Mundo de Coisas Minhas

Posts Tagged ‘mitos sobre o feminismo

Outro dia estava lendo um post do blog A Melhor das Intenções quando me deparei com o seguinte comentário que me deixou bem, digamos, surpresa. Segue o comecinho do post:

Na sua opinião, o que é machismo?

Reparem que estou perguntando a respeito de sua opinião e não a definição que a sociedade adota para a palavra. Não me considero uma feminista.

Só concordo com elas até o ponto em que determinam que a mulher é dona do próprio corpo e pode fazer dele o que bem entender, inclusive se abster de sexo. Porém discordo da posição exageradamente rígida quanto à mulher como objeto de desejo sexual. Por que em termos de sexo, acredito que grande parte do nosso prazer está em saber o quanto somos desejadas.

WTF????????? Como assim???? Não é feminista? Objeto de desejo sexual?

Dando uma contextualizada a respeito do blog e de sua proposta antes de eu realmente chegar no ponto que eu quero chegar: o blog A Melhor das Intenções foi criado por três twitteiras e tem por objetivo comentar suas diversas experiências amorosas (principalmente as que deram errado) com bom humor e tranquilidade. As três autoras (e também os colunistas “convidados”) falam abertamente sobre sexo e as meninas assumem sem problema nenhum sua liberdade sexual, os parceiros que tiveram, as experiências sexuais vividas. Confesso que não sou uma leitora assídua do blog, então não posso falar de todos os posts, mas de vez em quando dou uma lida e posso dizer que a posição desse post me pegou totalmente desprevenida. E por dois motivos.

Motivo #1: O medo da palavra com “f”

Verdade seja dita: falar feminismo muitas vezes é pior do que falar palavrão. Tem mulher que foge da palavra que nem diabo foge da cruz. Liberal sim. Feminista? Eu? Que isso, tá doido? Eu não tenho nada a ver com isso! Pelamordedeus!!! Inclusive na Marcha das Vadias (não sabe o que é, veja essa carta manifesto aqui rs) muitas das manifestantes que estavam ali para dizer não-é-porque-estou-com-roupa-curta-que-sou-vadia-e-sou-culpada-de-ser-estuprada foram bem rápidas em dizer que não eram feministas e que aquela causa não era feminista.

A sociedade conservadora conseguiu muito bem criar o esteriótipo da feminista machona, mal-amada e sem senso de humor que não é interessante e muito menos sexy. Pior que ser feminista, só ser uma feminista gorda e pobre. Mas a verdade é que feminismo não tem nada a ver com isso e sim com igualdade entre os sexos. E antes que você venha me dizer que os diferentes gêneros têm direitos iguais e que essa balela de feminismo não faz sentido, eu recomendo que você leia esse post que eu fiz sobre alguns dos mitos do feminismo.

Ser feminista não é ruim, na verdade, é querer igualdade, mas é impressionante como a blogueira do A Melhor das Intenções foi rápida em dizer que não era. Como se fosse uma praga.

Tem um artigo muito legal que pode ser lido aqui que expressa porquê algumas mulheres mostram essa insegurança em se assumirem publicamente como feministas.

Motivo #2: ser um objeto de desejo sexual não é nada sexy

Vamos começar do começo. Existe a posição de sujeito e existe a posição de objeto. Se você está com/conhece um cara que te acha super sexy, e vocês fazem sexo, e curtem, e é tudo de bom e você participou e curtiu demais da conta, você está na posição de sujeito. Se você está com um cara que não leva em consideração sua opinião, que está simplesmente interessado no seu corpo e em nada das suas vontades e preferências sexuais e que só leva em conta a vontade dele, você é um objeto.

Tratar uma mulher como um objeto sexual significa que ela é simplesmente um corpo que existe para ser utilizada por um homem e pela vontade dele. Significa que na verdade não faz diferença se aquilo ali é  fulana, ou ciclana, ou uma boneca de plástico. Quando a mulher é um objeto, ela é um objeto e como tal não tem vontade, desejo, opinião, inteligência, lugar na sociedade. Então ser um objeto sexual não é nada sexy. Não tem nada a ver com se sentir desejada. Tem a ver com ser usada e desrespeitada.

A autora do post ainda continua:

Então, quando vejo coisas como Lingerie Day, ou ensaios sensuais bombando na internet, não acho errado, muito menos acho que as gurias em questão são vadias, porque sei como todos aqueles comentários e homens babando fazem bem pro ego.

Nenhuma feminista que eu conheço julgaria alguém que faz Lingerie Day ou ensaio sensual na internet de vadia. Porque isso seria ir contra um dos princípios do próprio feminismo que é o de que as mulheres não devem ser julgadas por sua aparência e que chamar uma mulher de vadia somente por causa da roupa que usa ou do comportamento sexual que exibe é machismo. O que as feministas dizem é que essas mulheres de ensaios sensuais foram objetificadas para atender um fetiche masculino. E foram, não foram? Quer dizer, quem é que criou essa coisa de coelhinha e talz? Quem é que criou a indústria pornográfica e afins? Quais são os maiores beneficiados disso tudo? Bem, não são as mulheres.

A cultura da objetificação e erotização de tudo é danosa à nossa sociedade, e não só às mulheres. Queremos uma expressão da sexualidade livre e não uma lavagem cerebral de que sexo é uma forma de expressar o seu poder sobre o outro, de subjufação. Sexo tem que ser saudável e para ambas as partes! E sim, a mídia é altamente sexista e há várias propaganda que colocam a mulher como objeto como essa aqui, que pode ser muita coisa mas não é sexy.

Quanto ao quesito comentários e homens babando fazem bem pro ego, eu não sei, mas eu acho ofensivo uma vez que todo esse alvoroço vem de tratar a mulher daquela foto como um objeto e nada mais. A mulher ali não é uma pessoa a ser admirada e desejada e sim um recipiente, sim um recipiente. É tosco mas é verdade.

Óbvio que todo mundo quer ser sexy. Todo mundo quer ter uma vida sexual feliz. Homens e mulheres. Mas essa vida sexual feliz depende de respeito e igualdade. Claro que queremos nos sentir bonit@s e desejad@s, mas que isso seja feito numa posição de sujeito e não de objeto. Que a mulher possa escolher, dizer sim e dizer não.

E que o homem também. Porque o texto dessa blogueira faz um questionamento pertinentente que é o de que homens podem ser vítimas de machismo. O machismo é uma grande chaga da sociedade e prejudica todo mundo, homens inclusos. Afinal, todas essas máximas de “homem não chora”, “homem sempre quer sexo”, “homem tem que pegar” criam problemas para muitos homens sim. Realmente, nisso concordo com a autora, ter a sexualidade questionada só porque não quis fazer sexo com alguém é ridículo.

Só gostaria de esclarecer que meu objetivo com esse post não é o de detonar a blogueira, nem de jogar pedra em ninguém. Acho o trabalho das meninas do A Melhor das Intenções, que falam sobre sexo de uma forma desencanada e extrovertida, válido, pois tenta quebrar alguns preconceitos da sexualidade feminina. Só usei o texto dela (que está na internet e eu citei a fonte para não ter problemas e avisei a autora sobre esse meu texto) para mostrar como a mídia conseguiu deturpar alguns conceitos importantes como feminismo e objetificação sexual a ponto de que pessoas bem informadas e críticas acabem por utilizar/acreditar em idéias erradas e deturpadas.

"Você já ouviu falar de objectofilia? É quando você se sente atraído por objetos." "Ah, eu tenho isso." "Mesmo?" "Sim, eu me sinto atraído por mulheres"

Objetificação não é sexy. É falta de respeito.

Para quem se interessa sobre esse debate, tem um link muito bom aqui.

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Posso dizer que me tornei feminista em janeiro deste ano depois de ler a Norton Anthology of Literature by Women. Já comentei a respeito dessa leitura nesse post. Comecei a ler livros teóricos sobre o assunto – na minha área que é literatura – e a ler blogs, dentre eles o famoso Escreva Lola Escreva. Pode parecer ingenuidade, mas foi quando eu percebi que existe gente que odeia feminismo. Quer dizer, eu sempre soube que machistas existiam e que por uma consequência natural, seriam contra o feminismo. Mas eu nunca achei que as pessoas poderiam odiar tanto uma linha de pensamento e pior, odiar baseando-se em idéias completamente erradas e distorcidas. E aí vão algumas delas:

5. Toda feminista é lésbica. Se não for publicamente, é uma enrustida.

Engraçado que várias pessoas me falaram isso quando eu comecei a me auto-declarar feminista. Sério. Gente que me conhece já faz anos me olhou de um jeito estranho como se de repente eu tive ficado verde. Não pessoas, nem toda feminista é lésbica. Existem feministas lésbicas? Claro. Como também existem feministas homens (sério). Uma das grandes premissas do feminismo é a liberdade sexual, o direito de escolha da mulher sobre o que fazer com a sua sexualidade. Se ela quiser expressar sua sexualidade com outra mulher, well, é uma escolha pessoal. Mas não existe essa de feminista=lésbica. Isso foi a TV que te contou.

4. As feministas querem tomar o lugar dos homens.

Quê? Primeiro, existe um “lugar dos homens”? Existe uma linha pintada no chão onde os homens ficam com a plaquinnha “Lugar dos homens – mulheres se afastem”? O feminismo não quer tomar nada de ninguém, só quer igualdade. Ninguém vai sair por aí roubando emprego de homem ou batendo em homem na rua (isso, pessoas, é o machismo que faz). O feminismo só luta pelos mesmos direitos o que se significa que se uma mulher quiser ser piloto de avião ela tem o direito a fazer uma prova, fazer o curso e ser aprovada se tirar boas notas. Feminismo luta por direitos iguais ou seja, as mesmas chances na vida.

3. Feminista que se casa não é feminista de verdade.

Engraçado que as pessoas têm a imagem de feministas como essas mulheres frias e sozinhas, morando numa casa entupida de livros, morrendo de rancor no coração. Que isso. Se o ponto principal do feminismo é a escolha da mulher, então ela tem direito de escolher se casar. Óbvio que casamento aqui não será aquele casamento da sua vó em que ela abaixava a cabeça, fazia comida duas vezes por dia, arrumava a casa sozinha e sem reclamar. Estamos falando de casamento em que haja uma união de verdade. Ou seja, as duas partes são responsáveis pelo funcionamento da casa e da relação, partilham suas obrigações e deveres, têm os mesmos direitos e compensações. Peraí, não isso que o casamento deveria ser a princípio mesmo?

2. Feminismo e machismos são duas linhas extremistas que não devem ser seguidas.

Esse é um pensamento muito confortável para a maioria das pessoas. Aquele discurso de que feminismo e machismo são dois lados da mesma moeda e que o bom mesmo é ser neutro. Não, você não é neutro. Neutralidade não existe. O feminismo não é uma linha extremista e não tem nada a ver com mulheres no comando dominando homens. Diferente do machismo, o feminismo respeita a liberdade de expressão, a diversidade, o direito de escolha, a voz das minorias.

1. Não há lugar para lutas feministas no mundo de hoje. As mulheres já têm seus direitos garantidos por lei.

De todos os pensamentos, esse é o mais perigoso. As mulheres têm seus direitos garantidos por lei, mas essa lei se cumpre ou é eficiente? E os casos de estupro? E a violência doméstica? E a discriminação? E a categoria “vadia” aplicada para mulheres com vida sexual ativa que não são casadas? E o fato que muitas mulheres bem qualificadas perdem a chance de um emprego simplesmente porque são mulheres? E o fato de que as mulheres ganham 20% a menos que os homens? E o preconceito? E as piadas de mal gosto? E não, isso não é paranóia, é a realidade. Em dúvida, dê uma olhada nas estatísticas do IBGE ou tente dar uma analisada nas tais “crenças populares”. Você ainda tem certeza que a mulher é tratada de uma forma justa comparada a um homem?

Enfim. É isso. *respira de alívio*


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