry Bomb.

Cherie e Marie na adolescência... Impossível dizer quem é quem

A bio começa com Cherie aos 13 anos e sua relação de admiração/inveja com sua irmã gêmea, Marie. Clássicos da vida adolescente: se acha feia, tem amigos estranhos, uma fascinação obcessiva por um ídolo (no caso David Bowie) e uma família complicada com pais divorciados. Além disso, Cherie gostava de “causar” na escola usando cabelos pintados e mostrando pra todo mundo quem era a mais freak do pedaço. Até aí tudo bem. Só que a coisa começa ficar mais pesada.

Aos 14 anos Cherie é estuprada pelo namorado de sua irmã gêmea. Com vergonha e medo de ser julgada, ela não faz nenhuma denúncia e não conta para ninguém o que aconteceu, com exceção de Marie que a aconselha a ficar mesmo de boca fechada. Visivelmente traumatizada ela mergulha na música, no visual andrógeno de Bowie e como não poderia deixar de ser, nas drogas.

Pílulas, cigarro, bebida, festinhas, shows. Isso tudo com o background familiar cada vez mais deteriorado com direito a pai alcóolatra, rejeição materna (a mãe dela literalmente a abandona em prantos num aeroporto a fim de se mandar pra Indonésia com o namorado) e cunhado irresponsável. A entrada na banda The Runaways sacudiu ainda mais o mundo de Cherie, agora com o excêntrico Kim Fowley a lhe dizer constantemente que ela era feia, incapaz e que não tinha “autoridade rock´n´roll”.

A relação amor/ódio com Kim Fowley: apesar das humilhações constantes, era ele quem prometia o sucesso a Cherie

Os abusos de Kim Fowley com a banda rendem capítulos e mais capítulos inclusive o infame “A aula de educação sexual de Kim Fowley” que inclusive quase rendeu processo por parte do mesmo e um post enfurecido por parte de Jackie Fox (ex-companheira de banda) dizendo que tal coisa nunca aconteceu. Verdade ou não, o capítulo é chocante uma vez que mostra o então gerente da banda abusando sexualmente de uma garota bêbada na frente de Cherie, Sandy West, um amigo delas e Scott Anderson, o outro gerente da banda.

Cherie acusa Fowley ainda de tê-la semi-prostituído para um famoso músico da época. A cena em que Cherie acorda no dia seguinte e vê a si mesma, o cara e o todo quarto coberto de sangue menstrual é tão vívida que é possível sentir a humilhação da garota de então 16 anos.

Brigas internas da banda, depressão, abuso de drogas pesadas, chantagem familiar e abandono permeiam as páginas do livro. E é difícil lembrar que durante todo esse tempo Cherie ainda era adolescente. O relacionamento com o gerente da banda Scott Anderson (um homem de mais de trinta anos) é debatido abertamente, inclusive sua gravidez aos 16 anos após voltar da turnê européia. Cherie conta como se sentiu um pouco melhor e mais esperançosa ao descobrir que teria um bebê, mas é convencida pelo pai a abortar, uma experiência que ela marca como “a pior que alguém poderia ter na vida”.

Não é uma leitura fácil, no sentido de que a história narrada é muito pesada. Depois de sair da banda, afundada no abuso de drogas, Cherie é sequestrada por um serial killer, torturada e violentada durante horas. Ela consegue escapar somente para se ver ridicularizada por um tribunal que atribui a ela a culpa de tudo que aconteceu e ainda condena o agressor a uma pena ínfima. Aos 21 anos, Cherie chega ao grau terminal por conta de seu vício em cocaína.

A reviravolta das últimas páginas, no entanto, é impressionante. Cherie se interna numa clínica de desintoxicação, se livra do vício de cocaína e tenta recuperar sua carreira. Torna-se conselheira para adolescentes viciados e depois preparadora física. Casa-se com o ator Robert Hayes, tem um filho, divorcia-se e continua a melhor amiga do ex-marido. Um dia, dirigindo numa auto-estrada, vê um cara fazendo uma imensa figura de madeira usando uma serra elétrica. Ela resolve se dedicar a essa arte e hoje é uma das grandes campeãs da categoria.

É uma forma de arte bem esportiva, eu diria

Obviamente que o livro apresenta inúmeras contradições. Cherie às vezes fala da família como a melhor coisa de sua vida, somente para depois dizer que eles a prejudicaram e abandonaram. Clama uma amizade com a mãe sendo que o leitor vê que obviamente as duas têm sérios problemas de relacionamento. Diz que as outras Runaways eram como suas irmãs, somente para contar páginas depois que elas não eram nada próximas. Fatos são fantaziados, dramatizados e é claro a mão do escritor que usa e abusa de metáforas clichés para causar um efeito maior.

Eu não utilizaria esse livro para dar uma conta fiel da história de The Runaways (eu acredito mais na versão de Jackie Fox e de Vicki Blue, mostrada mais explicitamente no documentário Edgeplay), até porque Cherie é famosa por ser uma drama queen. Mas o livro funciona como retrato de uma época e conta, com seus exageros e dramas, a história de uma mulher no mínimo incomum que conseguiu superar diversos preconceitos, em várias esferas.

Interessante:

  • Na década de 80, Cherie lançou uma versão de sua bio entitulada “Neon Angel: The Cherie Currie Story” que tinha uma  versão mais “amenizada” dos fatos (ou seja, excluindo o abuso sexual, a violência, o aborto, a semi-prostituição, o sequestro, …).
  • O prefácio da versão atual é de Joan Jett.
  • O livro conta com várias fotos em papel brilhante mostrando Cherie em vários momentos de sua vida.
  • Foi esse livro que deu origem ao filme The Runaways.

Elas estão em toda parte: em salas de espera de médicos e dentistas, no salão de beleza, na biblioteca de escolas, na mesa daquela sua colega de escritório, dando sopa na cestinha de revistas de um banheiro. As revistas femininas tomam o mercado editoria com tiragens enormes, tudo isso apostando numa variedade absurda, que vai agradar vários gostos.

Para as mais sofisticadas, Marie Claire. Para as mais modernas e esportivas, Claudia. Para as mais comportadas, Criativa. Para as adolescentes mais saidinhas, Capricho. Para as adolescentes mais recatadas, Atrevida. E vão aí inúmeras outras. Variando a faixa, as capas sempre mostram uma celebridade maravilhosa com uma frase de impacto e os assuntos são os mesmos:

  • o que você deve vestir e que dieta você deve fazer para ficar em forma (Moda & Beleza);
  • o que você deve fazer para arrumar um namorado ou manter o seu namorado/marido/parceiro/peguete (Comportamento);
  • e o que você deve pensar (Carreira, Celebridades e Assuntos Polêmicos)

Todas elas têm uma única premissa: a mulher moderna e inteligente. Mas quem diabos é essa mulher?

A primeira foto que aparece no google images quando você digita "mulher moderna e inteligente". Pra quem não reconheceu, essa é a Katie Holmes, mulher do Tom Cruise. É, aquela mesma que não pode mais fazer cena de beijo por conta do maridão.

Basicamente a mulher moderna e inteligente domina 3 grandes aspectos da vida (e sim, já li essas revistas então posso falar):

  1. Ela é alta, magra, tem os cabelos impecáveis, veste-se com estilo, acompanhando todas as tendências da moda. Se a genética não permite, vamos apelar para as dietas loucas, saltos, itervenções cirúrgicas e tudo mais.
  2. Ela está sempre acompanhada. Se não tem namorado/marido/parceiro/peguete, sabe exatamente o que fazer para arranjar um. Tem todos os truques da sedução. Sabe de cor qual o melhor olhar para dizer que está a fim, sabe cruzar as pernas, sabe até aquela posição 57 tântrica que vai deixar qualquer um maluco. Se é casada, não dorme de blusão, só de lingerie sexy e badala com o maridão (sim, ele é um maridão) sempre. Se tem filhos, é uma super mãe. Leu todos os livros de psicologia infantil do momento, toma conta dos meninos, troca fralda enquanto aplica uma máscara nos cilhos.
  3. Ela tem um emprego sensacional. Mas não estamos falando aqui de um bom emprego. As mulheres modernas e inteligentes nunca são professoras, recepcionistas, biólogas ou analista de sistemas. Elas são designers, DJs, altas executivas, decoradoras, especialistas em look ou ocupantes de algum cargo impronunciável que você provavelmente não vai entender.

Em outras palavras: essa mulher não existe.

É isso mesmo, você que acreditou em tudo que as revistas te disseram e que está se matando para dar conta de tudo na sua vida, gastando seu salário em cosméticos e em roupas caríssimas. Respira. E não, nem a Katie Holmes é assim. Ninguém é asim porque isso é impossível. Quer uma prova?

Você acha essa mulher gorda ou “gordinha” (como dizem os eufemismos da vida)?

Pois de acordo como Google, ela é sim. Ao digitar “mulher gordinha” no Google aparece essa moça, modelo de plus size. Plus size? Gente, desde quando 42, 44 ou 46 virou plus size? Desde quando ser normal virou usar 34 e 36?

Agora vamos digitar “mulher” no Google. Olha só que aparece:

Olha que meigo. Magrinha, maquiada e com uma rosa na mão… Que é que andam te dizendo sobre você mesma, hein?

No mundo dito real ninguém consegue ter um super emprego, um super relacionamento e ser uma super mãe. Quem não consegue (ou seja, todo mundo) entra numa paranóia e se acha uma fracassada. Como assim eu não consigo trabalhar o dia inteiro, cuidar das crianças, andar super arrumada e fazer sexo loucamente com meu namorado/marido/parceiro/peguete? Eu sou uma fracassada!

Não, querida, você é mulher mesmo. Um ser humano. Que não dá conta de tudo. Que tem altos e baixos. Que às vezes vai super bem no trabalho mas a vida pessoal tá uma droga. Que às vezes dá atenção pros filhos mas tá cansada deles. Que às vezes tá numa maré ruim. E daí?

As revistas femininas vendem uma imagem de que a mulher moderna e inteligente é normal. Que ela tem que dar conta de tudo para ser realmente considerada mulher. Vendem a imagem que nós mulheres temos que ser a celebridade da capa. Mas olha só que coisa, se nem a celebridade da capa é perfeita…

Até que ponto todas aquelas dicas ali realmente estão pensando em você? A dieta é realmente para você baixar o nível de colestorol ou é pra você ficar mais parecida com a modelo? Aquela sequência de exercícios físicos é pra te tirar do sedentarismo ou é pra deixar a sua barriga tanquinho que nem a da Gisele? Aquele jeans realmente vai te fazer sentir mais confiante? E aquela posição 57, é realmente pra você aproveitar? E se é, por que o nome da matéria é 99 maneiras de deixá-lo louco?

Numa embalagem pseudo-feministas, essas revistas vendem uma mentira. E endossam ainda mais o ponto de vista de que para ser mulher você tem que casar com um cara lindo, que te diz o que fazer, ter um super emprego e ganhar muito dinheiro, cuidar dos filhos loucamente e andar na moda.

Ah, agora entendi porque a imagem da Katie Holmes apareceu.

Olha a famíla da mulher moderna e inteligente... *ligar a ironia aqui*

Faz um tempo que eu queria comentar sobre esse livro que foi um dos melhores que li esse ano. Comprei logo depois de assistir o filme Comer, Rezar, Amar estrelado por Julia Roberts e baseado no livro de mesmo nome escrito por Elizabeth Gilbert. Comprometida conta o que aconteceu com Liz (o livro é uma autobiografia) depois de encontrar Felipe naquela praia maravilhosa em Bali.

No livro, Liz se encontra num verdadeiro martírio que é se casar com Felipe. Isso pode parecer um grande contra-senso uma vez que eles dizem ser o amor da vida um do outro, mas a verdade é que eles juraram nunca se casar. Isso por conta do trauma do divórcio. O problema é que Felipe é brasileiro de nacionalidade australiana e é proibido de entrar nos Estados Unidos. Para ficarem juntos, eles precisam se casar legalmente. Calma, não contei nada demais, isso acontece logo nas primeiras páginas.

Gilbert escreve de um jeito leve e engraçado, discutindo o mundo feminino com elegância e realidade. Nada de idealizações, nada de fantasias. A idéia da escritora foi de estudar a instituição casamento já que se veria dentro dela em poucos meses. Então o livro é cheio de referências históricas, casos, reflexões, entrevistas e pensamentos sobre a instituição casamento em várias culturas. Por conta disso, achei que a tradução brasileira do título “Comprometida – Uma história de amor” dá uma idéia completamente equivocada a respeito do que se trata o livro. Afinal, não é uma história de amor, é uma história sobre o casamento.

Obviamente que há relatos da vida a dois de Liz e Felipe, mas tudo de uma forma muito sutil. E a falta de perfeição afasta o livro da categoria “Chick-Lit” para chegar num ponto em que você não sabe se está lendo um livro de memórias, um livro de história ou uma tese sobre a condição feminina no casamento através dos tempos. Tudo isso de uma forma sensível e tocante, que faz com que seja possível refletir sobre aspectos importantes do casamento e sobre uma perguntal fundamental que poucas pessoas fazem: “Por que quero me casar?”.

Esse livro veio de uma forma muito pessoal para mim pois eu mesma estava às voltas pensando no assunto, mas sem nunca ter realmente refletido no aspecto institucional e histórico da coisa. Quer dizer, se casar por amor é tudo que eu sempre pensei, mas existem outras coisas por trás. E são nessas coisas que temos que pensar. Gilbert diz que precisamos encontrar algo que nos faça acreditar no casamento antes de embarcar nele. E seu livro é a representação física dessa busca que ela empreendeu. Engraçado que a reposta que ela encontrou foi uma resposta muito parecida com a minha própria: quero me casar porque casamento é uma instituição que resistiu a todo tipo de revolução e coerção. Nada no mundo jamais impediu que as pessoas se unissem, o que faz deste uma instituição de subversão. O casamento é uma expressão, assim como a arte, e cabe ao casal desenhar seus limites e traçar seus padrões.

Recomendo este livro a todos que se interessem não só sobre o casamento, mas sobre questões da mulher em geral. Ah, e não espere que seja no estilo de Comer, Rezar, Amar. Comprometida bate muito mais de frente com a realidade e levanta questões práticas, não existenciais.


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