Mundo de Coisas Minhas

Posts Tagged ‘feminismo

Outro dia estava lendo um post do blog A Melhor das Intenções quando me deparei com o seguinte comentário que me deixou bem, digamos, surpresa. Segue o comecinho do post:

Na sua opinião, o que é machismo?

Reparem que estou perguntando a respeito de sua opinião e não a definição que a sociedade adota para a palavra. Não me considero uma feminista.

Só concordo com elas até o ponto em que determinam que a mulher é dona do próprio corpo e pode fazer dele o que bem entender, inclusive se abster de sexo. Porém discordo da posição exageradamente rígida quanto à mulher como objeto de desejo sexual. Por que em termos de sexo, acredito que grande parte do nosso prazer está em saber o quanto somos desejadas.

WTF????????? Como assim???? Não é feminista? Objeto de desejo sexual?

Dando uma contextualizada a respeito do blog e de sua proposta antes de eu realmente chegar no ponto que eu quero chegar: o blog A Melhor das Intenções foi criado por três twitteiras e tem por objetivo comentar suas diversas experiências amorosas (principalmente as que deram errado) com bom humor e tranquilidade. As três autoras (e também os colunistas “convidados”) falam abertamente sobre sexo e as meninas assumem sem problema nenhum sua liberdade sexual, os parceiros que tiveram, as experiências sexuais vividas. Confesso que não sou uma leitora assídua do blog, então não posso falar de todos os posts, mas de vez em quando dou uma lida e posso dizer que a posição desse post me pegou totalmente desprevenida. E por dois motivos.

Motivo #1: O medo da palavra com “f”

Verdade seja dita: falar feminismo muitas vezes é pior do que falar palavrão. Tem mulher que foge da palavra que nem diabo foge da cruz. Liberal sim. Feminista? Eu? Que isso, tá doido? Eu não tenho nada a ver com isso! Pelamordedeus!!! Inclusive na Marcha das Vadias (não sabe o que é, veja essa carta manifesto aqui rs) muitas das manifestantes que estavam ali para dizer não-é-porque-estou-com-roupa-curta-que-sou-vadia-e-sou-culpada-de-ser-estuprada foram bem rápidas em dizer que não eram feministas e que aquela causa não era feminista.

A sociedade conservadora conseguiu muito bem criar o esteriótipo da feminista machona, mal-amada e sem senso de humor que não é interessante e muito menos sexy. Pior que ser feminista, só ser uma feminista gorda e pobre. Mas a verdade é que feminismo não tem nada a ver com isso e sim com igualdade entre os sexos. E antes que você venha me dizer que os diferentes gêneros têm direitos iguais e que essa balela de feminismo não faz sentido, eu recomendo que você leia esse post que eu fiz sobre alguns dos mitos do feminismo.

Ser feminista não é ruim, na verdade, é querer igualdade, mas é impressionante como a blogueira do A Melhor das Intenções foi rápida em dizer que não era. Como se fosse uma praga.

Tem um artigo muito legal que pode ser lido aqui que expressa porquê algumas mulheres mostram essa insegurança em se assumirem publicamente como feministas.

Motivo #2: ser um objeto de desejo sexual não é nada sexy

Vamos começar do começo. Existe a posição de sujeito e existe a posição de objeto. Se você está com/conhece um cara que te acha super sexy, e vocês fazem sexo, e curtem, e é tudo de bom e você participou e curtiu demais da conta, você está na posição de sujeito. Se você está com um cara que não leva em consideração sua opinião, que está simplesmente interessado no seu corpo e em nada das suas vontades e preferências sexuais e que só leva em conta a vontade dele, você é um objeto.

Tratar uma mulher como um objeto sexual significa que ela é simplesmente um corpo que existe para ser utilizada por um homem e pela vontade dele. Significa que na verdade não faz diferença se aquilo ali é  fulana, ou ciclana, ou uma boneca de plástico. Quando a mulher é um objeto, ela é um objeto e como tal não tem vontade, desejo, opinião, inteligência, lugar na sociedade. Então ser um objeto sexual não é nada sexy. Não tem nada a ver com se sentir desejada. Tem a ver com ser usada e desrespeitada.

A autora do post ainda continua:

Então, quando vejo coisas como Lingerie Day, ou ensaios sensuais bombando na internet, não acho errado, muito menos acho que as gurias em questão são vadias, porque sei como todos aqueles comentários e homens babando fazem bem pro ego.

Nenhuma feminista que eu conheço julgaria alguém que faz Lingerie Day ou ensaio sensual na internet de vadia. Porque isso seria ir contra um dos princípios do próprio feminismo que é o de que as mulheres não devem ser julgadas por sua aparência e que chamar uma mulher de vadia somente por causa da roupa que usa ou do comportamento sexual que exibe é machismo. O que as feministas dizem é que essas mulheres de ensaios sensuais foram objetificadas para atender um fetiche masculino. E foram, não foram? Quer dizer, quem é que criou essa coisa de coelhinha e talz? Quem é que criou a indústria pornográfica e afins? Quais são os maiores beneficiados disso tudo? Bem, não são as mulheres.

A cultura da objetificação e erotização de tudo é danosa à nossa sociedade, e não só às mulheres. Queremos uma expressão da sexualidade livre e não uma lavagem cerebral de que sexo é uma forma de expressar o seu poder sobre o outro, de subjufação. Sexo tem que ser saudável e para ambas as partes! E sim, a mídia é altamente sexista e há várias propaganda que colocam a mulher como objeto como essa aqui, que pode ser muita coisa mas não é sexy.

Quanto ao quesito comentários e homens babando fazem bem pro ego, eu não sei, mas eu acho ofensivo uma vez que todo esse alvoroço vem de tratar a mulher daquela foto como um objeto e nada mais. A mulher ali não é uma pessoa a ser admirada e desejada e sim um recipiente, sim um recipiente. É tosco mas é verdade.

Óbvio que todo mundo quer ser sexy. Todo mundo quer ter uma vida sexual feliz. Homens e mulheres. Mas essa vida sexual feliz depende de respeito e igualdade. Claro que queremos nos sentir bonit@s e desejad@s, mas que isso seja feito numa posição de sujeito e não de objeto. Que a mulher possa escolher, dizer sim e dizer não.

E que o homem também. Porque o texto dessa blogueira faz um questionamento pertinentente que é o de que homens podem ser vítimas de machismo. O machismo é uma grande chaga da sociedade e prejudica todo mundo, homens inclusos. Afinal, todas essas máximas de “homem não chora”, “homem sempre quer sexo”, “homem tem que pegar” criam problemas para muitos homens sim. Realmente, nisso concordo com a autora, ter a sexualidade questionada só porque não quis fazer sexo com alguém é ridículo.

Só gostaria de esclarecer que meu objetivo com esse post não é o de detonar a blogueira, nem de jogar pedra em ninguém. Acho o trabalho das meninas do A Melhor das Intenções, que falam sobre sexo de uma forma desencanada e extrovertida, válido, pois tenta quebrar alguns preconceitos da sexualidade feminina. Só usei o texto dela (que está na internet e eu citei a fonte para não ter problemas e avisei a autora sobre esse meu texto) para mostrar como a mídia conseguiu deturpar alguns conceitos importantes como feminismo e objetificação sexual a ponto de que pessoas bem informadas e críticas acabem por utilizar/acreditar em idéias erradas e deturpadas.

"Você já ouviu falar de objectofilia? É quando você se sente atraído por objetos." "Ah, eu tenho isso." "Mesmo?" "Sim, eu me sinto atraído por mulheres"

Objetificação não é sexy. É falta de respeito.

Para quem se interessa sobre esse debate, tem um link muito bom aqui.

Hoje é aniversário de uma das figuras femininas mais importantes da história do rock: a filadelfiana de nascimento, californiana de música e novaiorquina de sotaque Joan Jett!

Joan Marie Larkin nasceu em um 22 de setembro exatos 53 anos atrás. O nome Joan Jett veio em 1975, pouco antes de ela entrar para a primeira banda de rock formada somente por mulheres, The Runaways. Aos treze anos, pediu uma guitarra de Natal para os pais e ganhou uma! Depois de ter tido uma experiência ruim com um professor que se recusava a ensiná-la a tocar rock (a cena está no filme The Runaways, em que Kristen Stwart interpreta Joan, e é uma das poucas cenas verídicas do filme), comprou um livro de “como aprender a tocar guitarra sozinho” e aprendeu na marra. A primeira música composta por Joan foi “You Drive Me Wild”, gravada pelas Runaways em 1976.

Joan tem um lugar garantido nos 100 maiores guitarristas da história na revista Rolling Stone, ocupando o lugar 87 e sendo parte do seleto número de duas mulheres na lista (a outra é Joni Mitchell). O hit “I Love Rock ´N´ Roll” é considerado pela Billboard a 89ª melhor canção pra se tocar na guitarra de todos os tempos.

Pessoalmente, admiro a Joan por seu discurso coerente no que diz respeito às mulheres no rock e em seu posicionamento firme sobre o assunto. Ela reconhece que rock por mulheres é e será por algum tempo algo considerado ofensivo e visto com muito receio por parte da comunidade masculina. Isso porque, de acordo com Joan, rock and roll tem algo de muito sexual e isso confere um poder que os homens não querem abrir mão. Tanto em sua carreira com as Runaways, quanto em sua carreira com os Blackhearts, Joan sofreu muito preconceito por ser rocker e por ser mulher. Nessa entrevista, ela conta algumas das situações difíceis que enfrentou e como lidou e superou essses problemas.

No entanto, o que me faz gostar da Joan apesar de todas as suas controvérsias (vulgo Kenny Laguna, mas isso é assunto pra outro post) é o fato de que ela nunca usou sua sexualidade e sensualidade para ganhar dinheiro. Obviamente que Joan Jett é uma das mulheres mais bonitas e sensuais que já existiram, mas ela nunca pousou nua e nunca se colocou na posição de objeto. Pelo contrário, Joan expressa sua sexualidade e sensualidade o tempo todo, mas sempre na posição de sujeito, sempre como uma escolha, nunca como imposição. Diferentemente de Lita Ford que virou uma espécie de deusa do sexo pros marmanjos do heavy metal, Joan virou ícone para as mulheres que desejam expressar sua sexualidade sem medo de ser feliz, sem medo de ser taxada de vadia e sem ter como objetivo virar poster de oficina mecânica.

E falando em sexualidade, Joan Jett é uma das celebridades mais discretas quando o assunto é sua vida sexual. Apesar de já ter sido vista com homens e mulheres, Joan não fala nada a respeito de sua orientação sexual. Ela diz que quer que as pessoas foquem em sua música, em seu trabalho e em suas idéias e não no que ela faz entre quatro paredes. Eu respeito muito essa posição e acho que é por aí que a banda toca mesmo. Rumores existem e existirão sempre, mas o que importa é o legado musical e as idéias defendidas e não a fofoca.

E falando em idéias, Joan é militante do PETA e ao contrário do que muita gente pensa, é vegetariana convicta, não bebe, não fuma e não usa drogas desde o final dos anos 70. Cool Joan! Ela ainda é fã de esportes, inclusive, pratica muitos deles, e já fez campanha pela liga feminina de basquete estado-unidense. Nos anos 80, ela foi de ônibus fazer turnê na antiga Alemanha Oriental e diz que foi uma das experiências mais incríveis de sua vida.

Ela continua ainda na ativa fazendo turnês pelos Estados Unidos com sua banda Joan Jett & the Blackhearts.

Elas estão em toda parte: em salas de espera de médicos e dentistas, no salão de beleza, na biblioteca de escolas, na mesa daquela sua colega de escritório, dando sopa na cestinha de revistas de um banheiro. As revistas femininas tomam o mercado editoria com tiragens enormes, tudo isso apostando numa variedade absurda, que vai agradar vários gostos.

Para as mais sofisticadas, Marie Claire. Para as mais modernas e esportivas, Claudia. Para as mais comportadas, Criativa. Para as adolescentes mais saidinhas, Capricho. Para as adolescentes mais recatadas, Atrevida. E vão aí inúmeras outras. Variando a faixa, as capas sempre mostram uma celebridade maravilhosa com uma frase de impacto e os assuntos são os mesmos:

  • o que você deve vestir e que dieta você deve fazer para ficar em forma (Moda & Beleza);
  • o que você deve fazer para arrumar um namorado ou manter o seu namorado/marido/parceiro/peguete (Comportamento);
  • e o que você deve pensar (Carreira, Celebridades e Assuntos Polêmicos)

Todas elas têm uma única premissa: a mulher moderna e inteligente. Mas quem diabos é essa mulher?

A primeira foto que aparece no google images quando você digita "mulher moderna e inteligente". Pra quem não reconheceu, essa é a Katie Holmes, mulher do Tom Cruise. É, aquela mesma que não pode mais fazer cena de beijo por conta do maridão.

Basicamente a mulher moderna e inteligente domina 3 grandes aspectos da vida (e sim, já li essas revistas então posso falar):

  1. Ela é alta, magra, tem os cabelos impecáveis, veste-se com estilo, acompanhando todas as tendências da moda. Se a genética não permite, vamos apelar para as dietas loucas, saltos, itervenções cirúrgicas e tudo mais.
  2. Ela está sempre acompanhada. Se não tem namorado/marido/parceiro/peguete, sabe exatamente o que fazer para arranjar um. Tem todos os truques da sedução. Sabe de cor qual o melhor olhar para dizer que está a fim, sabe cruzar as pernas, sabe até aquela posição 57 tântrica que vai deixar qualquer um maluco. Se é casada, não dorme de blusão, só de lingerie sexy e badala com o maridão (sim, ele é um maridão) sempre. Se tem filhos, é uma super mãe. Leu todos os livros de psicologia infantil do momento, toma conta dos meninos, troca fralda enquanto aplica uma máscara nos cilhos.
  3. Ela tem um emprego sensacional. Mas não estamos falando aqui de um bom emprego. As mulheres modernas e inteligentes nunca são professoras, recepcionistas, biólogas ou analista de sistemas. Elas são designers, DJs, altas executivas, decoradoras, especialistas em look ou ocupantes de algum cargo impronunciável que você provavelmente não vai entender.

Em outras palavras: essa mulher não existe.

É isso mesmo, você que acreditou em tudo que as revistas te disseram e que está se matando para dar conta de tudo na sua vida, gastando seu salário em cosméticos e em roupas caríssimas. Respira. E não, nem a Katie Holmes é assim. Ninguém é asim porque isso é impossível. Quer uma prova?

Você acha essa mulher gorda ou “gordinha” (como dizem os eufemismos da vida)?

Pois de acordo como Google, ela é sim. Ao digitar “mulher gordinha” no Google aparece essa moça, modelo de plus size. Plus size? Gente, desde quando 42, 44 ou 46 virou plus size? Desde quando ser normal virou usar 34 e 36?

Agora vamos digitar “mulher” no Google. Olha só que aparece:

Olha que meigo. Magrinha, maquiada e com uma rosa na mão… Que é que andam te dizendo sobre você mesma, hein?

No mundo dito real ninguém consegue ter um super emprego, um super relacionamento e ser uma super mãe. Quem não consegue (ou seja, todo mundo) entra numa paranóia e se acha uma fracassada. Como assim eu não consigo trabalhar o dia inteiro, cuidar das crianças, andar super arrumada e fazer sexo loucamente com meu namorado/marido/parceiro/peguete? Eu sou uma fracassada!

Não, querida, você é mulher mesmo. Um ser humano. Que não dá conta de tudo. Que tem altos e baixos. Que às vezes vai super bem no trabalho mas a vida pessoal tá uma droga. Que às vezes dá atenção pros filhos mas tá cansada deles. Que às vezes tá numa maré ruim. E daí?

As revistas femininas vendem uma imagem de que a mulher moderna e inteligente é normal. Que ela tem que dar conta de tudo para ser realmente considerada mulher. Vendem a imagem que nós mulheres temos que ser a celebridade da capa. Mas olha só que coisa, se nem a celebridade da capa é perfeita…

Até que ponto todas aquelas dicas ali realmente estão pensando em você? A dieta é realmente para você baixar o nível de colestorol ou é pra você ficar mais parecida com a modelo? Aquela sequência de exercícios físicos é pra te tirar do sedentarismo ou é pra deixar a sua barriga tanquinho que nem a da Gisele? Aquele jeans realmente vai te fazer sentir mais confiante? E aquela posição 57, é realmente pra você aproveitar? E se é, por que o nome da matéria é 99 maneiras de deixá-lo louco?

Numa embalagem pseudo-feministas, essas revistas vendem uma mentira. E endossam ainda mais o ponto de vista de que para ser mulher você tem que casar com um cara lindo, que te diz o que fazer, ter um super emprego e ganhar muito dinheiro, cuidar dos filhos loucamente e andar na moda.

Ah, agora entendi porque a imagem da Katie Holmes apareceu.

Olha a famíla da mulher moderna e inteligente... *ligar a ironia aqui*

Estava eu andando no shopping quando vi isso aqui:

Dei uma pesquisada na internet e descobri que o dia do homem é hoje, 15 de julho. E descobri também que foi um dia criado há dez anos pelo ex-presidente russo Mikhail Gorbachev. Não tem data específica para o dia do homem, cada país decide a sua, e no Brasil parece que a data escolhida foi 15 de julho.

Eh… então, dia do homem. Que coisa ridícula. Sério mesmo. E digo isso porque o grande propósito de se criar dias para determinadas categorias é porque essas categorias são minorias, que precisam de um dia para serem simbolicamente lembradas, que precisam constantemente lutar pelos seus direitos. Ou você realmente achou que tinha dia da mulher, dia do índio e dia da consciência negra só porque era legal?

Homem não é minoria. Todo dia é dia do homem. Homem não precisa de um dia para lembrar suas lutas contra opressão. Homem não precisa de um dia para se lembrar que é homem. Então a data fica meio fora de propósito. Tipo um dia para lembrar que os homens têm privilégios, que ganham 20% a mais que as mulheres, que não são a principal vítima de violência doméstica e/ou sexual, que não foram oprimidos durante séculos, que não têm sua sexualidade regrada por uma cultura patriarcal, que não sofrem preconceito porque são homens.

Não, não tenho nada contra homem. Só acho que homens e mulheres devem ter os mesmos direitos e acho que isso não acontece em nossa sociedade. Também acho que criar datas como dia do homem, dia do heterossexual e dia do branco é simplesmente fazer piada com os dias da consciência das minorias. É fazer de tudo um carnaval. E bem, nada melhor do que fazer de tudo um carnaval para as pessoas simplesmente fecharem os olhos para questões importantes.

A Campanha da Boticário é ridícula e mais ridícula é a recepção da mesma por algumas pessoas aí na net. Dizer “Se a mulher tem um dia só dela, por que o homem não deve ter?” é jogar por terra toda uma história por trás do dia internacional da mulher, da luta da emancipação feminina. É tipo falar pra um gay que o heterossexual também tem que ter o dia dele porque ele precisa de liberdade pra se expressar. Hello, homens heterossexuais brancos se expressam o tempo todo!

E sim, campanhas publicitárias endossam a visão predominante. E sim, elas me assustam.

Posso dizer que me tornei feminista em janeiro deste ano depois de ler a Norton Anthology of Literature by Women. Já comentei a respeito dessa leitura nesse post. Comecei a ler livros teóricos sobre o assunto – na minha área que é literatura – e a ler blogs, dentre eles o famoso Escreva Lola Escreva. Pode parecer ingenuidade, mas foi quando eu percebi que existe gente que odeia feminismo. Quer dizer, eu sempre soube que machistas existiam e que por uma consequência natural, seriam contra o feminismo. Mas eu nunca achei que as pessoas poderiam odiar tanto uma linha de pensamento e pior, odiar baseando-se em idéias completamente erradas e distorcidas. E aí vão algumas delas:

5. Toda feminista é lésbica. Se não for publicamente, é uma enrustida.

Engraçado que várias pessoas me falaram isso quando eu comecei a me auto-declarar feminista. Sério. Gente que me conhece já faz anos me olhou de um jeito estranho como se de repente eu tive ficado verde. Não pessoas, nem toda feminista é lésbica. Existem feministas lésbicas? Claro. Como também existem feministas homens (sério). Uma das grandes premissas do feminismo é a liberdade sexual, o direito de escolha da mulher sobre o que fazer com a sua sexualidade. Se ela quiser expressar sua sexualidade com outra mulher, well, é uma escolha pessoal. Mas não existe essa de feminista=lésbica. Isso foi a TV que te contou.

4. As feministas querem tomar o lugar dos homens.

Quê? Primeiro, existe um “lugar dos homens”? Existe uma linha pintada no chão onde os homens ficam com a plaquinnha “Lugar dos homens – mulheres se afastem”? O feminismo não quer tomar nada de ninguém, só quer igualdade. Ninguém vai sair por aí roubando emprego de homem ou batendo em homem na rua (isso, pessoas, é o machismo que faz). O feminismo só luta pelos mesmos direitos o que se significa que se uma mulher quiser ser piloto de avião ela tem o direito a fazer uma prova, fazer o curso e ser aprovada se tirar boas notas. Feminismo luta por direitos iguais ou seja, as mesmas chances na vida.

3. Feminista que se casa não é feminista de verdade.

Engraçado que as pessoas têm a imagem de feministas como essas mulheres frias e sozinhas, morando numa casa entupida de livros, morrendo de rancor no coração. Que isso. Se o ponto principal do feminismo é a escolha da mulher, então ela tem direito de escolher se casar. Óbvio que casamento aqui não será aquele casamento da sua vó em que ela abaixava a cabeça, fazia comida duas vezes por dia, arrumava a casa sozinha e sem reclamar. Estamos falando de casamento em que haja uma união de verdade. Ou seja, as duas partes são responsáveis pelo funcionamento da casa e da relação, partilham suas obrigações e deveres, têm os mesmos direitos e compensações. Peraí, não isso que o casamento deveria ser a princípio mesmo?

2. Feminismo e machismos são duas linhas extremistas que não devem ser seguidas.

Esse é um pensamento muito confortável para a maioria das pessoas. Aquele discurso de que feminismo e machismo são dois lados da mesma moeda e que o bom mesmo é ser neutro. Não, você não é neutro. Neutralidade não existe. O feminismo não é uma linha extremista e não tem nada a ver com mulheres no comando dominando homens. Diferente do machismo, o feminismo respeita a liberdade de expressão, a diversidade, o direito de escolha, a voz das minorias.

1. Não há lugar para lutas feministas no mundo de hoje. As mulheres já têm seus direitos garantidos por lei.

De todos os pensamentos, esse é o mais perigoso. As mulheres têm seus direitos garantidos por lei, mas essa lei se cumpre ou é eficiente? E os casos de estupro? E a violência doméstica? E a discriminação? E a categoria “vadia” aplicada para mulheres com vida sexual ativa que não são casadas? E o fato que muitas mulheres bem qualificadas perdem a chance de um emprego simplesmente porque são mulheres? E o fato de que as mulheres ganham 20% a menos que os homens? E o preconceito? E as piadas de mal gosto? E não, isso não é paranóia, é a realidade. Em dúvida, dê uma olhada nas estatísticas do IBGE ou tente dar uma analisada nas tais “crenças populares”. Você ainda tem certeza que a mulher é tratada de uma forma justa comparada a um homem?

Enfim. É isso. *respira de alívio*

Esse post é a continuação de uma série que traz a trajetória de The Runaways, a primeira banda de rock formada exclusivamente por garotas. Para ler o post anterior sobre o início da banda em 1975 clique aqui. Lembrando que essa idéia faz parte do projeto Born To Be a Runaways Fan e que todas as informações foram checadas em fontes relacionadas à banda. O que é fofoca musical não confirmada, eu sinalizo. E mais uma vez, no final do post temos a bibliografia. Então vamos continuar de onde paramos: Jackie Fox se torna uma Runaway.

É engraçado como a formação clássica das Runaways cria um esteriótipo dos vários tipos de garota. Jackie Fox comenta o fato em seu blog (fazendo um paralelo engraçado entre The Runaways e Spice Girls) e mais tarde Joan Jett diz a mesma coisa nos comentários em audio do filme The Runaways (estrelado por Kristen Stweart e Dakota Fanning). Se cada Runaway era um tipo de garota, então que tipos são esses?

Cherie e Lita como opostos

Primeiramente temos a garota visual, performática, fashion e drama queen: Cherrie Currie, sem sombra de dúvida. Ela inclusive se tornou uma espécie de imagem visual de The Runaways, especialmente na época da turnê no Japão (assunto para outro post). Cherie lançou moda com o corte de cabelo a la David Bowie para garotas e seu modo de portar no palco, extremamente performático e exagerado, fez escola. Mas Cherie também foi (e é) a rainha do drama e a verdade é que sua versão sobre os acontecimentos varia de acordo com as décadas.

Se por um lado temos a performance, de outro temos a pura energia nervosa, frequentemente taxada de masculina, de Lita Ford. Lita é o oposto de Cherie, e de um jeito bem interessante. As duas são performáticas em certo sentido, mas enquanto Cherie apela para o lado fashion, Lita vai pela via do “vamos quebrar tudo e deixar essa p**** surtada”. Lita, que nos anos 80 foi chamada de “rainha do metal”, está na lista das que querem chocar pelo barulho e pela ferocidade, sem se preocupar em formar conceitos ou seguir uma linha de pensamento. Lembrando que isso se aplica às duas como artistas, não a suas respectivas vidas pessoais.

Joan Jett de certa forma sempre funcionou como o espírito da banda. Digo espírito no sentido de que ela era quem dava uma sustentação, uma atitude, uma certa coerência. Joan dava a base das coisas (e ironicamente ela toca guitarra base rs) e pode ser considerada a feminista da banda. De todos os membros, ela é quem manteve o discurso mais coerente em relação à música, ao rock e à questão das mulheres no cenário musical. A grande maioria das músicas de The Runaways é de autoria ou tem co-autoria de Joan. Além disso, nos registros de shows ao vivo, é possível perceber que ela é quem se comporta como a líder da banda, conversando com a platéia, apresentando as músicas, fazendo os comentários de “C´mon”, “Let´s go” e “Now everybody”, mesmo que Cherie fosse, na época, a vocalista oficial.

Num contraponto com Joan, temos Jackie, com seu lado não necessariamente feminista, mas decididamente mais feminino. Jackie é de certa forma o cérebro da banda e certamente a componente que tinha mais senso crítico em relação às músicas. Em seu blog, ela escreveu sobre a gravação de Queens of Noise e fez uma crítica bem racional a respeito do setlist, criticando, inclusive, músicas de sua própria autoria. Mas mesmo com esse lance crítico e intelectual, Jackie sempre foi rechaçada pelas outras Runaways por ser sensível demais. No documentário Edgeplay, Lita diz: “Jackie, eu te amo, mas você é uma hipocondríaca”. De acordo com o resto da banda, Jackie era muito sensível e sempre achava que estava doente, além de se preocupar em manter as unhas feitas (mesmo sendo uma baixista), fato que gerava uma certa irritação em Lita, especialmente. A contribuição de Jackie nas composições da banda são sempre regadas a linhas elegantes. Um exemplo é a faixa “Hollywood”.

Sandy, sempre imensamente feliz na bateria...

Já Sandy West é frequentemente mencionada pelos fãs como “o coração” de The Runaways. E é verdade. Sandy é o tipo de garota esportiva, ativa, engraçada, mas que não tem lá muita maldade sendo facilmente influenciável. Nos vídeos ao vivo não tem como não se emocionar ao ver Sandy na bateria, sorrindo o tempo todo, como se aquele lugar fosse o melhor do mundo. Não tem como negar em Sandy um certo quê de inocência, de ingenuidade, típico daqueles que vivem pelo coração. Suas declarações sobre a banda são carregadas dessa vibração.

Em 1976, The Runaways era a única banda de rock de garotas na California e possivelmente a única que realmente se levava a sério dos EUA. A partir desse ano, as garotas deixaram de tocar nos clubes de Los Angeles para fazer uma turnê pelo país. Kim Fowley tinha a idéia de que se a banda fizesse uma turnê tocando de graça (ou praticamente de graça) acabaria chamando a atenção de alguma gravadora. E foi isso que aconteceu. Depois de uma turnê tensa contando com um carro para cinco garotas mais o gerente Scott Anderson (Kim Fowley nunca foi para a estrada com a banda) e vários quartos de hotel de quinta categoria, The Runaways assinou com a Mercury Records.

O primeiro album de estúdio, intitulado The Runaways saiu no primeiro semestre de 1976. Kim Fowley foi o produtor musical do disco (sim, na época eram discos) e o esquema de gravação era aquele de “dobra as guitarras e os vocais” tão praticado na década de 70. Foi basicamente Fowley quem armou o album e suas excentricidades valem nota. Cherie Currie gravou os vocais no escuro, segundo Jackie Fox e a própria Cherie. A idéia é que se ela se sentisse feia, cantaria melhor. Os abusos de Fowley já foram muito comentados na mídia e aparecem de forma bem explícita no filme The Runaways e mais detalhado no documentário Edgeplay.

Kim Fowley e Jackie Fox: a relação complicada entre empresário e membros da banda era permeada por altos e baixos. Apesar dos abusos, ele era o que prometia o sucesso...

O caso é que Fowley gritava o tempo todo, falava palavrão, humilhava as garotas e colocava umas contra as outras (de forma a impedir que elas se rebelassem contra ele). Todos os membros da banda concordam que ele pegava mais pesado com Cherie e com Jackie na época, talvez pelo fato de Lita Ford simplesmente gritar de volta quando ouvia algo que não queria, por Joan estar muito focada na música e por Sandy não ser do tipo que leva desaforo pra casa. Em Edgeplay, as ex-Runaways  retratam Fowley como um filho da mãe abusivo e bullying que além de tratá-las como lixo, não as pagava. O caso é que Kim Fowley detinha nada menos do que 100% dos direitos autorais sobre as músicas de The Runaways. Ou seja, as garotas não recebiam nada sobre o que produziam. Cherie Currie diz em sua autobiografia que elas praticamente imploravam por dinheiro para comprar comida e cigarro. Jackie Fox, novamente em seu blog, diz que Fowley não pagava nem o que era obrigado a pagar por ano pela lei da California. Além disso, ele ainda detinha o direito de tutor sobre as garotas quando essas estavam em turnê. Sua falta de responsabilidade também inclui oferecer alcool, cigarro e drogas a um bando de adolescentes. Em relação à questão de abuso sexual, Sandy West diz em Edgeplay “Não é a mim que você deve perguntar”, mas o assunto não é abordado por nenhuma outra integrante.

Jackie Fox não gravou baixou no disco de estréia da banda

Um dado importante sobre a gravação de The Runaways é que Jackie Fox não tocou baixo no album. Fowley a proibiu de tocar e pagou o baixista do Blondie, Nigel Harrison para fazer o trabalho. A verdade é que Jackie tocava baixo a poucos meses e ela mesma diz que passou apertado nos primeiros tempos. Antes dos ensaios (que eram feitos em um galpão imundo), ela ficava com Sandy West praticando:

Eu era uma guitarrista antes de entrar pra banda, então levou um tempo pra que eu enfiasse na cabeça que eu era parte da sessão rítmo. Sandy ajudou demais com isso – quando eu entrei pra banda ela e eu íamos ensair mais cedo e ela treinava comigo. Lá pelo fim do meu tempo com a banda, acho que nós éramos realmente capazes de trabalhar juntas numa unidade.

http://www.myspace.com/jackiefuchs/blog/474018410

Título: The Runaways

Lançamento: 1976

Gravadora: Mercury Records

Produção: Kim Fowley

Fotografia: Tom Gold

1. Cherry Bomb (Jett/Fowley): provavelmente a música mais conhecida da banda. Para ver mais sobre a composição, leia o post anterior a esse. Cherie Currie canta solo na música.

2. You Drive Me Wild (Jett): a primeira música que Joan Jett compôs na vida. Ela diz que ainda se lembra de estar no quarto trabalhando nela. Joan canta solo e a faixa recebeu algumas críticas por ter uma adolescente de 16 anos gemendo logo depois do solo de guitarra. De acordo com Joan, essa é uma música sobre conexão íntima.

3. Is It Day Or Night? (Fowley): uma música sobre ressaca. A pegada forte de guitarra e baixo é característica marcante. Eu pessoalmente, gosto muito. O vocal solo é de Cherie.

4. Thunder (Kari Chrome/Mark Anthony): nessa faixa Cherie e Joan dividem os vocais, apesar de que o vocal de Joan está bem mais baixo do que o de Cherie, dando a impressão de que só a última canta. No refrão, no entanto, é possível perceber que Joan também está cantando solo e não segunda voz.

5. Rock ´N´ Roll (Lou Reed): um cover da música do Velvet Underground que eu, pessoalmente, acho bem melhor do que o original. A versão é mais agressiva e mais rápida do que do Velvet e a letra ganha um novo significado, uma vez que é sobre uma garota chamada Jenny que ouve rock no rádio e muda sua vida. Nessa versão de estúdio Joan canta solo, mas nas apresentações ao vivo, Cherie cantava solo. Eu prefiro Cherie cantando.

6. Lovers (Jett/Fowley): uma espécie de baladinha Runaways. Joan canta solo que quer encontrar um amor, mas um amor mais revoltado. Mas aí a música muda no refrão para um “eu sei que você também me ama”. Um tanto inconsistente, mas legal. Cherie canta o back.

7. American Nights (Fowley/Mark Anthony): um verdadeiro clássico da banda e uma espécie de hino ao rock and roll. Cherie canta solo sobre as festas em L.A., sobre como o pessoal é tão estranho na noite e como as Runaways são “as rainhas do barulho – a resposta para os seus sonhos”. Cherie toca piano no solo.

8. Blackmail (Jett/Fowley): Joan canta solo nessa música sobre vingança. A idéia é de fazer o horror na vida de algum amor do passado. “Você vai desejar nunca ter nascido – chantagem / Eu vou fazer você pagar pela vida que estragou – chantagem”. Apesar da letra meio boba, a vocal de Joan é muito bom com direito aos gritos que seriam sua característica alguns anos depois e a pegada é bem divertida.

9. Secrets (Jett/Fowley/Krome/West/Currie): outro clássico da banda com um vocal poderoso de Cherie e back de Joan. “Secrets” fala sobre coisas que você faz quando ninguém vê. Existe uma versão de “Secrets” com Micki Steele nos vocais. Cherie contribuiu com algumas modificações no rítmo.

10. Dead End Justice (Jett/Fowley/Scott Anderson/Currie): uma espécie de favorito underground entre os fãs da banda. “Dead End Justice” é a fusão de duas músicas “Dead End Kids” e “Justice” e tem 10 minutos. Em duas partes, a faixa conta a história de duas adolescentes em L.A. (Joan e Cherie) que aproveitavam a noite surtando nas ruas mas que são presas por consumo de drogas. As duas vão parar numa prisão juvenil e começam a planejar a fuga. Ao fim da saga, Cherie leva um tiro do guarda e Joan fica com a escolha de ir sozinha ou morrer junto com a amiga. As Runaways costumavam encenar a música no palco com Jackie e Lita como guardas. Cherie espalhava sangue falso na blusa e na boca e fingia a morte.

Parte interna do album. Logo antes do setlist, Joan Jett deixa uma mensagem: "Esse álbum é para os jovens na idade e para os jovens no coração. É para aqueles que sabem o quanto é bom ser jovem e que aproveitam sua juventude do melhor jeito que sabem. Aproveite escutar esse álbum tanto quanto nós amamos escrever, tocar, cantar e cria-lo pra vocês. Quando ouvirem essas músicas, vocês vão lembrar de toda diversão que estão tendo em ser e permanecer jovens. Afinal, as pessoas dizem que esses são os melhores anos de nossas vidas. Bem, nós sabemos que são e aproveitamos cada minuto. Pegue esse álbum, viva-o e ame-o. Das Runaways pra vocês. Joan Jett."

O album se tornou uma espécie de clássico cult da época, apesar de nunca ter tido muitas vendas. É importante lembrar que na época ver cinco adolescentes cantando sobre sexo, drogas e rock ´n´roll era um absurdo e a banda enfrentou muito preconceito, inclusive no próprio meio do rock. Os relatos falam de objetos atirados no palco, xingamentos e sabotagem nos shows. As Runaways eram ainda ridicularizadas por uma imprensa machista que ou as chamavam de patricinhas revoltadas sem motivo ou de prostitutas. Elas eram acusadas de não saber tocar (apesar de provaverem o contrário nos shows) e de estarem denegrindo a imagem da mulher nos EUA. Tocando apenas com homens em show de rock, elas sofriam todo tipo de agressão verbal e moral. Joan Jett diz que, no entanto, algumas bandas mostravam algum respeito e “proteção”. Entre elas Led Zeppelin, Motorhead, Kiss e Cheap Trick. No entanto, alguns comentários maldosos da época:

New Musical Express, Agosto de 1976 e Creem, Novembro de 1976: Como bonecas barbie, essa banda é composta de garotas tentando ser garotos.  Na verdade, elas eram garotas tentando agir como David Bowie que tentava agir de modo alternativo como uma garota ou um andróide… Então onde está tudo isso? Garoto ou garota, um poser é um poser.

Creem Magazine, Abril de 1977 – Essas putas são um lixo. É tudo que se tem a dizer. Apesar do que o coordenador da West Coast Blow Job possa dizer elas não são nada boas, elas são tão ruins que são boas nisso, elas não são nada.

http://www.myspace.com/jackiefuchs/blog/505527614

A contra-capa do disco insiste em mostar a idade de cada uma delas... A estratégia de marketing de Fowley era de bater na tecla de que elas eram adolescentes...

Essa retaliação não é uma surpresa se pensarmos que até então a única mulher no rock de mainstream era Suzi Quatro. E mesmo assim Suzi tinha uma banda formada por homens e tocava baixo, não guitarra, algo tão associado ao masculino. Kim Fowley também insistia em fazer uma divulgação baseada no fato de as garotas serem adolescentes, o que, sinceramente ajudava pouco a combater o preconceito. Em meio a esse cenário, The Runaways partiu para mais uma turnê nacional a fim de divulgar o primeiro album. Dentre os shows dessa turnê, está o famoso show no clube Agora, em Cleeveland, em julho de 1976. O show foi gravado da mesa de som e lançado não oficialmente.

Título: Live at the Agora

Gravação: 19 de julho de 1976 em Cleeveland, Ohio

A gravação foi feita diretamente da mesa de som e o disco nunca foi lançado oficialmente. Imagino que alguém deve ter divulgado a fita. Na internet, o selo Ballroom Records vem associado à contra-capa, mas as informações são bem incertas.

As músicas marcadas em vermelho fazendo parte do album The Runaways.

1. California Paradise: nessa versão o baixo está péssimo. Sinceramente, está bem bobo, parecendo trilha de desenho animado. Num contraponto, os vocais de Cherie estão impecáveis. É incrível como ela canta igualzinho ao album de estúdio e faz parecer fácil. As guitarras estão baixas.

2. Cherry BombLita Ford faz um pequeno solo muito bacana no início da música. Cherie canta maravilhosamente bem como sempre, mas o “cherry bomb” do refrão fica por conta das outras Runaways.

3. Take It Or Leave It: Joan canta solo, mas seu microfone está bem baixo. Lita dá uma mascada feia no riff da introdução.

4. Secrets: Versão ao vivo impecável com Jackie Fox arrasando nas linhas de baixo. Joan canta solo o primeiro verso, o que é novidade, mas seu microfone está bem baixo. Cherie cantando é sensacional.

5. You Drive Me Wild: Apesar do microfone baixo, Joan consegue levantar a galera com essa música. Com certeza uma das melhores do album.

6. C´mon: Também uma das melhores do album, “C´mon” conta com uma interpretação ótima de Cherie e Joan no back. Lita também faz um solo maravilhoso.

7. Blackmail: Muito bacana essa música tocada ao vivo. Gosto especialmente do baixo e da guitarra base. No final da faixa, Joan apresenta a banda e foca nas idades de cada uma. Influência total de Kim Fowley.

8. Wild Thing: Sandy West, que sempre canta no coro das músicas, canta solo nessa música. Mas apesar de sua interpretação ser impecável, Lita “sujou” a música com alguns riffs desnecessários. Ficou confuso.

9. Don´t Use Me: De longe a melhor do album, com a melhor interpretação e execução. “Don´t Use Me” mais tarde teve a letra modificada e virou “Don´t Abuse Me”.

10. Rock ´N´Roll: com Cherie nos vocais solo. Joan tenta animar a galera para cantar junto, mas a coisa só funciona mesmo quando ela diz que estão gravando. Versão mais rápida que a gravada em estúdio.

11. Is It Day Or Night?: muito boa também, destaque para Joan na guitarra base.

12. Johny Guitar: clássica comparação de rock com relação sexual. Lita Ford num solo épico e bem, bem longo, ao ritmo de blues.

13. Dead End Justice: por que não temos um vídeo disso???? Extremamente performática. E Cherie, mesmo sendo a drama queen mor, é um talento. Gosto do solo de Lita nessa música. E do famoso “But Cherie you must try harder” (“Mas Cherie você deve tentar mais a sério”) que até virou piada interna da banda.

O final de "Dead End Justice" com Jackie como o guarda e a morte de Cherie. A banda saia do palco e deixava as duas. Jackie então fingia espancar Cherie e depois saía deixando a loira "morta" alguns minutos no palco.

Final de "Dead End Justice" quando Cherie usa o sangue falso para fingir que está morrendo.

Logo após a turnê nacional, The Runaways embarcou em uma turnê pela Europa. Mas esse post já está muito grande, então fica para o próximo.

Bibliografia:

Mesmo que post anterior. Clique na tag para checar.

The Runaways (filme); comentários em audio de Joan Jett, Kristen Stweart e Dakota Fanning.

Esse post faz parte do projeto Born to be a Runaways fan. A idéia é oferecer informação de qualidade sobre The Runaways para o público que não lê em inglês. Todas as informações contidas nessa série de artigos sairam de fontes e depoimentos ligados aos membros da banda. A bibliografia em inglês está no final desse post.

 Em 1975, Joan Jett (então Joan Larkin) conheceu o controverso produtor musical Kim Fowley na saída de um clube noturno (Rodney´s English Disco). Joan, então com 16 anos, disse que tocava guitarra e que gostaria de formar uma banda só de garotas. Foi através de Kari Chrome, uma garota de 14 anos com quem Joan costumava sair às vezes para baladas glam rock, que Joan ficou sabendo de Fowley, que achou a idéia bacana e perguntou se Joan tinha uma demo. Ela nem sabia o que era uma demo. Vale lembrar que Kari Chrome contribuiu com algumas letras para The Runaways, entre elas “Thunder” e o clássico “California Paradise”.

Alguns dias depois, Sandy West (então Sandy Passavento), também com 16 anos, abordou Fowley na saída de um restaurante (The Rainbow) em Hollywood dizendo que tocava bateria em uma banda com garotos, mas que queria tocar numa banda só de meninas. Lembrando da conversa com Joan anteriormente, Kim Fowley deu o telefone de Joan para Sandy.

Sandy e Joan em 1975

 Quando Joan Jett tomou três ônibus até a garagem da casa de Sandy West o início de The Runaways começou a ser traçado.

Nós simplesmente sentimos aquele clique. Nós fechamos na hora – disse Joan Jett – Ela era tão simpática e extrovertida. Ela era como eu: era um tomboy, amava esportes, era durona. Eu não acreditei em como ela tocava. Ela era tão sólida, forte, poderosa, uma baterista muito boa. E eu não quero nem dizer boa por ter 16 anos – por ter qualquer idade! Ela tinha aquela puta qualidade e era poderoso!

http://www.laweekly.com/2010-03-18/music/the-runaways-wild-thing/

Da esq. pra dir.: Micki Steele, Sandy West e Joan Jett em 1975 quando a banda ainda era um trio

As duas garotas ligaram para Fowley e ele, ao ouvir toda aquela energia saindo apenas de uma guitarra e uma bateria,  resolveu começar a banda e sair procurando garotas que tocavam algum instrumento em clubes noturnos e festinhas em L.A.

A primeira garota a entrar para as Runaways foi Micki Steele (então Michael Steele) tocando baixo. Durante os primeiros meses, a banda foi um trio. Juntas, Sandy, Joan e Micki gravaram uma demo que foi lançada em 1991 sob o título de Born to be Bad. Micki cantava solo na maioria das músicas.

The Runaways em sua primeira formação. E sim, essa é a cor natural do cabelo de Joan Jett!!! O cabelo preto foi aparecer em 1976…

 Título: Born to be bad

Lançamento: 1991

Gravação: 1975

Gravadora: nenhuma (coleção de demos)

As músicas marcadas de roxo apareceram em albums posteriores da banda (regravados):

1. Yesterday´s Kids (Kari Chrome – informação não confirmada)
2. Is It Day or Night? (Kim Fowley)
3. Let´s Party Tonight (sem informação)
4. All Right Now (A. Fraser / P. Rodgers) Cover da band inglesa Free.
5. Thunder (Mark Anthony / Kari Chrome)
6. Rock & Roll (Lou Reed) Cover do Velvet Underground.
7. American Nights (Mark Anthony / Kim Fowley)
8. California Paradise (Kari Crhome / Kim Fowley / Joan Jett / Sandy West)
9. I´m a Star (sem informação)
10. You Drive Me Wild (Joan Jett)
11. Born to Be Bad (Kim Fowley / Micki Steele / Sandy West)
12. Wild Thing ( Chip Taylor) Cover do The Troggs que é na verdade um cover de The Wild Ones.

Opinião: A qualidade da gravação não é boa e vale lembrar que a banda estava bem no início e ainda experimentava com os instrumentos. No entanto, é interessante ouvir o início de tudo. Principalmente pela chance de ouvir Micki Steele nos vocais. Clássicos como “You Drive Me Wild”, “California Paradise” e “American Nights” em suas primeiras versões já soam muito bons. Mas se é a primeira vez que você escuta The Runaways na vida não é uma boa forma de se começar. Comece pelo Live in Japan.

A primeira demo da banda foi gravada em agosto de 1975 e logo após a gravação Lita Ford (então Carmelita Ford) entrou para a banda. Lita originalmente fez o teste para o posto de baixista. No entanto, durante um intervalo, ela pegou a guitarra e começou a tocar com Sandy:

“Eu entrei e Sandy e eu nos topamos logo de cara” – disse Ford – “Eu comecei a tocar uma música antiga do Deep Purple, ´Highway Star´. Ela sabia a música inteira e eu nem acreditei. Nós só tocamos. E assim que terminamos era tipo “Eu te amo”.

http://www.laweekly.com/2010-03-18/music/the-runaways-wild-thing/

Lita Ford com um olhar inocente… Quem diria, não?

No documentário Egdeplay, Lita diz que  Joan fez um “Isso foi incrível” quando ela e Sandy terminaram de tocar. Como o posto de baixista já estava ocupado, Lita tornou-se a guitarrista solo. Dona de um temperamento difícil e frequentemente classificado como agressivo, a loira com então 17 anos tinha uma habilidade fora do comum para a guitarra. Ainda no documentário mencionado, Lita diz que sempre teve em mente a imagem que Kim Fowley lhe passou no telefone chamando-a para o teste: fama. Dirigindo de Long Beach até L.A., ela deu a chance da banda melhorar a qualidade musical explorando solos e fazendo contrapontos entre guitarra base e solo.

“Meus pais me disseram para correr atrás disso. Minha maior indicação de que meus pais estavam me apoiando foi quando Kim Fowley me ligou e me passou a idéia de me juntar a The Runaways. Eu desliguei o telefone, virei pra minha mãe e disse “Quem é esse cara? Algum tipo de pervertido?” e minha mãe disse “Vai lá, Lita, vá pra Hollywood e toque com essas garotas”.

http://www.sing365.com/music/lyric.nsf/Lita-Ford-Biography/05DD00253A08DBA748256D570027666E

 Mas essa nova característica não veio fácil. Lita quase não ficou na banda e chegou a desistir por um curto período de tempo por conta de diferenças musicais. Ao contrário das outras garotas, Lita já dominava seu instrumento a muitos anos e curtia um rock mais pesado com pegadas mais complexas. O rock mais básico de The Runaways não lhe fazia muito a cabeça. Além disso, ela não topava com Kim Fowley. Mas percebendo as boas vibrações da banda e vendo nela uma oportunidade para crescer musicalmente, Lita ficou e aos poucos foi imprimindo sua marca de rock agressiva.

Cherie Currie e o famoso corte de cabelo a la David Bowie…

Em novembro de 1975, The Runaways faz sua primeira apresentação para o público no famoso clube Whisky-a-Go-Go em Hollywood. Até então elas tocavam em festas pela região. Foi por essa época que Kim Fowley e Joan Jett conheceram as gêmeas Marie and Cherie Currie então com 15 anos. Fowley então convida Cherie para fazer um teste para entrar para a banda. No documentário Egdeplay, Kari Chrome diz que não sabe ao certo se Fowley tinha planejado colocar uma loira bonita como vocalista ou se foi apenas uma coincidência.

 O fato é que Cherie Currie (e sim, esse é o nome verdadeiro dela) apareceu para o teste de vocalista sem saber cantar nenhuma música. Fowley tinha dito a ela para aprender uma música de Suzi Quatro, mas ela escolheu “Fever”, uma música lenta que ninguém conhecia. Foi então que Joan Jett e Kim Fowley foram para uma sala vazia ao lado do galpão e fizeram “Cherry Bomb” em menos de 30 minutos. A música é um trocadilho com o nome de Cherie e a palavra “cherry” que significa cereja em inglês. A idéia é de uma garota aparentemente doce mas que é rebelde. E rebelde aqui engloba alguma conotação sexual e muito barulho. Cherie aprendeu a cantar a música e mais tarde foi aceita na banda na posição de vocalista solo.

Da esq. pra dir.: Joan Jett, Micki Steele, Peggy Foster, Sandy West, Cherie Currie e Lita Ford. No meio, Kim Fowley.

ERRATA: Pessoal, de acordo com informações do Facebook Sandy West – The Beat Goes On, que é um Facebook bem confiável atualmente atualizado por um amigo pessoal da própria Sandy, a garota de cabelos encaracolados da foto acima é Peggy Foster e não Micki Steele. De acordo com algumas evidências, inclusive a biografia de Cherie Currie, Micki Steele nunca chegou a tocar no mesmo line-up que Cherie. Quando Cherie entrou na banda, Kim Fowley estava à procura de uma nova baixista e vocalista pras Runaways. O teste de Lita Ford pra o baixo, inclusive, foi uma tentativa de substituir Micki.

 Pouco tempo depois Micki Steele abandona o grupo. Sua saída tem muitas versões, mas a difundida pela própria Micki é de que ela teria sido demitida por Fowley por não aceitar as investidas sexuais dele e por achar “Cherry Bomb” uma música estúpida. Fowley rebateu diversas vezes dizendo que Micki não tinha a “mágica” necessária para a carreira musical.

Peggy Foster substitui Micki no baixo mas dura apenas três semanas. Motivo: uma briga com Cherie Currie sobre quem cantaria a música “I´m your fantasy”. Cherie mais tarde diria que não se sentia confortável cantando sobre ser a fantasia de alguém e muda a música para “You´re my fantasy”. A música, lenta e brega, não implaca e nunca foi gravada.

Jackie Fox praticamente aprendeu a tocar baixo depois que entrou pra banda…

Nesse contexto entra Jackie Fox (então Jacqueline Fuchs) para ocupar o posto, novamente vago, de baixista. Jackie já tinha tentado entrar para The Runaways como guitarrista, mas não tinha passado no teste. Kim Fowley então liga para ela após a saída de Peggy Foster dizendo que ainda achava que ela poderia se dar bem na banda.  É comum que guitarristas tenham alguma noção de como tocar baixo,   então Jackie faz o teste para baixista com um baixo emprestado. Todos os membros da banda votaram para que Jackie entrasse, de menos Lita Ford. Cherie convence Lita a deixar Jackie entrar, mas mais tarde no documentário Edgeplay, Cherie disse que na época estava cansada e que realmente não se importava com quem entrasse para a banda.

Com a entrada de Jackie, temos a formação clássica de The Runaways.

A formação mais popular de The Runaways teve início no final de 1975

Bibliografia (em inglês):

Runaways Stories: blog com o acervo de histórias escritas por Jackie Fox sobre a banda.

The Runaways: Wild Thing: Matéria do L.A. Weekly sobre Sandy West e sua trajetória musical e pessoal.

Joan Jett: A Girl, A Runaway: Entrevista com Joan Jett em que ela conta sua experiência com a banda.

Wikipedia (Micki Steele): Página de Micki Steele na Wikipedia.

Wikipedia (The Runaways): Apesar de muita informação estar incorreta (ou pelo menos não confirmada), vale a pena dar uma olhada nas páginas dos albuns.

Lita Ford Biography: resumo da biografia de Lita Ford dentro e fora de The Runaways.

Perfil de Jackie Fox no Facebook: a verdadeira Jackie Fox.

Perfil de Jackie Fox no Twitter: também a verdadeira.

Perfil de Jackie Fox no My Space: contém informações sobre a banda no blog.

Site oficial The Runaways: o site é ligado diretamente a Joan Jett. Tem um design legal mas informações bem resumidas.

Perfil The Runaways Tribute no Facebook:  vale pelas fotos.

Edgeplay: A Movie About The Runaways: documentário feito pela também ex-Runaway Victory Trishler-Blue.

Neon Angel: A Memoir of a Runaway: biografia de Cherie Currie co-escrita pela própria. Lembrando que Cherie é uma drama queen,então alguns fatos devem ser encarados com cautela. Isso sem falar que cocaína raramente ajuda a lembrar das coisas com coerência.


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