Mundo de Coisas Minhas

Archive for maio 2011

Esse post é a continuação de uma série que traz a trajetória de The Runaways, a primeira banda de rock formada exclusivamente por garotas. Para ler o post anterior sobre o início da banda em 1975 clique aqui. Lembrando que essa idéia faz parte do projeto Born To Be a Runaways Fan e que todas as informações foram checadas em fontes relacionadas à banda. O que é fofoca musical não confirmada, eu sinalizo. E mais uma vez, no final do post temos a bibliografia. Então vamos continuar de onde paramos: Jackie Fox se torna uma Runaway.

É engraçado como a formação clássica das Runaways cria um esteriótipo dos vários tipos de garota. Jackie Fox comenta o fato em seu blog (fazendo um paralelo engraçado entre The Runaways e Spice Girls) e mais tarde Joan Jett diz a mesma coisa nos comentários em audio do filme The Runaways (estrelado por Kristen Stweart e Dakota Fanning). Se cada Runaway era um tipo de garota, então que tipos são esses?

Cherie e Lita como opostos

Primeiramente temos a garota visual, performática, fashion e drama queen: Cherrie Currie, sem sombra de dúvida. Ela inclusive se tornou uma espécie de imagem visual de The Runaways, especialmente na época da turnê no Japão (assunto para outro post). Cherie lançou moda com o corte de cabelo a la David Bowie para garotas e seu modo de portar no palco, extremamente performático e exagerado, fez escola. Mas Cherie também foi (e é) a rainha do drama e a verdade é que sua versão sobre os acontecimentos varia de acordo com as décadas.

Se por um lado temos a performance, de outro temos a pura energia nervosa, frequentemente taxada de masculina, de Lita Ford. Lita é o oposto de Cherie, e de um jeito bem interessante. As duas são performáticas em certo sentido, mas enquanto Cherie apela para o lado fashion, Lita vai pela via do “vamos quebrar tudo e deixar essa p**** surtada”. Lita, que nos anos 80 foi chamada de “rainha do metal”, está na lista das que querem chocar pelo barulho e pela ferocidade, sem se preocupar em formar conceitos ou seguir uma linha de pensamento. Lembrando que isso se aplica às duas como artistas, não a suas respectivas vidas pessoais.

Joan Jett de certa forma sempre funcionou como o espírito da banda. Digo espírito no sentido de que ela era quem dava uma sustentação, uma atitude, uma certa coerência. Joan dava a base das coisas (e ironicamente ela toca guitarra base rs) e pode ser considerada a feminista da banda. De todos os membros, ela é quem manteve o discurso mais coerente em relação à música, ao rock e à questão das mulheres no cenário musical. A grande maioria das músicas de The Runaways é de autoria ou tem co-autoria de Joan. Além disso, nos registros de shows ao vivo, é possível perceber que ela é quem se comporta como a líder da banda, conversando com a platéia, apresentando as músicas, fazendo os comentários de “C´mon”, “Let´s go” e “Now everybody”, mesmo que Cherie fosse, na época, a vocalista oficial.

Num contraponto com Joan, temos Jackie, com seu lado não necessariamente feminista, mas decididamente mais feminino. Jackie é de certa forma o cérebro da banda e certamente a componente que tinha mais senso crítico em relação às músicas. Em seu blog, ela escreveu sobre a gravação de Queens of Noise e fez uma crítica bem racional a respeito do setlist, criticando, inclusive, músicas de sua própria autoria. Mas mesmo com esse lance crítico e intelectual, Jackie sempre foi rechaçada pelas outras Runaways por ser sensível demais. No documentário Edgeplay, Lita diz: “Jackie, eu te amo, mas você é uma hipocondríaca”. De acordo com o resto da banda, Jackie era muito sensível e sempre achava que estava doente, além de se preocupar em manter as unhas feitas (mesmo sendo uma baixista), fato que gerava uma certa irritação em Lita, especialmente. A contribuição de Jackie nas composições da banda são sempre regadas a linhas elegantes. Um exemplo é a faixa “Hollywood”.

Sandy, sempre imensamente feliz na bateria...

Já Sandy West é frequentemente mencionada pelos fãs como “o coração” de The Runaways. E é verdade. Sandy é o tipo de garota esportiva, ativa, engraçada, mas que não tem lá muita maldade sendo facilmente influenciável. Nos vídeos ao vivo não tem como não se emocionar ao ver Sandy na bateria, sorrindo o tempo todo, como se aquele lugar fosse o melhor do mundo. Não tem como negar em Sandy um certo quê de inocência, de ingenuidade, típico daqueles que vivem pelo coração. Suas declarações sobre a banda são carregadas dessa vibração.

Em 1976, The Runaways era a única banda de rock de garotas na California e possivelmente a única que realmente se levava a sério dos EUA. A partir desse ano, as garotas deixaram de tocar nos clubes de Los Angeles para fazer uma turnê pelo país. Kim Fowley tinha a idéia de que se a banda fizesse uma turnê tocando de graça (ou praticamente de graça) acabaria chamando a atenção de alguma gravadora. E foi isso que aconteceu. Depois de uma turnê tensa contando com um carro para cinco garotas mais o gerente Scott Anderson (Kim Fowley nunca foi para a estrada com a banda) e vários quartos de hotel de quinta categoria, The Runaways assinou com a Mercury Records.

O primeiro album de estúdio, intitulado The Runaways saiu no primeiro semestre de 1976. Kim Fowley foi o produtor musical do disco (sim, na época eram discos) e o esquema de gravação era aquele de “dobra as guitarras e os vocais” tão praticado na década de 70. Foi basicamente Fowley quem armou o album e suas excentricidades valem nota. Cherie Currie gravou os vocais no escuro, segundo Jackie Fox e a própria Cherie. A idéia é que se ela se sentisse feia, cantaria melhor. Os abusos de Fowley já foram muito comentados na mídia e aparecem de forma bem explícita no filme The Runaways e mais detalhado no documentário Edgeplay.

Kim Fowley e Jackie Fox: a relação complicada entre empresário e membros da banda era permeada por altos e baixos. Apesar dos abusos, ele era o que prometia o sucesso...

O caso é que Fowley gritava o tempo todo, falava palavrão, humilhava as garotas e colocava umas contra as outras (de forma a impedir que elas se rebelassem contra ele). Todos os membros da banda concordam que ele pegava mais pesado com Cherie e com Jackie na época, talvez pelo fato de Lita Ford simplesmente gritar de volta quando ouvia algo que não queria, por Joan estar muito focada na música e por Sandy não ser do tipo que leva desaforo pra casa. Em Edgeplay, as ex-Runaways  retratam Fowley como um filho da mãe abusivo e bullying que além de tratá-las como lixo, não as pagava. O caso é que Kim Fowley detinha nada menos do que 100% dos direitos autorais sobre as músicas de The Runaways. Ou seja, as garotas não recebiam nada sobre o que produziam. Cherie Currie diz em sua autobiografia que elas praticamente imploravam por dinheiro para comprar comida e cigarro. Jackie Fox, novamente em seu blog, diz que Fowley não pagava nem o que era obrigado a pagar por ano pela lei da California. Além disso, ele ainda detinha o direito de tutor sobre as garotas quando essas estavam em turnê. Sua falta de responsabilidade também inclui oferecer alcool, cigarro e drogas a um bando de adolescentes. Em relação à questão de abuso sexual, Sandy West diz em Edgeplay “Não é a mim que você deve perguntar”, mas o assunto não é abordado por nenhuma outra integrante.

Jackie Fox não gravou baixou no disco de estréia da banda

Um dado importante sobre a gravação de The Runaways é que Jackie Fox não tocou baixo no album. Fowley a proibiu de tocar e pagou o baixista do Blondie, Nigel Harrison para fazer o trabalho. A verdade é que Jackie tocava baixo a poucos meses e ela mesma diz que passou apertado nos primeiros tempos. Antes dos ensaios (que eram feitos em um galpão imundo), ela ficava com Sandy West praticando:

Eu era uma guitarrista antes de entrar pra banda, então levou um tempo pra que eu enfiasse na cabeça que eu era parte da sessão rítmo. Sandy ajudou demais com isso – quando eu entrei pra banda ela e eu íamos ensair mais cedo e ela treinava comigo. Lá pelo fim do meu tempo com a banda, acho que nós éramos realmente capazes de trabalhar juntas numa unidade.

http://www.myspace.com/jackiefuchs/blog/474018410

Título: The Runaways

Lançamento: 1976

Gravadora: Mercury Records

Produção: Kim Fowley

Fotografia: Tom Gold

1. Cherry Bomb (Jett/Fowley): provavelmente a música mais conhecida da banda. Para ver mais sobre a composição, leia o post anterior a esse. Cherie Currie canta solo na música.

2. You Drive Me Wild (Jett): a primeira música que Joan Jett compôs na vida. Ela diz que ainda se lembra de estar no quarto trabalhando nela. Joan canta solo e a faixa recebeu algumas críticas por ter uma adolescente de 16 anos gemendo logo depois do solo de guitarra. De acordo com Joan, essa é uma música sobre conexão íntima.

3. Is It Day Or Night? (Fowley): uma música sobre ressaca. A pegada forte de guitarra e baixo é característica marcante. Eu pessoalmente, gosto muito. O vocal solo é de Cherie.

4. Thunder (Kari Chrome/Mark Anthony): nessa faixa Cherie e Joan dividem os vocais, apesar de que o vocal de Joan está bem mais baixo do que o de Cherie, dando a impressão de que só a última canta. No refrão, no entanto, é possível perceber que Joan também está cantando solo e não segunda voz.

5. Rock ´N´ Roll (Lou Reed): um cover da música do Velvet Underground que eu, pessoalmente, acho bem melhor do que o original. A versão é mais agressiva e mais rápida do que do Velvet e a letra ganha um novo significado, uma vez que é sobre uma garota chamada Jenny que ouve rock no rádio e muda sua vida. Nessa versão de estúdio Joan canta solo, mas nas apresentações ao vivo, Cherie cantava solo. Eu prefiro Cherie cantando.

6. Lovers (Jett/Fowley): uma espécie de baladinha Runaways. Joan canta solo que quer encontrar um amor, mas um amor mais revoltado. Mas aí a música muda no refrão para um “eu sei que você também me ama”. Um tanto inconsistente, mas legal. Cherie canta o back.

7. American Nights (Fowley/Mark Anthony): um verdadeiro clássico da banda e uma espécie de hino ao rock and roll. Cherie canta solo sobre as festas em L.A., sobre como o pessoal é tão estranho na noite e como as Runaways são “as rainhas do barulho – a resposta para os seus sonhos”. Cherie toca piano no solo.

8. Blackmail (Jett/Fowley): Joan canta solo nessa música sobre vingança. A idéia é de fazer o horror na vida de algum amor do passado. “Você vai desejar nunca ter nascido – chantagem / Eu vou fazer você pagar pela vida que estragou – chantagem”. Apesar da letra meio boba, a vocal de Joan é muito bom com direito aos gritos que seriam sua característica alguns anos depois e a pegada é bem divertida.

9. Secrets (Jett/Fowley/Krome/West/Currie): outro clássico da banda com um vocal poderoso de Cherie e back de Joan. “Secrets” fala sobre coisas que você faz quando ninguém vê. Existe uma versão de “Secrets” com Micki Steele nos vocais. Cherie contribuiu com algumas modificações no rítmo.

10. Dead End Justice (Jett/Fowley/Scott Anderson/Currie): uma espécie de favorito underground entre os fãs da banda. “Dead End Justice” é a fusão de duas músicas “Dead End Kids” e “Justice” e tem 10 minutos. Em duas partes, a faixa conta a história de duas adolescentes em L.A. (Joan e Cherie) que aproveitavam a noite surtando nas ruas mas que são presas por consumo de drogas. As duas vão parar numa prisão juvenil e começam a planejar a fuga. Ao fim da saga, Cherie leva um tiro do guarda e Joan fica com a escolha de ir sozinha ou morrer junto com a amiga. As Runaways costumavam encenar a música no palco com Jackie e Lita como guardas. Cherie espalhava sangue falso na blusa e na boca e fingia a morte.

Parte interna do album. Logo antes do setlist, Joan Jett deixa uma mensagem: "Esse álbum é para os jovens na idade e para os jovens no coração. É para aqueles que sabem o quanto é bom ser jovem e que aproveitam sua juventude do melhor jeito que sabem. Aproveite escutar esse álbum tanto quanto nós amamos escrever, tocar, cantar e cria-lo pra vocês. Quando ouvirem essas músicas, vocês vão lembrar de toda diversão que estão tendo em ser e permanecer jovens. Afinal, as pessoas dizem que esses são os melhores anos de nossas vidas. Bem, nós sabemos que são e aproveitamos cada minuto. Pegue esse álbum, viva-o e ame-o. Das Runaways pra vocês. Joan Jett."

O album se tornou uma espécie de clássico cult da época, apesar de nunca ter tido muitas vendas. É importante lembrar que na época ver cinco adolescentes cantando sobre sexo, drogas e rock ´n´roll era um absurdo e a banda enfrentou muito preconceito, inclusive no próprio meio do rock. Os relatos falam de objetos atirados no palco, xingamentos e sabotagem nos shows. As Runaways eram ainda ridicularizadas por uma imprensa machista que ou as chamavam de patricinhas revoltadas sem motivo ou de prostitutas. Elas eram acusadas de não saber tocar (apesar de provaverem o contrário nos shows) e de estarem denegrindo a imagem da mulher nos EUA. Tocando apenas com homens em show de rock, elas sofriam todo tipo de agressão verbal e moral. Joan Jett diz que, no entanto, algumas bandas mostravam algum respeito e “proteção”. Entre elas Led Zeppelin, Motorhead, Kiss e Cheap Trick. No entanto, alguns comentários maldosos da época:

New Musical Express, Agosto de 1976 e Creem, Novembro de 1976: Como bonecas barbie, essa banda é composta de garotas tentando ser garotos.  Na verdade, elas eram garotas tentando agir como David Bowie que tentava agir de modo alternativo como uma garota ou um andróide… Então onde está tudo isso? Garoto ou garota, um poser é um poser.

Creem Magazine, Abril de 1977 – Essas putas são um lixo. É tudo que se tem a dizer. Apesar do que o coordenador da West Coast Blow Job possa dizer elas não são nada boas, elas são tão ruins que são boas nisso, elas não são nada.

http://www.myspace.com/jackiefuchs/blog/505527614

A contra-capa do disco insiste em mostar a idade de cada uma delas... A estratégia de marketing de Fowley era de bater na tecla de que elas eram adolescentes...

Essa retaliação não é uma surpresa se pensarmos que até então a única mulher no rock de mainstream era Suzi Quatro. E mesmo assim Suzi tinha uma banda formada por homens e tocava baixo, não guitarra, algo tão associado ao masculino. Kim Fowley também insistia em fazer uma divulgação baseada no fato de as garotas serem adolescentes, o que, sinceramente ajudava pouco a combater o preconceito. Em meio a esse cenário, The Runaways partiu para mais uma turnê nacional a fim de divulgar o primeiro album. Dentre os shows dessa turnê, está o famoso show no clube Agora, em Cleeveland, em julho de 1976. O show foi gravado da mesa de som e lançado não oficialmente.

Título: Live at the Agora

Gravação: 19 de julho de 1976 em Cleeveland, Ohio

A gravação foi feita diretamente da mesa de som e o disco nunca foi lançado oficialmente. Imagino que alguém deve ter divulgado a fita. Na internet, o selo Ballroom Records vem associado à contra-capa, mas as informações são bem incertas.

As músicas marcadas em vermelho fazendo parte do album The Runaways.

1. California Paradise: nessa versão o baixo está péssimo. Sinceramente, está bem bobo, parecendo trilha de desenho animado. Num contraponto, os vocais de Cherie estão impecáveis. É incrível como ela canta igualzinho ao album de estúdio e faz parecer fácil. As guitarras estão baixas.

2. Cherry BombLita Ford faz um pequeno solo muito bacana no início da música. Cherie canta maravilhosamente bem como sempre, mas o “cherry bomb” do refrão fica por conta das outras Runaways.

3. Take It Or Leave It: Joan canta solo, mas seu microfone está bem baixo. Lita dá uma mascada feia no riff da introdução.

4. Secrets: Versão ao vivo impecável com Jackie Fox arrasando nas linhas de baixo. Joan canta solo o primeiro verso, o que é novidade, mas seu microfone está bem baixo. Cherie cantando é sensacional.

5. You Drive Me Wild: Apesar do microfone baixo, Joan consegue levantar a galera com essa música. Com certeza uma das melhores do album.

6. C´mon: Também uma das melhores do album, “C´mon” conta com uma interpretação ótima de Cherie e Joan no back. Lita também faz um solo maravilhoso.

7. Blackmail: Muito bacana essa música tocada ao vivo. Gosto especialmente do baixo e da guitarra base. No final da faixa, Joan apresenta a banda e foca nas idades de cada uma. Influência total de Kim Fowley.

8. Wild Thing: Sandy West, que sempre canta no coro das músicas, canta solo nessa música. Mas apesar de sua interpretação ser impecável, Lita “sujou” a música com alguns riffs desnecessários. Ficou confuso.

9. Don´t Use Me: De longe a melhor do album, com a melhor interpretação e execução. “Don´t Use Me” mais tarde teve a letra modificada e virou “Don´t Abuse Me”.

10. Rock ´N´Roll: com Cherie nos vocais solo. Joan tenta animar a galera para cantar junto, mas a coisa só funciona mesmo quando ela diz que estão gravando. Versão mais rápida que a gravada em estúdio.

11. Is It Day Or Night?: muito boa também, destaque para Joan na guitarra base.

12. Johny Guitar: clássica comparação de rock com relação sexual. Lita Ford num solo épico e bem, bem longo, ao ritmo de blues.

13. Dead End Justice: por que não temos um vídeo disso???? Extremamente performática. E Cherie, mesmo sendo a drama queen mor, é um talento. Gosto do solo de Lita nessa música. E do famoso “But Cherie you must try harder” (“Mas Cherie você deve tentar mais a sério”) que até virou piada interna da banda.

O final de "Dead End Justice" com Jackie como o guarda e a morte de Cherie. A banda saia do palco e deixava as duas. Jackie então fingia espancar Cherie e depois saía deixando a loira "morta" alguns minutos no palco.

Final de "Dead End Justice" quando Cherie usa o sangue falso para fingir que está morrendo.

Logo após a turnê nacional, The Runaways embarcou em uma turnê pela Europa. Mas esse post já está muito grande, então fica para o próximo.

Bibliografia:

Mesmo que post anterior. Clique na tag para checar.

The Runaways (filme); comentários em audio de Joan Jett, Kristen Stweart e Dakota Fanning.

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Esse post faz parte do projeto Born to be a Runaways fan. A idéia é oferecer informação de qualidade sobre The Runaways para o público que não lê em inglês. Todas as informações contidas nessa série de artigos sairam de fontes e depoimentos ligados aos membros da banda. A bibliografia em inglês está no final desse post.

 Em 1975, Joan Jett (então Joan Larkin) conheceu o controverso produtor musical Kim Fowley na saída de um clube noturno (Rodney´s English Disco). Joan, então com 16 anos, disse que tocava guitarra e que gostaria de formar uma banda só de garotas. Foi através de Kari Chrome, uma garota de 14 anos com quem Joan costumava sair às vezes para baladas glam rock, que Joan ficou sabendo de Fowley, que achou a idéia bacana e perguntou se Joan tinha uma demo. Ela nem sabia o que era uma demo. Vale lembrar que Kari Chrome contribuiu com algumas letras para The Runaways, entre elas “Thunder” e o clássico “California Paradise”.

Alguns dias depois, Sandy West (então Sandy Passavento), também com 16 anos, abordou Fowley na saída de um restaurante (The Rainbow) em Hollywood dizendo que tocava bateria em uma banda com garotos, mas que queria tocar numa banda só de meninas. Lembrando da conversa com Joan anteriormente, Kim Fowley deu o telefone de Joan para Sandy.

Sandy e Joan em 1975

 Quando Joan Jett tomou três ônibus até a garagem da casa de Sandy West o início de The Runaways começou a ser traçado.

Nós simplesmente sentimos aquele clique. Nós fechamos na hora – disse Joan Jett – Ela era tão simpática e extrovertida. Ela era como eu: era um tomboy, amava esportes, era durona. Eu não acreditei em como ela tocava. Ela era tão sólida, forte, poderosa, uma baterista muito boa. E eu não quero nem dizer boa por ter 16 anos – por ter qualquer idade! Ela tinha aquela puta qualidade e era poderoso!

http://www.laweekly.com/2010-03-18/music/the-runaways-wild-thing/

Da esq. pra dir.: Micki Steele, Sandy West e Joan Jett em 1975 quando a banda ainda era um trio

As duas garotas ligaram para Fowley e ele, ao ouvir toda aquela energia saindo apenas de uma guitarra e uma bateria,  resolveu começar a banda e sair procurando garotas que tocavam algum instrumento em clubes noturnos e festinhas em L.A.

A primeira garota a entrar para as Runaways foi Micki Steele (então Michael Steele) tocando baixo. Durante os primeiros meses, a banda foi um trio. Juntas, Sandy, Joan e Micki gravaram uma demo que foi lançada em 1991 sob o título de Born to be Bad. Micki cantava solo na maioria das músicas.

The Runaways em sua primeira formação. E sim, essa é a cor natural do cabelo de Joan Jett!!! O cabelo preto foi aparecer em 1976…

 Título: Born to be bad

Lançamento: 1991

Gravação: 1975

Gravadora: nenhuma (coleção de demos)

As músicas marcadas de roxo apareceram em albums posteriores da banda (regravados):

1. Yesterday´s Kids (Kari Chrome – informação não confirmada)
2. Is It Day or Night? (Kim Fowley)
3. Let´s Party Tonight (sem informação)
4. All Right Now (A. Fraser / P. Rodgers) Cover da band inglesa Free.
5. Thunder (Mark Anthony / Kari Chrome)
6. Rock & Roll (Lou Reed) Cover do Velvet Underground.
7. American Nights (Mark Anthony / Kim Fowley)
8. California Paradise (Kari Crhome / Kim Fowley / Joan Jett / Sandy West)
9. I´m a Star (sem informação)
10. You Drive Me Wild (Joan Jett)
11. Born to Be Bad (Kim Fowley / Micki Steele / Sandy West)
12. Wild Thing ( Chip Taylor) Cover do The Troggs que é na verdade um cover de The Wild Ones.

Opinião: A qualidade da gravação não é boa e vale lembrar que a banda estava bem no início e ainda experimentava com os instrumentos. No entanto, é interessante ouvir o início de tudo. Principalmente pela chance de ouvir Micki Steele nos vocais. Clássicos como “You Drive Me Wild”, “California Paradise” e “American Nights” em suas primeiras versões já soam muito bons. Mas se é a primeira vez que você escuta The Runaways na vida não é uma boa forma de se começar. Comece pelo Live in Japan.

A primeira demo da banda foi gravada em agosto de 1975 e logo após a gravação Lita Ford (então Carmelita Ford) entrou para a banda. Lita originalmente fez o teste para o posto de baixista. No entanto, durante um intervalo, ela pegou a guitarra e começou a tocar com Sandy:

“Eu entrei e Sandy e eu nos topamos logo de cara” – disse Ford – “Eu comecei a tocar uma música antiga do Deep Purple, ´Highway Star´. Ela sabia a música inteira e eu nem acreditei. Nós só tocamos. E assim que terminamos era tipo “Eu te amo”.

http://www.laweekly.com/2010-03-18/music/the-runaways-wild-thing/

Lita Ford com um olhar inocente… Quem diria, não?

No documentário Egdeplay, Lita diz que  Joan fez um “Isso foi incrível” quando ela e Sandy terminaram de tocar. Como o posto de baixista já estava ocupado, Lita tornou-se a guitarrista solo. Dona de um temperamento difícil e frequentemente classificado como agressivo, a loira com então 17 anos tinha uma habilidade fora do comum para a guitarra. Ainda no documentário mencionado, Lita diz que sempre teve em mente a imagem que Kim Fowley lhe passou no telefone chamando-a para o teste: fama. Dirigindo de Long Beach até L.A., ela deu a chance da banda melhorar a qualidade musical explorando solos e fazendo contrapontos entre guitarra base e solo.

“Meus pais me disseram para correr atrás disso. Minha maior indicação de que meus pais estavam me apoiando foi quando Kim Fowley me ligou e me passou a idéia de me juntar a The Runaways. Eu desliguei o telefone, virei pra minha mãe e disse “Quem é esse cara? Algum tipo de pervertido?” e minha mãe disse “Vai lá, Lita, vá pra Hollywood e toque com essas garotas”.

http://www.sing365.com/music/lyric.nsf/Lita-Ford-Biography/05DD00253A08DBA748256D570027666E

 Mas essa nova característica não veio fácil. Lita quase não ficou na banda e chegou a desistir por um curto período de tempo por conta de diferenças musicais. Ao contrário das outras garotas, Lita já dominava seu instrumento a muitos anos e curtia um rock mais pesado com pegadas mais complexas. O rock mais básico de The Runaways não lhe fazia muito a cabeça. Além disso, ela não topava com Kim Fowley. Mas percebendo as boas vibrações da banda e vendo nela uma oportunidade para crescer musicalmente, Lita ficou e aos poucos foi imprimindo sua marca de rock agressiva.

Cherie Currie e o famoso corte de cabelo a la David Bowie…

Em novembro de 1975, The Runaways faz sua primeira apresentação para o público no famoso clube Whisky-a-Go-Go em Hollywood. Até então elas tocavam em festas pela região. Foi por essa época que Kim Fowley e Joan Jett conheceram as gêmeas Marie and Cherie Currie então com 15 anos. Fowley então convida Cherie para fazer um teste para entrar para a banda. No documentário Egdeplay, Kari Chrome diz que não sabe ao certo se Fowley tinha planejado colocar uma loira bonita como vocalista ou se foi apenas uma coincidência.

 O fato é que Cherie Currie (e sim, esse é o nome verdadeiro dela) apareceu para o teste de vocalista sem saber cantar nenhuma música. Fowley tinha dito a ela para aprender uma música de Suzi Quatro, mas ela escolheu “Fever”, uma música lenta que ninguém conhecia. Foi então que Joan Jett e Kim Fowley foram para uma sala vazia ao lado do galpão e fizeram “Cherry Bomb” em menos de 30 minutos. A música é um trocadilho com o nome de Cherie e a palavra “cherry” que significa cereja em inglês. A idéia é de uma garota aparentemente doce mas que é rebelde. E rebelde aqui engloba alguma conotação sexual e muito barulho. Cherie aprendeu a cantar a música e mais tarde foi aceita na banda na posição de vocalista solo.

Da esq. pra dir.: Joan Jett, Micki Steele, Peggy Foster, Sandy West, Cherie Currie e Lita Ford. No meio, Kim Fowley.

ERRATA: Pessoal, de acordo com informações do Facebook Sandy West – The Beat Goes On, que é um Facebook bem confiável atualmente atualizado por um amigo pessoal da própria Sandy, a garota de cabelos encaracolados da foto acima é Peggy Foster e não Micki Steele. De acordo com algumas evidências, inclusive a biografia de Cherie Currie, Micki Steele nunca chegou a tocar no mesmo line-up que Cherie. Quando Cherie entrou na banda, Kim Fowley estava à procura de uma nova baixista e vocalista pras Runaways. O teste de Lita Ford pra o baixo, inclusive, foi uma tentativa de substituir Micki.

 Pouco tempo depois Micki Steele abandona o grupo. Sua saída tem muitas versões, mas a difundida pela própria Micki é de que ela teria sido demitida por Fowley por não aceitar as investidas sexuais dele e por achar “Cherry Bomb” uma música estúpida. Fowley rebateu diversas vezes dizendo que Micki não tinha a “mágica” necessária para a carreira musical.

Peggy Foster substitui Micki no baixo mas dura apenas três semanas. Motivo: uma briga com Cherie Currie sobre quem cantaria a música “I´m your fantasy”. Cherie mais tarde diria que não se sentia confortável cantando sobre ser a fantasia de alguém e muda a música para “You´re my fantasy”. A música, lenta e brega, não implaca e nunca foi gravada.

Jackie Fox praticamente aprendeu a tocar baixo depois que entrou pra banda…

Nesse contexto entra Jackie Fox (então Jacqueline Fuchs) para ocupar o posto, novamente vago, de baixista. Jackie já tinha tentado entrar para The Runaways como guitarrista, mas não tinha passado no teste. Kim Fowley então liga para ela após a saída de Peggy Foster dizendo que ainda achava que ela poderia se dar bem na banda.  É comum que guitarristas tenham alguma noção de como tocar baixo,   então Jackie faz o teste para baixista com um baixo emprestado. Todos os membros da banda votaram para que Jackie entrasse, de menos Lita Ford. Cherie convence Lita a deixar Jackie entrar, mas mais tarde no documentário Edgeplay, Cherie disse que na época estava cansada e que realmente não se importava com quem entrasse para a banda.

Com a entrada de Jackie, temos a formação clássica de The Runaways.

A formação mais popular de The Runaways teve início no final de 1975

Bibliografia (em inglês):

Runaways Stories: blog com o acervo de histórias escritas por Jackie Fox sobre a banda.

The Runaways: Wild Thing: Matéria do L.A. Weekly sobre Sandy West e sua trajetória musical e pessoal.

Joan Jett: A Girl, A Runaway: Entrevista com Joan Jett em que ela conta sua experiência com a banda.

Wikipedia (Micki Steele): Página de Micki Steele na Wikipedia.

Wikipedia (The Runaways): Apesar de muita informação estar incorreta (ou pelo menos não confirmada), vale a pena dar uma olhada nas páginas dos albuns.

Lita Ford Biography: resumo da biografia de Lita Ford dentro e fora de The Runaways.

Perfil de Jackie Fox no Facebook: a verdadeira Jackie Fox.

Perfil de Jackie Fox no Twitter: também a verdadeira.

Perfil de Jackie Fox no My Space: contém informações sobre a banda no blog.

Site oficial The Runaways: o site é ligado diretamente a Joan Jett. Tem um design legal mas informações bem resumidas.

Perfil The Runaways Tribute no Facebook:  vale pelas fotos.

Edgeplay: A Movie About The Runaways: documentário feito pela também ex-Runaway Victory Trishler-Blue.

Neon Angel: A Memoir of a Runaway: biografia de Cherie Currie co-escrita pela própria. Lembrando que Cherie é uma drama queen,então alguns fatos devem ser encarados com cautela. Isso sem falar que cocaína raramente ajuda a lembrar das coisas com coerência.

This post has an English and a Portuguese version / Esse post tem uma versão em inglês e em português.

Next month Main Records is going to release Take it or Leave It: A Tribute to the Original Queens of Noise: The Runaways. The 2-dics album features 36 tracks performed by many bands including an “American Nights” version featuring Cherie Currie herself and a last recording by Sandy West. Click here for more information about the album. The setlist:

  1. Queens of Noise (The Donnas)
  2. Black Leather (Shonen Knife)
  3. I Love Playin’ With Fire (The Binges)
  4. Heartbeat (Bebe Buell Band)
  5. Lovers (Deena & The Laughing Boys)
  6. California Paradise (Frankenstein 3000)
  7. Wasted (Delirium Tremens)
  8.  Wild Thing (Richie Scarlet)
  9. Neon Angels On The Road To Ruin (Blue Fox)
  10. Is It Day Or Night (The Easy Outs featuring The Doughboys Gar Francis)
  11. Little Lost Girls (Laura Warshauer)
  12. C’mon (White Flag)
  13. You’re Too Possessive (Cali Giraffes featuring The Fastback’s Kim Warnick)
  14. You Drive Me Wild (Tara Elliott & The Red Velvets)
  15. Thunder (Planet Sorrow)
  16. Yesterday’s Kids (Robbie Rist)
  17. Little Sister (Serpenteens)
  18. School Days (The Adolescents)
  19. Dirty Magazines (Blue Fox featuring Sandy West)
  20. Cherry Bomb (The Dandy Warhols)
  21. Hollywood (Richard Barone)
  22. Saturday Night Special (Care Bears On Fire featuring Earl Slick)
  23. Gotta Get Out Tonight (Derwood Andrews)
  24. Blackmail (David Johansen)
  25. Trash Can Murders (The Ribeye Brothers)
  26. Rock N’ Roll (Digger Phelps)
  27. Born To Be Bad (Toilet Boys)
  28. Midnight Music (The Swales)
  29. American Nights (Frankenstein 3000 featuring Cherie Currie)
  30. I Wanna Be Where The Boys Are (F-13)
  31. Gettin’ Hot (The Stay At Homes)
  32. Fantasies (Kittie)
  33. Waitin’ For The Night (Starz)
  34. Secrets (Jack Brag)
  35. Don’t Go Away (Clinical Trials)
  36. Dead End Justice (Kathleen Hanna, Peaches & Ad-Rock)

http://www.kikaxemusic.com/news/covered/item/3638-all-star-tribute-to-the-runaways-coming-in-june-full-tracklisting-and-participating-artists-revealed

After seeing this tribute to the band, I´ve decided to launch a fan tribute myself. It´s a project called Born to be a Runaways Fan.

The idea is that we – the Runaways fans – do something in order to celebrate the band. And it can be done in many ways. You can post something about them on your Facebook Profile or your blog; you can comment on a song lyrics; you can post a photo; you can post a video on Youtube; you can record yourself singing something; you can dance; you can tell your story about the first time you listened to the band; you can talk about how much your friends just don´t understand why you´re so fucking in love with the band; you can do whatever you want to express you´re a Runaways fan. All you have to do is use the banner and spread the news to Runaways fans. Feel free!

Let´s rock!

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