Mundo de Coisas Minhas

Archive for novembro 2010

Faz um tempo que eu queria comentar sobre esse livro que foi um dos melhores que li esse ano. Comprei logo depois de assistir o filme Comer, Rezar, Amar estrelado por Julia Roberts e baseado no livro de mesmo nome escrito por Elizabeth Gilbert. Comprometida conta o que aconteceu com Liz (o livro é uma autobiografia) depois de encontrar Felipe naquela praia maravilhosa em Bali.

No livro, Liz se encontra num verdadeiro martírio que é se casar com Felipe. Isso pode parecer um grande contra-senso uma vez que eles dizem ser o amor da vida um do outro, mas a verdade é que eles juraram nunca se casar. Isso por conta do trauma do divórcio. O problema é que Felipe é brasileiro de nacionalidade australiana e é proibido de entrar nos Estados Unidos. Para ficarem juntos, eles precisam se casar legalmente. Calma, não contei nada demais, isso acontece logo nas primeiras páginas.

Gilbert escreve de um jeito leve e engraçado, discutindo o mundo feminino com elegância e realidade. Nada de idealizações, nada de fantasias. A idéia da escritora foi de estudar a instituição casamento já que se veria dentro dela em poucos meses. Então o livro é cheio de referências históricas, casos, reflexões, entrevistas e pensamentos sobre a instituição casamento em várias culturas. Por conta disso, achei que a tradução brasileira do título “Comprometida – Uma história de amor” dá uma idéia completamente equivocada a respeito do que se trata o livro. Afinal, não é uma história de amor, é uma história sobre o casamento.

Obviamente que há relatos da vida a dois de Liz e Felipe, mas tudo de uma forma muito sutil. E a falta de perfeição afasta o livro da categoria “Chick-Lit” para chegar num ponto em que você não sabe se está lendo um livro de memórias, um livro de história ou uma tese sobre a condição feminina no casamento através dos tempos. Tudo isso de uma forma sensível e tocante, que faz com que seja possível refletir sobre aspectos importantes do casamento e sobre uma perguntal fundamental que poucas pessoas fazem: “Por que quero me casar?”.

Esse livro veio de uma forma muito pessoal para mim pois eu mesma estava às voltas pensando no assunto, mas sem nunca ter realmente refletido no aspecto institucional e histórico da coisa. Quer dizer, se casar por amor é tudo que eu sempre pensei, mas existem outras coisas por trás. E são nessas coisas que temos que pensar. Gilbert diz que precisamos encontrar algo que nos faça acreditar no casamento antes de embarcar nele. E seu livro é a representação física dessa busca que ela empreendeu. Engraçado que a reposta que ela encontrou foi uma resposta muito parecida com a minha própria: quero me casar porque casamento é uma instituição que resistiu a todo tipo de revolução e coerção. Nada no mundo jamais impediu que as pessoas se unissem, o que faz deste uma instituição de subversão. O casamento é uma expressão, assim como a arte, e cabe ao casal desenhar seus limites e traçar seus padrões.

Recomendo este livro a todos que se interessem não só sobre o casamento, mas sobre questões da mulher em geral. Ah, e não espere que seja no estilo de Comer, Rezar, Amar. Comprometida bate muito mais de frente com a realidade e levanta questões práticas, não existenciais.

Finalmente uma adaptação da série teve um saldo positivo no fim das contas. Depois de fazer cinco filmes de roteiro fraco, Steve Kloves acertou a mão como roteirista e conseguiu fazer algo decente.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que adaptação fílmica é uma tradução de algo que está na mídia literária para a mídia cinematográfica. Sendo uma tradução, toda adaptação fílmica acaba sendo uma interpretação que precisa se adequar à mídia cinema. Isso é óbvio, porque não faz sentido simplesmente usar todas as falas e descrições do livro no cinema e apesar de algumas pessoas acreditarem que esse é o caminho, além de inviável em termos de tempo e espaço, ficaria horrível.

Adaptações sempre privilegiam algum aspecto. Por exemplo: algumas adaptações prezam por manter o chamado “espírito da obra”, ou seja, mudanças de roteiro grandes podem ser feitas, mas no fim das contas o que conta é a caracterização dos personagens, o ritmo, etc. Um exemplo desse tipo é o filme Desventuras em Série que apesar de ter mudado radicalmente o curso dos eventos dos livros 1, 2 e 3 da série, manteve a mesma atmosfera do livro. Já um outro tipo poderia ser aquele que privilegia a história a ser contada em detrimento da ambientação. Um exemplo bom seria O Iluminado, filme de Kubrick baseado na obra de Stephen King. Raríssimos filmes conseguem unir as duas coisas. Pra se ter uma idéia do quanto isso é difícil, o exemplo dado é O Senhor dos Anéis.

O grande problema das adaptações de Harry Potter feitas por Steve Kloves no roteiro (vale lembrar que Harry Potter e a Ordem da Fênix foi adaptado por outro roteirista, Michael Goldenberg, e é uma adaptação excelente que privilegiou o “espírito da obra”) é que ele realmente não sabe o que fazer. A impressão que se tem é que ele fica perdido e não consegue se decidir se mantém o clima do livro, se tenta contar a história, se cria coisas que ele acha que deveriam estar lá ou simplesmente não faz nada. Na minha opinião, Kloves é um roteirista medíocre que não consegue fazer escolhas: ele tenta colocar tudo, tenta criar um clima mas no final só consegue um punhado de cenas aleatórias sem sentido e algumas cenas longas demais tiradas da sua própria imaginação tosca que não acrescentam nada ao filme.

Estou sendo muito cruel? Huuum, vamos ver:

  • Harry Potter e a Pedra Filosofal: Kloves até consegue contar a história inteira e criar frases de efeito, mas a impressão que se tem é que não há passagem de tempo na história! Ou seja, tudo pode ter acontecido em um mês, ou uma semana, ou quem sabe até em vários anos…
  • Harry Potter e a Câmara Secreta: Mais uma vez a passagem de tempo é bem discutível. Nesse filme, Kloves começa sua louca obcessão por Hermione. Ela começa a aparecer mais, começa a roubar as falas do Ron e o fato de ela ficar um terço do filme petrificada não parece impedir nada disso.
  • Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban: Se no outro filme Hermione era a segunda personagem que mais aparecia, agora podemos começar a pensar se o melhor nome do filme não seria “Hermione Granger e o Prisioneiro de Azkaban”. Justamente quando a caracterização dos personagens começa a ficar mais importante, Kloves decide que as coisas ficariam melhor do jeito dele, ou seja, Hermione é uma bruxa preocupada com a aparência, Ron é um boboca e Harry é uma banana chorosa. Hermione rouba todas as falas legais. O background mais importante do livro (que é a história de Sirius Black – o tal prisioneiro de Azkaban do título) não foi contada. Kloves preferiu gastar tempo no cabelo de Hermione e em sentimentalismos em relação à mãe de Harry.
  • Harry Potter e o Cálice de Fogo: eita, livro de 500 páginas. As coisas começam a complicar. Qual estratégia utilizada? Cortar todos os detalhes que não influenciam na trama principal (mesmo que esses detalhes sejam importantes nos livros posteriores) e focar em cenas inúteis como em conversinhas amorosas que ele mesmo inventa.
  • Harry Potter e o Enigma do Príncipe: o ápice de Kloves. Nesse livro ele resolveu simplesmente não contar a história e fazer apenas uma collection de suas cenas favoritas. Além disso, Hermione e Harry começam a ficar bem próximos (??????????) falando sobre seus sentimentos (??????????????). Harry é um conquistador nato, Ginny é uma mocinha submissa e Dumbledore se preocupa com a vida amorosa de seus estudantes (??????????????). Isso tudo acrescentando cenas incríveis de autoria do próprio Kloves (como o puff de Slughorn para falar de quando a mãe de Harry morreu (Insensível? …………) e a ascendeção de varinha na morte do Dumbledore, que fez o final do filme parecer um show do Coldplay. Ah, e ele não falou nada sobre o Príncipe Mestiço do titulo. Que chato, hein?

Dessa vez, no entanto, em Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 1, Kloves conseguiu. O filme de modo geral é muito bom. A história é contada de uma forma lógica (que avanço, hein Kloves?) com um balanço bom entre comédia e drama. No entanto, o filme peca nos detalhes. Kloves não tem sensibilidade para cenas dramáticas e a maoria delas ficou um tanto novelas da Televisa (exemplo, cena em que Harry e Hermione ficam chorando porque Ron foi embora). Além disso, Kloves ainda prefere criar suas próprias cenas inúteis ao invés de usar as cenas impactantes que já existem no livro (vide trocar a cena tocante de amizade entre Harry e Ron depois de destruir a Horcrux por uma dança (?)  entre Harry e Hermione).

Dança entre Harry e Hermione: ainda parece um resquício de que Kloves é H/H...

Alguns detalhes beiram o brega. Entre eles, a gotinha de sangue escorrendo do braço de Hermione, Harry abotoando o vestido de Ginny Weasley e a tal dança acima mencionada. O beijo da Horcrux do mal entre Harry e Hermione completamente nus ficou, no mínimo, cômico. Mas não sei até quando isso foi uma decisão do roteirista ou da direção. Algumas cenas parecem ilógicas, até. Por exemplo: por que Harry, Ron e Hermione começaram a correr dos Snatchers se eles simplesmente podiam aparatar?

Harry e Ginny: sem graça e brega

Mas como eu disse, o filme teve saldo positivo. A caracterização de Lupin ficou muito boa apesar de não termos aquela cena em que ele pede para ir com Harry. As cenas entre Ron e Hermione também foram ótimas, com momentos de comédia e romance. A tensão entre os dois foi bem feita, principalmente quando Ron vai embora e depois volta. As sequências de ação da invasão ao Ministério da Magia, de Nagini atacando Harry e Hermione em Godric´s Hollow e da briga na Mansão Malfoy foram as melhores de toda a série no cinema. Inclusive, até o momento tocante de Harry no cemitério dos pais foi muito bom e emocionante. A morte de Dobby também foi um ponto alto do filme.

O casal Ron e Hermione foi um dos pontos altos do filme…

O filme surpreendeu no roteiro. Daria nota 3 de 5.

No meu outro blog, Livros de Fantasia, acabei de postar um podcast hilário sobre Harry Potter gravado juntamente com a Amanda. Quem é fã da série e quem não é, mas quer rir muito, é só entrar no blog e ouvir.

A Internet – pelo menos como a rede mundial que a conhecemos hoje e não como um reduto de informações para nerds americanos – é uma moça de 15 anos. E como todas as moças dessa idade, ela pode fazer coisas ótimas, com insights incríveis (como conectar pessoas) mas também pode fazer umas merdas das grandes (como servir de veículo para proganda política enganosa).

Sempre que eu penso em internet, eu penso naquela frase Homem Aranha: “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Uma rede mundial conectando todos os computadores do mundo pode ser simplesmente a coisa mais incrível que já existiu ou a coisa mais desastrosa que já existiu. E sabe o que faz a diferença entre uma coisa e outra? Nós, usuários.

Logo que a Dilma foi eleita, um monte de posts começaram a pulular no Twitter contendo mensagens de ódio direcionadas aos nordestinos. O número de mensagens com a tag foi tão grande que foi parar nos trending topics, ou seja, a coisa ganhou um alcance mundial. Eu, pessoalmente, não gosto do Twitter, até tenho um, mas não uso por dois motivos. 1) o número de mensagens inúteis é absurdo; 2) vou entrar em contato direto com mensagens de ódio e preconceito e sinceramente, não estou com paciência pra isso.

O gatilho de todas essas mensagens foi a estudante de direito (olha só, hein) Mayara Petruso. A mensagem dela foi a seguinte: “Nordestino não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado”. Por conta disso, ela perdeu o estágio no escritório de advocacia e ainda vai enfrentar um processo na justiça por conta de xenofobia e incitação ao homicídio. Qual não foi a minha supresa quando, ao conversar com outras pessoas a respeito do assunto, descobri que muita gente rotulou as consequências como “uma palhaçada” dizendo que “internet é internet”.

Não, internet não é internet. Você não pode falar o que quiser na internet sem sofrer as consequências. A impressão que eu tenho é que as pessoas se escondem por trás dos seus perfis de Orkut e Facebook, achando que ali é o lugar para “falar o que der na telha” porque é terra de ninguém. Não é. A internet tem provado cada vez mais ser terra de todo mundo e por isso mesmo, tem regras.

Além disso, existe um outro motivo para pensar duas vezes no que você escreve no seu blog, no Twitter ou Facebook: mensagens de ódio se propagam com muito mais rapidez do que mensagens de amor e paz. Quer um exemplo prático? Por que é que tem tanta briga entre torcidas de futebol? Por que pessoas aparentemente tranquilas de repente se vêem no meio de uma série de agressões físicas? Porque algum infeliz gritou “Dá um soco na cabeça desse desgraçado” e a turba, envolvida pela emoção do jogo, se deixa levar, transparecendo as piores tendências de cada um. Isso é cientificamente comprovado. Incitar a turma é algo perigosíssimo e pode levar a consequências desastrosas como linchamento. Uma mensagem de ódio no Twitter espalhou milhares de outras mensagens de ódio. Será que se alguém tivesse escrito “Faça um favor ao Brasil, abrace o seu próximo” isso ia ter chegado aos treding topics do Twitter? Pois é.

A responsabilidade que temos como blogueiros ou simplesmente como usuários de redes sociais é muito grande. Então, eu proponho que a gente pense um pouquinho antes de sair por aí falando “o que dá na telha” e pense: essa mensagem pode direta ou indiretamente desencadear uma onda de ódio? Ela é preconceituosa?

Tudo bem que as mensagens de amor, paz, consciência social e etc não se espalham tão fácil, mas acho que não custa nada tentar. : )

 


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