Mundo de Coisas Minhas

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Que blogueiro nunca ouviu essa pergunta? E mais, essa pergunta acompanhada de comentários do tipo: mas você escreve assim o que você pensa, pra quê? Mas você escreve de graça? Mas você não sempre fala que tá ocupada, como é que você desperdiça seu tempo num troço desses? E tem gente que lê? Mas eu entrei no seu blog e não tem comentário nenhum, então pra quê você continua escrevendo?

Hã…

"Eu penso, logo blogo"

Então, é um troço complicicado e imagino que seja bem pessoal. Eu tenho um troço com escrita. Sério. Desde pequena eu lembro de ter um caderno com capa da Miney onde eu as escrevia histórias que eu inventava. Mais tarde virei ficwriter, escrevendo histórias baseadas na série Harry Potter. Depois eu entrei pra faculdade de Letras e comecei a escrever trabalhos acadêmicos. A minha trajetória inteira é marcada por escrever e comentar. A relação com o blog vem disso. É um jeito da coisa não ficar só na minha cabeça e é um jeito de eu ter mais disciplina. Por mais que eu não atualize todos os dias, fica uma luzinha na minha cabeça acendendo ESCREVE NO BLOG ESCREVE NO BLOG, aí eu escrevo. Simples assim.

Já tive uns 10 blogs ao longo da vida. Todos abortados em menos de um ano. Atualmente tenho dois: esse e o Livros de Fantasia (só para resenhas/comentários de livros do gênero). Os dois têm mais de um ano de vida e vão bem. O que fez com esses dois blogs vingassem e os outros não?

Sei lá.

Mas escrever nesses dois tem sido no mínimo terapêutico. É um jeito de eu ficar sempre em contato com a palavra escrita, sem cair no extremo de ser super informal (tipo meu antigo caderninho da Miney) nem super formal como os trabalhos da faculdade. Além disso, ler e escrever em blogs me ajuda a formar opinião. Ajuda mais que assistir TV, sabia?

"Como blogar: aqui está tudo o que você precisa saber"

Hoje em dia tem blog de tudo. Tem blog pra te ensinar a passar no vestibular, a prova da OAB (juro que tem!!! joga no Google), blog pra troca de receita, blog que contas as últimas do Big Brother Brasil pra quem não tem TV a cabo e até blog te ensinando a fazer um blog de sucesso. Então, em que categoria se enquadra esse meu blog aqui?

Então, aqui eu falo de filmes e livros, algumas coisas sobre mim, algumas coisas que eu penso e principalmente, falo sobre minhas obcessões pessoais. hahahaha Porque eu sou chata. Quando eu gosto de uma coisa fico apurrinhando as pessoas por conta dessa coisa e postar sobre essa coisa no blog me faz chatear menos pessoas e manter os amigos. rs

Isso aqui, como o nome diz, é um Mundo de Coisas Minhas. Então não sei muito bem definir o que esse blog É, então vou para o que esse blog NÃO É:

  • Uma forma de ganhar dinheiro.

Sinceramente, não tenho intenção nenhuma de encher isso aqui de anúncio e ganhar uma grana por acesso, cliques, e bla bla bla. Meu objetivo não é ter um número bombante de acessos e ganhar páginas de fãs no Facebook ou virar uma celebridade online e de repente sair por aí virando garota-propaganda de sabão ou qualquer coisa assim. É um lazer, não um negócio.

  • Uma forma de me auto-promover.

Não, não quero ser famosa e ganhar a tal página de fã do Facebook que citei acima. Não quero aparecer no CQC nem nada. Não tenho nenhum peixe pra vender. Claro que quero comentários e talz, mas isso pra sentir uma reciprocidade, uma troca de idéias, não para idolatrar minha personalidade e virar uma figurinha carimbada.

  • Um lugar detonar o mundo e falar mal dos outros.

Uma das dicas desses blogs para tornar o seu blog um blog de sucesso é justamente falar mal das coisas, reclamar, usar frases de efeito. Okay, de vez em quando eu fico fula da vida e falo mal dos outros. Inclusive, o post em que falei mal de alguém foi o post que mais me rendeu acessos em toda a história. Foi o post do José Wilker na transmissão do Oscar: 1413 acessos em um dia. Fui até parar no top5 do WordPress Brasil. Só que eu pensei: eu quero realmente ganhar acessos só porque falei mal de alguém? Hã, não. Blog de haters é sucesso na certa, mas eu não acho isso legal. Se não a gente cai no risco de ficar igual o Felipe Neto, odiando tudo sem fundamento e transmitindo frases de efeito que ficam cada vez mais sem efeito.

  • Um lugar para provar que eu sou cool e moderinha.

Definitivamente não! Pra que eu faria isso? Eu nem sei mexer no Twitter, fala sério!

Não sei se isso tudo realmente responde a pergunta do título, mas pelo menos a ajuda a delimitar um espaço. Então vocês que me lêem (sim, eu acredito que vocês estão realmente aí e que os acessos contados no WordPress não são só pesquisas que o Google mandou pro lugar errado), esperem resenhas, comentários de filmes e livros, mais posts sobre The Runaways (sim, eu sei que tenho um probleminha sério rs), coisas sobre feminismo, idéias para projetos meus, pensamentos sobre a vida e sobre minha adolescência anos 2000. Porque é isso.

"Blogar ou não blogar: eis a questão". Super batido já, mas é verdade.

Então, vamos começar do começo. E esse começo vem de uma idéia antiga para um post complicado sobre essa questão básica de “O que significa ser mulher? O que é expressar feminilidade?”. É o tipo de pergunta que não tem uma resposta pronta, direta. É o tipo de coisa que a gente pode divagar, discutir, pensar junto. Acredito que não possa ser respondido. E isso só daria um post – dando continuidade ao post da Sandy – enorme . Enorme mas talvez que as pessoas não fossem achar interessante porque seria longo e meio repetitivo. O que me leva à questão da verdade, que até comecei a questionar no post sobre o Carnaval, mas que também daria uma discussão longa e repetitiva. Me veio então a idéia de outro post sobre The Runaways que também seria longo e cansativo. A solução? Juntar os três temas numa coisa só.

Estudar crítica feminina abriu a minha cabeça, sério. Sempre tive um grande preconceito contra a crítica literária feminista, grande parte devido a interpretações errôneas e aulas fuleiras sobre literatura americana do século XX. Na minha concepção feminismo era uma coisa ultra radical, meio forçada, idealista, beirando o sem noção. No entanto, pesquisando Margaret Atwood fui forçada a ler crícia feminista e meu primeiro contato foi com Sandra Gilbert e Susan Gubar na edição mais recente da Northon Anthology of Literature by Women [Antologia Northon de Literatura Feminina, em tradução livre], uma tora de dois volumes com mais de duas mil páginas! Confesso que comecei a ler a introdução com o pé atrás, mas logo no primeiro capítulo, sobre os primeiros textos escritos por mulheres na Idade Média, meu mundo mudou. Devorei os textos teóricos numa rapidez incrível. Tomei total consciência de toda a luta das mulheres nos últimos séculos e constatei  com comprovações teóricas o que já tinha percebido intuitivamente ao longo dos anos: que ser mulher é uma construção.

Eu recomendo a todos aqueles que tenham qualquer interesse em estudar construção do imaginário (seja ele de raça, gênero, classe social) a leitura dos textos teóricos dessa antologia e/ou o livro A Madwoman in the Attic, das autoras acima mencionadas. É um panorama muito bem pesquisado e muito bem escrito (ou seja, rende uma leitura prazerosa) que mostra de século em século a construção da sociedade em torno do que é considerado, hoje, uma mulher e consequentemente, o que cabe a ela fazer ou não fazer.

A coisa parece bem óbvia, mas o buraco é mais embaixo. Grande parte do que li, já tinha percebido pelas idas e vindas da vida, mas confesso que fiquei muito mais atenta a questões mais sutis. O discurso sobre a mulher tem sido contestado de uma maneira mais, digamos, universal a pouco mais de um século e algumas construções ficam na nossa cabeça sem que a gente perceba. Por exemplo, a famosa frase “Mas uma mulher fazendo isso.!..” ou aquele comentário maldoso “Se fosse homem, até que vai, mas mulher…”. Claro que temos que tomar cuidado para não cair em radicalismos e sair por aí com a bandeira que mulheres são melhores que homens e que os homens que se explodam. A questão não é superação, é igualdade. O que me leva a The Runaways.

The Runaways é meu novo vício. Sou uma pessoa extremamente passional e quando cismo com uma coisa, não largo. Então nas últimas semanas tenho dedicado meu pouco tempo livre a pesquisar a história da primeira banda de rock só de garotas. Pesquisei em tudo quanto é lugar. Wikipedia, blogs obscuros, Youtube, sites de música, blogs de ex-integrantes da banda, e-books, entrevistas, documentários. E o que encontrei? Bem, resistência. É impressionante. Cinco garotas cantando rock incomoda muita gente, mas cinco garotas cantando rock falando de sexo e festa incomoda muito mais.

Incomoda até os marmanjos que falam de sexo e festa.

Cara, eu gostei MUITO da banda. Gostei do som, gostei da interpretação. Achei forte, mexeu comigo. E é isso que procuro em música, em arte em geral, coisas que mexem comigo, que me fazem sentir alguma coisa. Foi uma banda montada? Foi. Mas foi uma banda fake? Hum não. Na minha opinião o que elas fizeram foi genuíno, chega a ser imaturo em algumas partes, mas foi algo delas. Um modo de se expressar num mundo turbulento que simplesmente aceitava que garotas ficassem em portas de show pra transar com os caras da banda, mas não aceitava que as garotas fossem a banda.

The Runaways nunca foi sucesso nos Estados Unidos, apesar de ter sido uma banda considerada na Europa e uma febre no Japão (com direito a album ao vivo gravado por lá, meu favorito por sinal, Live in Japan). Engraçado o comentário de Jackie Fox, ex-baixista, em seu extinto site: The Runaways era revolucionário demais para o público masculino conservador mas era sexy demais para as feministas radicais o que resultou em uma baixa popularidade nos EUA. A banda era taxada de poser, antro de promiscuidade, transmissora de valores degradantes da sociedade. Ué, mas se você pegar uma letra de música do Led Zeppelin, vai encontrar a mesma coisa. Então qual o problema?

O problema é que mulher transgressora é taxada, primeiramente, de louca. Se o lance de louca não funcionar, vem o o rótulo de lésbica. Se o de lésbica não funcionar, bem, aí não se tem escolha e vem o de prostituta promíscua. Aí não tem jeito, a mulher fica marginalizada, excluída e sofre preconceito sem nem mesmo ter sua voz ouvida. Todo mundo tem direito de não gostar de determinada música, o problema é que a crítica às Runaways sempre pegava no lado “volta pra casa, garotas”.

Nesse sentido, ouvir Joan Jett, aos 16 anos, cantando o trecho abaixo é no mínimo revelador:

Wild in the streets, barely alive
Mama’s always telling me stay inside
Don’t you hang around with those young boys
Soon you’ll be lovin’ them
They’re all night toys

Hot love hear, I got the drive
Neighbours been bugging me I gotta hide
I am the bitch with the hot guitar
I am the air, the sun and stars

I wanna be where the boys are
I wanna fight how the boys fight
I wanna love how the boys love
I wanna be where the boys are

Talvez Kim Fowley, produtor da banda, (figurinha bem questionável) não tenha pensado nas implicações do que estava escrevendo, assim, só pra chocar, mas ao colocar Jett para cantar e interpretar a música, as palavras ganham novo valor. A questão não é ficar com os garotos pra ser uma vadia promíscua e sim ter a oportunidade de fazer as mesmas escolhas que os garotos, de poder dizer que sim ou poder dizer que não.

Obviamente idealizar qualquer coisa na vida pode ser algo muito perigoso (e cegante!). O que nos leva de volta à questão da verdade. Muita informação sobre The Runaways é extremamente contraditória e isso fica evidente no filme Edgeplay, um documentário produzido por Victory Trishler-Blue, ex-baixista da banda. No filme, cinco ex-integrantes [Cherrie Currie (vocalista), Lita Ford (guitarrista solo),  Jackie Fox (baixista até 1977), Vicki Blue (baixista de 77 a 79) e Sandy West (bateirista)] contam sua versão do que realmente aconteceu desde a idealização do grupo em 1975 até o turbulento fim em 1980. É impressionante como a versão dos fatos é contada de uma maneira diferente por cada integrante e o fato de Joan Jett ter se recusado a participar do filme e proibir que suas músicas fossem usadas na trilha é, no mínimo, instigante.

Onde está a verdade? Existe uma verdade? The Runaways foi uma banda revolucionária de garotas cheias de atitude ou foi uma idéia louca de um produtor que explorou tudo o que pode de adolescentes frágeis mas talentosas?

A minha conclusão é de que a verdade, e principalmente, a verdade sobre mulheres sempre é uma mistura das duas coisas. Tudo começa com uma idéia e essa idéia é sugada e apropriada até se tornar uma coisa completamente diferente que apenas apóia o “poder do patriarcado” (odeio usar essa expressão, mas é necessário). Mulheres são sempre vistas como extremos, mas talvez o que seja necessário é ver que somos o meio. Que somos revolucionárias, mas que somos frágeis; que vamos à luta, mas que temos medo; que fazemos muito barulho, mas que queremos paz; que somos simplesmente seres humanos.


Let me tell you what we´ve been doing
Neon angels on the road to ruin



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